ABC - domingo , 14 de junho de 2026

Nova lei zera Imposto de Renda para 65%; no ABC isentos podem chegar a 591 mil

Cerca de 591 mil contribuintes podem entrar no grupo de isentos (Foto: Divulgação)

A nova lei do Imposto de Renda Pessoa Física, sancionada recentemente pelo governo federal, deve provocar um dos maiores impactos tributários dos últimos anos na vida dos trabalhadores do País, e esse efeito também será sentido de forma intensa no  ABC.

De acordo com estimativas oficiais, 90% dos brasileiros que pagam Imposto de Renda estarão inseridos em faixas de isenção total ou parcial, enquanto 65% dos declarantes, algo em torno de 26 milhões de pessoas, passarão a ser totalmente isentos. Ao aplicar essas proporções ao universo regional, são mais de 500 mil pessoas estejam isentas de pagar o imposto, já a partir da vigência das novas regras.

O cálculo é feito a partir dos resultados das declarações feitas este ano, no site da Receita Federal. Estimava-se que 975,5 mil declarações seriam preenchidas em 2025 no ABC, no entanto, até o fechamento do prazo, foram entregues pouco mais de 908 mil, número quase 7% abaixo do previsto. Apesar da queda, a projeção permite estimar que cerca de 591 mil contribuintes do ABC – 65% do total entregue este ano – podem entrar no grupo de isentos. Ainda que a proporção exata possa variar em razão do perfil de renda de cada contribuinte, na visão de especialistas trata-se de um impacto econômico relevante.

Para o economista Ricardo Balistiero, coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), a mudança traz efeitos imediatos e perceptíveis. Segundo ele, o aumento da faixa de isenção corrige distorções históricas do sistema tributário e devolve poder de compra às famílias. “Quando entrar em vigor, no ano seguinte, vai sobrar mais dinheiro líquido no salário das pessoas – e isso vai ser consumido. Naturalmente haverá impacto positivo nas demandas ao longo do ano”, afirma.

O economista lembra que boa parte dos trabalhadores da região atua nos setores de serviços e comércio, justamente os segmentos cuja remuneração se enquadra com mais frequência nas novas faixas de isenção. “É uma mudança que, apesar de não resolver todos os problemas estruturais do IR, tem impacto concreto para as famílias e pode dar fôlego imediato ao consumo e à economia local”, completa.

Ainda assim, algumas incertezas permanecem. A queda no número de declarações entregues em 2025 pode indicar informalidade, desinformação ou desistência de declarar, o que dificulta prever com exatidão quantos moradores serão diretamente beneficiados. Além disso, nem toda pessoa que se enquadra na faixa de isenção fica dispensada da declaração – bens acima do limite legal, rendimentos não tributáveis ou ganhos eventuais podem manter muitos contribuintes obrigados a entregar o documento, mesmo sem pagar imposto. Por isso, o número final de isentos efetivos pode diferir da projeção inicial.

Seja qual for o cenário, as novas regras significam, na prática, aumento imediato de renda disponível, especialmente para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil por mês e não terão mais imposto retido na fonte. Para quem ganha acima desse valor, a redução também deve ocorrer, ainda que de forma parcial, o que alivia a carga tributária de faixas intermediárias de renda.

Comércio e serviços serão os mais afetados

A expectativa é que esse novo fôlego financeiro impulsione diretamente comércio e serviços, áreas que concentram grande parte das atividades econômicas do ABC e que tradicionalmente respondem rápido a variações na renda disponível. Com trabalhadores deixando de ter o imposto retido na fonte, o dinheiro extra tende a retornar ao consumo imediato, explica o economista Ricardo Balistiero.

“Imagina que, quando entrar em vigor, no ano seguinte vai sobrar mais dinheiro líquido no salário das pessoas e isso vai ser queimado em consumo. Naturalmente vai ter um impacto positivo em demandas e vai ser capturado ao longo do ano”, afirma. Para Balistiero, justamente por a região ter forte presença de empregos em serviços e comércio, os reflexos devem ser ainda mais perceptíveis no cotidiano das famílias e na movimentação financeira das cidades.

Com efeitos diretos na economia e reflexos imediatos na renda das famílias, a mudança também levanta dúvidas práticas: afinal, quem passa a ser isento e como confirmar o enquadramento?

Santo André prevê perda de R$ 10 milhões com nova regra do IR

Questionadas sobre as mudanças que a nova regra do IR poderia gerar aos cofres públicos, somente a Prefeitura de Santo André respondeu. Segundo a administração municipal, a mudança na alíquota do IR não gera impactos nos programas sociais que utilizam a renda como critério de priorização ou seleção, como Bolsa Família, benefícios municipais, descontos e auxílios. Isso porque esses programas sempre consideram a renda bruta familiar – o valor total recebido antes de qualquer desconto, inclusive o Imposto de Renda. Assim, mesmo com a atualização da tabela, os critérios de acesso e permanência permanecem inalterados.

Por outro lado, a prefeitura estima um impacto relevante na arrecadação municipal. Segundo a prefeitura, a alteração da tabela deve gerar queda imediata superior a R$ 10 milhões por ano no IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte) próprio do município.

Também há preocupação com possíveis reduções nos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), cuja composição inclui parte do Imposto de Renda. O efeito indireto, porém, pode ser parcialmente compensado por um eventual aumento da atividade econômica local, que tende a estimular a arrecadação de tributos como ISS e ICMS. A prefeitura reforça, no entanto, que ainda é cedo para mensurar esse movimento.

Me encaixo na nova regra?

Para saber se se encaixa nas novas regras, o contribuinte deve verificar sua renda mensal bruta e identificar em qual faixa da tabela atualizada do IRPF se enquadra — quem ganha até R$ 5 mil passa a ser totalmente isento, enquanto rendas entre R$ 5 mil e R$ 7,35 mil terão descontos progressivos na fonte.

Quem quiser confirmar o enquadramento pode consultar a simulação disponível no portal da Receita Federal ou usar calculadoras oficiais de retenção. Em caso de dúvida, a orientação é buscar ajuda de profissionais habilitados, como contadores, escritórios de contabilidade, núcleos de apoio ao contribuinte das prefeituras e até atendimentos gratuitos oferecidos por universidades e entidades de classe.

A regra é simples: “O trabalhador assalariado não precisa ter preocupação. Ele vai abrir o holerite e não vai encontrar o desconto. O salário líquido certamente vai aumentar”, afirma Balistiero. Já autônomos, MEIs e prestadores de serviço devem redobrar a atenção com o cálculo mensal, emissão de notas e eventuais deduções para evitar erros na declaração do próximo ano.

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