
Quase metade dos professores que atuam na rede estadual de ensino no ABC está contratada de forma temporária. Segundo dados da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), a região conta com 12,7 mil docentes, dos quais 5,9 mil são temporários.
Na prática, são profissionais que trabalham regularmente nas escolas estaduais, mas não ocupam um cargo efetivo na rede. A situação é questionada pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), que há anos cobra a realização de concursos públicos e critica a manutenção de professores em vínculos considerados precários pela entidade.
A própria Secretaria da Educação afirma que não existe um prazo médio de permanência dos temporários. A duração do vínculo depende da necessidade administrativa que motivou a contratação. Pela regra atual, o contrato pode durar até três anos, com possibilidade de prorrogação até o último dia letivo do ano em que o período se encerra.
Depois disso, o professor pode ser novamente contratado, desde que sejam cumpridas as exigências legais, incluindo o período de quarentena antes de um novo contrato.
Incerteza gera insegurança nos docentes
A realidade dos docentes temporários se reflete no dia a dia daqueles que já atuam há anos na rede estadual, mas continuam sem a segurança de um contrato efetivo. Em Ribeirão Pires, uma professora temporária ouvida pelo RD conta que aguarda, há quase três anos, atualizações sobre sua situação profissional e convive com o receio de perder o emprego. “Temos medo, né? Porque sabemos que existem professores que foram aprovados em concurso e que sequer foram chamados”, afirma.
Apesar de exercer as mesmas atividades em sala de aula que outros docentes, a condição temporária faz com que o planejamento profissional dependa da abertura de vagas, da atribuição de aulas e das regras estabelecidas para a manutenção ou encerramento do contrato.
A expectativa da professora é por uma definição que permita maior segurança sobre a continuidade do trabalho. Enquanto isso, ela aguarda novas informações sobre sua situação. O caso da professora mostra o impacto dos contratos temporários para além das estatísticas do governo: são milhares de profissionais que permanecem em situação de incerteza mesmo com experiência acumulada na rede pública estadual.
Apeoesp critica modelo
Ao RD, a Apeoesp afirma que o alto número de professores temporários é um dos principais problemas enfrentados pela categoria. Segundo o presidente interino da entidade, Roberto Guido, há anos uma parcela expressiva dos docentes permanece nesse tipo de vínculo, sem conseguir a efetivação e submetida a uma redução de direitos em relação aos concursados.
“Nós temos mais de 70 mil professores contratados pela Lei 1.093/2009, que regulamenta a contratação de servidores por tempo determinado para atender a necessidades temporárias, fazendo com que esse vínculo seja estabelecido por meio de contratações extremamente precarizadas”, afirma.
A entidade defende que esses profissionais tenham a oportunidade de ingressar no quadro efetivo por meio de concursos públicos. No entanto, a realização de novas seleções precisa vir acompanhada da convocação dos profissionais já aprovados em concursos anteriores e de uma redução da dependência da contratação temporária.
Em mobilizações recentes, a Apeoesp colocou lado a lado temporários e concursados para cobrar do governo mudanças na política de contratação.
Concursos
Questionado pelo RD, o governo paulista informa que realizou, em 2023, o primeiro concurso público para professores após mais de uma década. Na ocasião, foram abertas 15 mil vagas e, posteriormente, 17 mil profissionais foram nomeados, superando o número inicialmente previsto.
Segundo a Seduc-SP, não há atualmente candidatos desse concurso aguardando convocação, já que a validade do certame terminou após dois anos de sua homologação. Agora, o governo prepara uma nova seleção. Em agosto, o Estado autorizou a Secretaria da Educação a organizar concurso público para a contratação de 5 mil professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.
A nova seleção pode representar oportunidade para parte dos profissionais que hoje trabalham como temporários. Ainda não há, porém, definição de quantas das 5 mil vagas serão destinadas ao ABC.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
