
Estudos recentes têm reforçado que o TDAH pode estar associado a maior risco de declínio cognitivo e demência na vida adulta, entre elas a doença de Alzheimer, mas, segundo Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, neurocientista e pós-PhD em Neurociências, a relação ainda é entendida como uma sobreposição de vulnerabilidades cerebrais e não como uma causa direta. Para o pesquisador, o elo entre os dois quadros pode ser explicado principalmente pela neuroanatomia dos circuitos de controle executivo.
Segundo o especialista, o ponto central está nas redes frontoparietais e frontoestriatais, estruturas responsáveis por atenção sustentada, planejamento, inibição e memória de trabalho. “O TDAH mostra uma disfunção precoce desses circuitos; já no Alzheimer, essas mesmas redes são afetadas na trajetória do declínio cognitivo, sobretudo quando a doença compromete funções executivas e autonomia funcional”, explica Fabiano, em linha com estudos recentes que associam risco genético para TDAH a pior desempenho executivo e maior carga de marcadores relacionados ao Alzheimer.
O caminho cerebral
Do ponto de vista neuroanatômico, a hipótese indica que o TDAH representa uma forma de vulnerabilidade do cérebro em redes de alto custo cognitivo, especialmente no córtex pré-frontal dorsolateral, cíngulo anterior, regiões parietais e circuitos estriatais. Com o envelhecimento, essa vulnerabilidade pode reduzir a reserva cognitiva e facilitar o impacto de processos neurodegenerativos, como hipometabolismo cortical, disfunção sináptica e acúmulo de patologia tau.
“Não se trata de dizer que o TDAH vira Alzheimer”, ressalta o especialista. “A leitura correta indica que os dois quadros podem compartilhar circuitos frágeis e mecanismos biológicos que, somados a fatores de risco ao longo da vida, aumentam a chance de pior desfecho cognitivo na velhice”, explica.
O que a pesquisa mostra
Um estudo publicado em 2023 no JAMA Network Open avaliou mais de 109 mil pessoas e encontrou que adultos com TDAH apresentaram risco 2,77 vezes maior de demência ao longo do seguimento. Já trabalhos de 2025 com dados genéticos e biomarcadores sugerem que o risco poligênico para TDAH pode se associar a pior função executiva, maior tau em pacientes com Alzheimer e alterações em regiões frontais e parietais do cérebro.
Outro estudo também apontou que maior predisposição genética para TDAH se relaciona com declínio cognitivo longitudinal e sinais de neurodegeneração em indivíduos com patologia amiloide.
Para Fabiano, esses dados fortalecem a ideia de um “continuum neurobiológico”. “A neuroanatomia ajuda a entender a ponte: primeiro surgem as alterações em circuitos de atenção e controle; depois, com a idade e outros fatores de risco, essas mesmas redes perdem capacidade compensatória”, afirma o pesquisador, em interpretação compatível com o padrão descrito nas investigações recentes.
Leitura clínica
Na prática, essa relação reforça a importância de acompanhar, ao longo da vida, pessoas com TDAH que também apresentem sono ruim, depressão, sedentarismo, hipertensão e outros fatores vasculares ou metabólicos associados à pior saúde cerebral. O quadro não serve para alarmismo, mas para vigilância precoce e prevenção estruturada.
“A mensagem mais importante é que o TDAH pode sinalizar um cérebro que exige mais cuidado ao longo do envelhecimento. Isso não é destino; é risco potencial, e risco pode ser modulado”, completa o pesquisador.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
