ABC - quarta-feira , 8 de julho de 2026

SUS atende mais pessoas neurodivergentes no ABC, mas ainda não é suficiente

Diagnóstico é o problema maior das redes municipais de saúde, quanto a identificação de condições não típicas. Também faltam terapias. (Foto: Divulgação)

O atendimento a pessoas neurodivergentes, ou seja com TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), ou outro tipo de condição fora do considerado típico, aumentou nas prefeituras da região, porém especialista considera que, ainda assim, o SUS (Sistema Único de Saúde) não é capaz de atender a todas as necessidades de terapias para esse público. Entre quem usa há críticas e também elogios aos esforços dos municípios.

Muito do que tem sido realizado nos últimos anos se deve a movimentação de famílias que buscam amparo no SUS para os tratamentos e terapias. “As famílias têm se organizado, mas ainda falta atendimento para autistas graves, de nível de suporte 2 e 3. O SUS não dá suporte a não ser que seja em cidades preocupadas com isso. São Paulo acabou de lançar um serviço, mas tenho um paciente que é grave que vai somente a cada 15 dias. Então se fala muito e se faz muito pouco”, destaca Eliane Nunes, psiquiatra, pesquisadora de TEA (CRM 61456) e, diretora geral da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Sativa).

Para a especialista o gargalo do atendimento aos neurodivergentes começa na obtenção de laudo, que definirá o grau e a necessidade de terapias. “Como ter diagnóstico se não tem um atendimento especializado nem para PCDs (Pessoas Com Deficiência) em geral, que dirá para quem tem TEA? Vejo que não tem assistência, mas tem muito discurso. Na teoria tem atendimento, mas na prática os pacientes vão às terapias uma vez a cada 15 dias e uma consulta de acompanhamento a cada seis meses. Eu que acompanho muitos pacientes vejo que é um caminho tortuoso, uma Via Sacra “, destaca a médica.

Na busca pelos direitos dos filhos pais e mães se organizam, cobram melhor atendimento e esses movimentos estão crescendo, porém esbarram na condição econômica. “As mães estão mais organizadas, mas como fazem as famílias hipossuficientes, que não têm nem onde deixar os filhos enquanto estão trabalhando? Até as escolas têm muita dificuldade para garantir o atendimento, muitas vezes a criança vai para o colégio, fica uma ou duas horas e volta porque é muito agitada e não tem auxiliar de classe. A minha visão é muito pessimista. As APAEs (Associações de Pais e Amigos dos Exepcionais) fazem um grande trabalho, mas não atendem só TEA e assim como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) estão sobrecarregados e sucateados, o que é muito triste”, completa Eliane Nunes.

A mãe atípica e moradora de São Caetano, Flávia Costa, que em agosto de 2025 relatava ao RD que tentava havia oito meses encaminhamento para terapia ocupacional e fonoaudiologia para a filha de três anos no CTNEN (Centro de Triagem e Estimulação Neurossensorial dr. Tatuya Kawakami), diz agora que pouca coisa mudou. Ela só conseguiu o diagnóstico da filha porque conseguiu pagar consultas particulares. A família faz rifas para garantir as primeiras terapias para a criança.

A situação de Flávia é o retrato do que se encontra no SUS para o tratamento que as crianças precisam. Muito frequentemente o Judiciário é a única esperança das famílias. “As coisas mudaram um pouco, mas somente porque tivemos que acionar a Justiça, ainda assim, é muito pouco diante do quantitativo de terapias que ela precisa. Chamaram minha filha para 30 minutos por semana com terapeuta ocupacional e 30 minutos com fono na APAE, sendo que o laudo mais recente pede 11 horas semanais de diversas terapias”, explica.

A mãe explica que a família está se desfazendo de bens para pagar a complementação do atendimento em clínicas particulares, e mesmo somados os atendimentos com os da APAE, a carga horária não chega à metade do que define o laudo. “Estamos já na terceira rifa; meu marido já rifou um videogame e agora a bateria eletrônica dele. Estamos pagando particular ainda, mas não sabemos até quando conseguiremos manter”, explica a mãe. Mesmo com as terapias particulares a criança tem feito seis horas semanais de tratamento.

“Tentamos de todas as formas, abrimos protocolo na ouvidoria, falamos com diversos vereadores e ninguém ajudou. Sobre o complexo da pessoa com deficiência um vereador falou para mim que está pronto e não sabe porque não está funcionando ainda. O prefeito falou, em entrevista, que inaugurava em setembro, mas até agora nada”, desabafa a moradora de São Caetano. A solução veio depois da intervenção do Judiciário. “Meu advogado entrou com a ação e no dia seguinte eles me ligaram agendando. Sendo que nem estava previsto ela passar com terapeuta ocupacional na Apae. Logo depois foi a fono, que antes tinha 200 crianças na frente. Agora está avançando, com certeza pelo meu esforço e do meu marido de não ficar esperando a boa vontade da prefeitura”, completa.

Thiago Almeida, morador de Mauá tem três filhos, um deles foi diagnosticado com autismo aos três anos de idade e hoje tem sete. Apesar da criança fazer as terapias em uma clínica particular, que ele encontrou com preço que cabe no seu orçamento, Almeida conta que teve boa experiência no atendimento da saúde pública. “Com todas as dificuldades do SUS, o autismo foi identificado no posto de saúde e logo fomos encaminhados para o CER (Centro Especializado em Reabilitação) onde veio o diagnóstico de TEA. Ele começou a fazer as terapias, mas a saúde de Mauá teve baixas nas equipes e fomos para o particular onde ele tem todas as terapias que ele precisa”, narra o pai.

Apesar do filho estar atendido em clínica particular, Almeida entende as dificuldades do poder público, mesmo assim não se nega a fazer críticas. “Falta formação de neuropediatras e a garantia de laudo, porque sem ele muitos ficam sem as terapias. O diagnóstico que é o atendimento efetivo. No que compete ao serviço público a gente vê servidores se aposentando, outros demitidos. Nesse corte de 544 servidores da prefeitura de Mauá, pelo menos um dos nomes era de especialista do CER. Então a reposição é muito morosa e a vida não espera”, aponta.

O próprio pai, descobriu tardiamente ter um nível de autismo só recentemente. “Eu tinha algunas dificuldades e não compreendia porque e ficava mal. Hoje eu consigo me entender melhor e tenho mais autocuidado. Por isso é preciso ter um diagnóstico na infância”, completa.

O que dizem as prefeituras sobre os atendimentos:

Só em Santo André foram realizados 82.326 atendimentos no Reabilita e o município também anuncia aumento do atendimento na área de Educação.

“O Reabilita oferece atendimento multiprofissional às pessoas neuroatípicas e neurodivergentes, incluindo crianças, contemplando as áreas de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional e psicologia, com apoio transversal das equipes de nutrição, enfermagem e serviço social”, diz o paço andreense em relação aos atendimentos na saúde. O acesso se dá de forma regulada por encaminhamento das UBSs (Unidades Básicas de Saúde).

Consulta com neuropediatra no Reabilita de Santo André. (Foto: Alex Cavanha/PMSA)

Santo André tem 2.803 alunos neurodivergentes matriculados e a prefeitura quer ampliar o atendimento. “O objetivo para 2026 é entregar a ampliação de sete novas salas de recursos, a ampliação de recursos de tecnologia assistiva, e a chegada de mais professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE) aprovados em concurso”, completa a administração, em nota.

Em Diadema a prefeitura anunciou investimento de R$ 10 milhões no Centro TEA, mas que só deve ficar pronto em 2028. E informa ter investido já R$ 5 milhões em educação inclusiva. Só nas escolas municipais estão matriculados aproximadamente 2 mil alunos neurodivergentes e o município informa que todos contam com professores capacitados e agentes de apoio. Na Saúde o paço diademente explica que 464 crianças e jovens autistas ou hipótese diagnóstica estão em acompanhamento, destes 244 autistas estão inseridos no Caps Infanto Juvenil e 220 na Atenção Básica. A prefeitura também conta com atendimento através de convênio com a Apae.

No município, há a Residência Inclusiva, que absorve os casos de pessoas com deficiências, inclusive neurodivergentes, em situação de extrema vulnerabilidade social. A prefeitura também diz que todas as unidades escolares estão aptas a atender alunos nestas condições. “Os alunos são avaliados nas próprias unidades, pelos professores de educação regular e também pelos da Educação Especial e, sendo identificada alguma necessidade de atendimento, a criança é encaminhada para uma das três unidades dos Centros de Atenção à Inclusão Social (CAIS), que contam com profissionais especializados. As situações são analisadas individualmente, caso a caso. São três unidades do CAIS: CAIS I (9 salas) – 450 estudantes; CAIS II (4 salas) – 110 estudantes e CAIS III (4 salas) – 110 estudantes.

Sobre o Centro TEA, em dezembro foi lançada a pedra fundamental. O equipamento será erguido na Rua Odete Amaral de Oliveira, no Centro, próximo ao Shopping Praça da Moça e oferecerá atendimento exclusivo e especializado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, em área de 650m² que contará com quadra, piscina adaptada, auditório, biblioteca, sala multiuso, sala sensorial, sala de cursos, sala de atendimento médico, psicopedagógico e clínico.

A rede municipal de educação de São Bernardo tem 3.292 alunos matriculados com diagnóstico de TEA e o município garante o atendimento educacional especializado. Na Saúde a prefeitura assegura acesso às terapias necessárias conforme avaliação clínica e indicação profissional. O cuidado é definido a partir de Projeto Terapêutico Singular. Mas o município assume que ainda há muitas pessoas sem diagnóstico e tratamento. “Com base em estimativas amplamente utilizadas em estudos epidemiológicos e no planejamento de políticas públicas, considera-se que entre 15% e 20% da população apresente algum perfil de neurodivergência. Aplicando-se essa estimativa ao município de São Bernardo, com população de mais de 800 mil habitantes, projeta-se um contingente aproximado entre 120 mil a 160 mil pessoas”, analisa o paço de São Bernardo.

Além das UBSs, porta de entrada para o diagnóstico da neurodivergência a cidade tem atenão especializada em 9 CAPS, Policlínicas, serviços de reabilitação como o CER-IV (Centro Especializado em Reabilitação que atende quatro deficiências: física, visual, auditiva e intelectual) e Centros de Referência em Transtorno do Espectro Autista, onde são ofertadas avaliações e terapias multiprofissionais. O paço de São Bernardo ainda está planejando as ações voltadas a pessoas neurodivergentes para 2026.

A Prefeitura de São Caetano não informou quantas pessoas são diagnosticadas como neurodivergentes no município nem quantos são os atendimentos. O município, no entanto garante todo o atendimento. “Todos os estudantes que apresentam necessidade de apoio recebem atendimento adequado, incluindo, quando indicado, profissional de apoio, Atendimento Educacional Especializado (AEE), instrumentos avaliativos diversificados, tempo ampliado para atividades e avaliações, apoio ledor, uso de tecnologias assistivas, tutoria docente, recomposição de aprendizagens em contraturno e outras estratégias pedagógicas previstas nos planejamentos escolares”, diz nota do Palácio da Cerâmica.

São Caetano informa que vai aumentar os investimentos no atendimento a neurodivergentes. “Para 2026, a prefeitura projeta a ampliação dos investimentos voltados à garantia de uma educação inclusiva de qualidade, com a expansão do AEE, fortalecimento da acessibilidade arquitetônica, comunicacional, pedagógica e digital, ampliação de recursos de tecnologia assistiva, qualificação permanente da formação continuada de professores e equipes pedagógicas, manutenção e adequação do número de profissionais de apoio conforme as necessidades da rede”, sustenta a prefeitura.

A prefeitura de Rio Grande da Serra, também não informou quantas pessoas neurodivergentes têm laudo e são atendidas pelo município. Os pacientes são encaminhados para unidades de referência do Estado. “Embora a prefeitura não possua um programa próprio de terapias completas (ABA, fonoaudiologia, terapia ocupacional etc.) diretamente na cidade, os residentes podem ser atendidos por meio da rede do SUS, que inclui encaminhamentos a serviços de reabilitação, terapias e especialistas conforme a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência”, sustenta a prefeitura. Se diagnósticos nas UBSs os pacientes são encaminhados para a central de regulação do SUS e para o CAPS. A APAE local (Rua Carlos dos Santos Dinho, 156 – Jardim Novo Horizonte) também oferece atendimento especializado.

Em nota, a prefeitura de Rio Grande da Serra sugere a busca de clínicas particulares. “Se possível, pesquise clínicas particulares ou conveniadas para terapias complementares (ABA, integração sensorial, avaliação neuropsicológica) — muitas famílias buscam esse apoio em paralelo com o SUS”, diz o município que completa sua nota dizendo que não tem estimativa de orçamento a ser investido no atendimento a neurodivergentes em 2026.

As prefeituras de Mauá e Ribeirão Pires não responderam.

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