
Em uma reação agressiva à divulgação de dados oficiais do Ministério da Saúde, a Prefeitura de São Caetano enviou nota ao Repórter Diário (RD) na qual tenta desqualificar o trabalho jornalístico deste veículo, ao utilizar termos como “amadorismo”, “despreparo” e “fake news”. O motivo do descontentamento da administração municipal foi a reportagem que revelou uma alta de 27,7% no número de Mortes de Mulheres em Idade Fértil (MIF) na cidade entre 2024 e 2025, o maior crescimento registrado em todas as cidades do ABC.
A Prefeitura alega que houve um “erro conceitual” ao relacionar o indicador MIF à mortalidade materna. No entanto, é necessário esclarecer que o jornalismo atua sobre o interesse público e sobre o que os dados oficiais revelam. O MIF é um indicador demográfico e de saúde fundamental que monitora os óbitos de mulheres entre 15 e 49 anos.
Se uma cidade registra um salto de quase 30% nas mortes de sua população feminina jovem e adulta em apenas um ano, é dever da imprensa questionar as causas e cobrar explicações, independentemente de os óbitos serem classificados como causas obstétricas diretas ou não. Considerando só as mortes por causas obstétricas diretas, no ano passado o ABC teve duas mortes, sendo uma em Diadema e outra em Santo André.
Ao acessar o portal oficial do Governo Federal (plataforma.saude.gov.br/mortalidade/materna/), qualquer cidadão pode verificar que o MIF é a base estatística fundamental para monitorar a saúde das mulheres e identificar falhas na assistência. Ao classificar como “fake news” o uso de dados extraídos de um painel intitulado “Mortalidade Materna” pelo Ministério da Saúde, a Prefeitura de São Caetano não ataca apenas o RD, ela ataca a verdade e as próprias instituições de saúde do País.
A tentativa da Prefeitura de isolar os dados epidemiológicos do caso real da paciente Vanessa Félix da Silva, de 31 anos, ignora a gravidade dos fatos. Vanessa era, tecnicamente, uma mulher em idade fértil que faleceu em uma unidade da rede municipal de São Caetano após complicações pós-parto, três intervenções cirúrgicas e uma sucessão de falhas informativas admitidas pela própria gestão. Embora a nota oficial da Prefeitura tente blindar a assistência médica de qualquer crítica, alegando que os órgãos competentes ainda não concluíram as investigações, a realidade enfrentada pela família de Vanessa expôs fissuras graves no sistema.
Curiosamente, a postura beligerante da Secretaria de Comunicação da Prefeitura entra em choque direto com as declarações da vice-prefeita de São Caetano, a médica Regina Maura Zetone. Em entrevista ao RD, a ex-secretária de Saúde, com mais de duas décadas de experiência na área, não utilizou o termo “fake news” para descrever a crise. Pelo contrário, Regina Maura admitiu que houve falha de gestão, falta de acolhimento e um “déficit de comunicação” imperdoável por parte da diretoria do Hospital Márcia Braido e da própria Secretaria de Saúde. Ao demitir uma funcionária terceirizada e atribuir a ela a culpa pelo desencontro de informações, a Prefeitura tenta reduzir um problema sistêmico a um erro individual, estratégia que a vice-prefeita prontamente criticou ao afirmar que o secretário de Saúde deve estar na “linha de frente” em casos de óbito materno.
A Prefeitura afirma ainda, em sua nota, prezar pela transparência. Todavia, a transparência se prova na prática: antes da publicação da reportagem, o governo municipal foi procurado para comentar o expressivo aumento de 27,7% nas mortes de mulheres em idade fértil e optou pelo silêncio. A resposta só veio após a repercussão do caso, e em tom de ataque.
O conteúdo da nota agressiva da Prefeitura de São Caetano foi replicado nos comentários das redes sociais do RD por um perfil denominado ‘pesca_e_resenha’. Como esse perfil teve acesso à informação, considerando que o texto era uma comunicação privada entre a Prefeitura e a redação do Repórter Diário? É alarmante que uma estrutura de governo utilize perfis suspeitos para disseminar ataques institucionais, o que sugere uma tática organizada de perseguição à liberdade de imprensa.
Outro ataque da atual gestão ocorreu em maio deste ano. Integrantes do Repórter Diário foram removidos sumariamente do grupo oficial de WhatsApp da imprensa da Prefeitura. O desligamento ocorreu durante a transmissão de uma live com a vice-prefeita Regina Maura Zetone, na qual a médica denunciava o prefeito Tite Campanella por suposta violência política de gênero – caso que já é alvo de investigação pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). A remoção de um veículo de comunicação de canais oficiais de informação é uma retaliação política inaceitável em uma democracia. Grupos de imprensa de órgãos públicos não são propriedades particulares de prefeitos ou secretários; são ferramentas de transparência custeadas com dinheiro público. Ao expulsar o RD, a Prefeitura tenta restringir o acesso à informação e impedir o jornal de dar voz a pensamentos divergentes e por fiscalizar o poder.
O Repórter Diário reafirma seu compromisso com a verdade e com a população do ABC. O papel da imprensa livre não é o de chancelar comunicados oficiais que tentam suavizar estatísticas desconfortáveis, mas o de dar voz a famílias que, como a de Vanessa, buscam respostas em meio ao luto. Agressões verbais em notas oficiais não alteram o fato de que, em São Caetano, os números do Ministério da Saúde apontam um sinal de alerta para a vida das mulheres que a administração municipal tem o dever de proteger.
Veja nota da Prefeitura de São Caetano após a públicação dos números
A Prefeitura reafirma seu compromisso com a transparência, com a divulgação responsável de informações e com a permanente qualificação da assistência prestada à população. Da mesma forma, espera que a cobertura jornalística sobre temas sensíveis, especialmente aqueles que envolvem vidas humanas, seja pautada pelo rigor técnico, pela contextualização dos dados e pelo respeito aos fatos efetivamente apurados, evitando interpretações que possam induzir a sociedade ao erro.
Caso Vanessa
Teve grande repercussão o caso da maquiadora Vanessa Félix da Silva, de 31 anos, que se internou no hospital Márcia Braido, em São Caetano no dia 25 de junho em trabalho de parto. A jovem realizavas o sonho de ser mãe de uma menina e já tinha um filho de 10 anos.
Após ter a bebê a mãe teve complicações, foi submetida a três cirurgias para conter uma hemorragia e sua morte foi atestada seis dias depois. A família acusa o hospital de erro médico. Familiares ouvidos pelo RD contaram que ela teria tido uma perfuração no útero que teria causado a hemorragia. Também acusaram o hospital de informações desencontradas, em momento falaram da morte clínica sendo que outros funcionários falavam que ela estava viva. Com isso a família praticamente acampou na porta do hospital em vigília.

A Prefeitura negou erro médico, disse que tudo foi feito para salvar a paciente. “Após o parto, a paciente apresentou sangramento interno, sendo encaminhada para nova intervenção cirúrgica. Com registro de hemostasia (parada do sangramento), foi encaminhada para UTI. Com surgimento de novo sangramento, a equipe médica realizou nova intervenção cirúrgica para realização de histerectomia total (retirada do útero). Antes da realização da histerectomia, a paciente teve uma parada cardíaca em decorrência da perda excessiva de sangue. Todo esse atendimento aconteceu no período de 12 horas”.
Sobre o desencontro de informações que alongaram a angústia dos familiares a Prefeitura atribuiu a culpa a uma funcionária que foi demitida. “Em nenhum momento se omitiu da família o quadro da paciente. Inclusive, foi liberado acesso total dos familiares à UTI – na última sexta-feira (26/6), 27 familiares foram autorizados a visitar a paciente. A Secretaria esclarece, ainda, que informações inverídicas sobre o estado de saúde da paciente foram repassadas, de forma indevida, por um porteira terceirizada, sem qualquer participação da equipe médica ou autorização da instituição. Essa prestadora foi demitida”, diz a nota.
Advogado da família aguarda laudo do IML

Diante da suspeita levantada pela família de erro médico, o advogado José Santana Júnior, especialista em Direito da Saúde, e que representa a família de Vanessa, disse que ainda é cedo para conclusões e que vai esperar o laudo do IML (Instituto Médico Legal) para definir os próximos passos.
A atuação de Júnior tem sido de amparar a família, de acompanhamento para a realização do boletim de ocorrência. “O atestado de óbito não traz elementos que possam apontar morte suspeita, por isso precisamos esperar o laudo do IML. A alegação de que Vanessa tinha uma gravidez de risco – histórico de eclâmpsia – não foi confirmada pela família que sustenta que a gravidez foi normal, inclusive com rotina de consultas de pré-natal e exames. Eu orientei a família, na delegacia, a falar sobre a suspeita do erro médico, diante das três cirurgias. Eu acredito na polícia e o legista fará essa averiguação. Com o laudo, mais o prontuário médico, pode-se iniciar a apuração e só depois pensar em responsabilização”, diz o advogado.
Mesmo com a conclusão do IML, o advogado não descarta a possibilidade da solicitação de um novo exame pericial. Santana Júnior também disse que a família não tem intenção indenização pecuniária. “Não se trata de uma questão financeira, mas de apuração de possíveis falhas do hospital”, completa.
Vice-prefeita e ex-secretária de saúde de S.Caetano fala de falha de comunicação e do secretário
Em entrevista ao RDcast na quinta-feira (2/7) a vice-prefeita de São Caetano, a médica Regina Maura Zetone, que por mais de 20 anos foi secretária de Saúde da cidade, contou que esteve no hospital, conversou com a família e que foi averiguar os procedimentos a que Vanessa Félix da Silva foi submetida. Para Regina, não houve erro médico, mas uma falha de gestão em relação às informações passadas à família.

Regina Maura disse que houve falha da gestão hospitalar em acolher a família e passar as informações corretas. “O que houve foi um déficit de comunicação e de acolhimento da família, isso houve com certeza, porque naquele momento onde havia um desespero, que não sabiam o que estava acontecendo o diretor ou o médico deveriam ter chegado à família para explicar aquilo que fui explicar depois. Faltou acolhimento e a comunicação da pessoa correta, isso não se comunica por nota, muito menos por segurança. Quem orientou essa segurança? A diretoria do Hospital tem obrigação de estar presente nestes momentos de crise porque um dos papéis do diretor, e do secretário, é mediar crises”, observa.
Para a vice-prefeita de São Caetano, “a lição que se tira desse episódio é que o secretário tem que estar presente, sempre. Secretário tem que estar na linha de frente, é um cargo extremamente árduo. Caso de óbito materno é gravíssimo, a mortalidade materna é o que é mais visada na gestão pública, nos índices de efetividade do serviço de saúde. No caso de Vanessa a vice-prefeita apoia a investigação. “Neste caso a família tem direito a buscar a apuração”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
