
A pressão sobre os síndicos de condomínios residenciais do ABC está crescendo para que eles atendam ao público que quer ter ponto de carregamento para carro elétrico nas garagens, porém a infraestrutura dos prédios não pensados para essa carga elétrica, sobretudo os mais antigos, torna a implantação cara e mesmo assim há dúvidas sobre segurança e se essa situação pode também encarecer o seguro do condomínio. Gestores de condomínios ouvidos pelo RD preferem esperar aumentar a demanda para depois colocar o assunto em assembleia.
Para o advogado, especialista em direito condominial e professor da FSA (Fundação Santo André) Vander Andrade, administrar a equação entre a realidade de um condomínio, tanto da sua parte estrutural como financeira, com a necessidade dos condôminos ficou mais difícil com mais essa novidade que pesa sobre os síndicos. “Hoje a vaga para o carro elétrico é mais uma preocupação ao lado de outras como a portaria remota, o reconhecimento facial ou administrar as entregas. Alguns empreendimentos novos, já são entregues com uma infraestrutura básica implantada para que sejam feitos os pontos de recarga conforme a necessidade, mas essa não é a realidade de todos os prédios de apartamentos hoje no ABC”, analisa o professor.
Para Andrade, que lança em breve o livro “Carros Elétricos em Condomínios – O fenômeno de eletromobilidade condominial”, escrito em parceria com o também advogado condominial, Alexandre Sobral de Almeida, a questão primeiramente é técnica. “Tem que ver se a capacidade elétrica do prédio é suficiente, se não é a concessionária de energia que também é uma vendedora de serviço, resolve. Tem que ver se é preciso ajuste interno, na cabine primária e cabeamento, depois tem os custos”.
Feitos todos os cálculos o síndico tem que chamar uma assembleia para definir como serão as obras, onde ficarão as vagas para carregamento, e informar quanto cada um terá que pagar no rateio do serviço. “Ou o síndico consegue convencer a maioria e autoriza a fazer, ou quem tem carro fica sem o carregamento. Em Santo André, em um condomínio que eu atuo, 20 proprietários de carros elétricos resolveram se cotizar e bancar eles mesmos o projeto e a instalação, com tudo feito dentro das normas técnicas e laudo de engenheiro elétrico, essa foi uma forma de resolver”, sugere.
Para Andrade, chegará o momento que os síndicos terão que enfrentar dos desafios para instalar pontos de recarga. “É uma realidade que está colocada e não tem volta. A região precisa pensar nisso até porque essa é uma grande possibilidade de mercado, para surgimento de novas empresas especializadas, para a geração de empregos com mão de obra especializada”, aponta.
O síndico Gilberto Chuler atua em edifícios mais antigos e também modernos em Diadema, mas nenhum deles tem infraestrutura preparada para a recarga de carros elétricos. Para ele o assunto é polêmico entre moradores. “Muita gente quer, outros grupos não querem. É uma realidade que está chegando, mas nos condomínios que têm muito tempo, nem se imaginava algo desse tipo como carregar um carro na tomada elétrica. Você não tem como liberar para todo mundo a implantação disso pois a estrutura foi feita para a realidade da época em que foram entregues. Imagine que o morador vai por só na vaga dele e quem paga essa infraestrutura, é ele? E a vaga que é rotativa, como fica? Instala na vaga e depois tem que levar para outra? Tem que pensar em volume muito grande que vai querer para implantar isso”, analisa.
Para Chuler os condomínios com 20 ou mais anos a situação é mais difícil ainda. “Condomínio antigo vai ter muito problema e nós síndicos já estamos perdendo o sono com isso. Essa já é uma demanda razoável, mas daqui a pouco vai ser muito grande, não podemos proibir, mas também não dá para liberar. Eu acho que ainda é muito recente, eu não penso em comprar (carro elétrico), mas daqui a pouco anos a maioria vai ser, e vamos ter que adequar”.
Além de projeto de engenheiro, gastos com materiais o condomínio também terá que informar os bombeiros para a atualização do AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros). O número de pessoas interessadas e o espaço físico é outro fator a ser analisado, segundo o pensamento de Gilberto Chuler. “Só em um condomínio que administro são 224 vagas, e for fazer para 5% já seriam mais de dez vagas”, calcula.
Milzo Prado, síndico em condomínios em São Bernardo e Santo André, tem a mesma preocupação. “Se não tiver segurança do que é possível fazer, eu não levo para a assembleia do condomínio. A pressão dos moradores é grande porque o brasileiro gosta de carro e quer ter o mais moderno e se ele for elétrico o dono vai querer a comodidade de deixar carregando à noite. Apesar disso a pressão ainda não é tão grande, mas o ímpeto de solucionar nos faz correr atrás de informação, porque essa transição energética para o carro elétrico é um caminho sem volta, mas cabe ao governo regulamentar, pois o que já foi definido ainda tem muita ponta solta”.
O seguro do condomínio é outra incógnita que os síndicos não sabem ainda quanto ele será impactado com a introdução do sistema de carregamento para carros. “O que se sabe hoje é que se ocorrer um incêndio ele vai passar para outros carros porque esse tipo de fogo só acaba quando a bateria for totalmente consumida. Eu prefiro esperar mais definições”.
Especialista tranquiliza e diz que carros elétricos novos são seguros
O maior temor dos síndicos é quanto à segurança e alarmados com casos de incêndios em carros elétricos, temem o pior. Para o professor das áreas de eletrônica automotiva e propulsão elétrica do IMT (Instituto Mauá de Tecnologia), Fabio Delatore, os carros elétricos da atualidade são seguros e ele defende o investimento dos condomínios na preparação para um futuro próximo com mais carros elétricos.
“Por desinformação e por muitas inverdades sendo amplamente veiculadas os condôminos, os síndicos e todos que dependem de uma decisão sobre o assunto ficam inseguros sobre o que fazer. A venda de elétricos e híbridos só cresce e esse é um assunto necessário, um investimento para o condomínio tal qual o aquecimento de piscina ou a reforma de equipamento da área de ginástica. Ter a disponibilidade e a pré-disposição de infraestrutura de recarga se faz hoje uma necessidade e até um diferencial do empreendimento, no caso de venda”, diz o professor.
Para o especialista as questões técnicas sobre o tamanho das baterias e a velocidade de recarga são importantes para definir o modelo a ser implantado. “Assim como tanque de combustível é medido em litros, o tamanho da bateria é expresso em quilowatt/hora. A maioria dos carros de mercado, elétrico ou híbrido, possui uma peça interna que é o carregador on-board e nele é mensurado em potência entre 3 e 7 KW. Aí entra a necessidade de investimento da instalação, com a decisão tomada fica-se vinculado aos custos do engenheiro para executar. Tem que verificar o cabeamento instalado a cabine primária e equipamentos de proteção, cada caso precisa ser avaliado e precificado”, analisa.
Incêndios
Apesar de considerar que os carros elétricos são seguros, Delatore diz que é válida a preocupação com incêndios, mas ele considera que os acidentes geralmente acontecem por uso incorreto de cabos não recomendados. O sistema a ser implantado deve também estar interligado aos sistemas de segurança do prédio.
“O carro elétrico hoje é muito seguro, as questões que envolvem incêndios foram de consequência não direta da bateria. Quando vai estabelecer recarga em baixa potência a quantidade de calor produzido é relativamente baixa e todas as vezes que incêndios acontecem em bateria é causado pelo não controle adequado dessa alta temperatura. O celular é belo exemplo, carregar no fast charger ou computador, o calor produzido é diferente. A maioria dos cabos de mercado são de 6KW, se ajustar a carga ente 3KW e 6KW os riscos são minimizados, isso é o que consome um chuveiro, uma airfryer ou um fogão por indução. O ruim é quando começa a usar uma tomada de uso geral sem o devido dimensionamento. O calor nessa fiação excede e é onde os problemas acontecem. Uso extensão como se estivesse ligando qualquer outro aparelho é outro risco”, explica o Delatore.
O professor da Mauá diz que hoje a preocupação deveria ser com a micro mobilidade, como bicicletas elétricas e scooters, que são carregados em qualquer tomada sem um planejamento elétrico. “O risco para a eletricidade sempre existiu entretanto as pessoas são negligentes quanto a esse risco e acham que qualquer tipo de tomada pode atender. Todas as normas técnicas devem ser seguidas, bem como as orientações dos bombeiros, além do AVCB estar em dia. Dessa forma não inviabiliza o pagamento do prêmio do seguro ao condomínio em caso de acidente”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
