Recentemente, o influenciador digital Felipe Bressanim (Felca) publicou um vídeo que trouxe à tona a preocupação crescente sobre a exposição de crianças e adolescentes nas plataformas online. A prática, cada vez mais comum, vai além de conteúdos aparentemente inofensivos, podendo gerar adultização precoce, exploração e até pornografia infantil, evidenciando a necessidade de discutir seriamente os riscos da internet para o desenvolvimento dos mais jovens.
Em entrevista ao RDtv, o advogado Ariel de Castro Alves, membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de São Bernardo, alerta que pais e responsáveis muitas vezes não percebem que o ambiente digital não possui as mesmas barreiras de proteção do mundo físico, exigindo atenção redobrada.
A psicóloga e neuropsicóloga Natália Bianchini, especialista em adolescentes e famílias, complementa que a infância mudou profundamente. Para ela, é fundamental que os adultos reconheçam essa transformação e orientem e dialoguem com os filhos, garantindo que cresçam protegidos e preparados para lidar com uma realidade digital diferente daquela vivida pelos pais.

Adultização
O termo “adultização” remete a exposição de crianças e adolescentes a responsabilidades, comportamentos, conteúdos e hábitos inapropriados para a idade, típicos do modo de vida adulto. Desse modo, o advogado lembra que, além da erotização, jovens enfrentam diariamente situações de violência que jamais deveriam presenciar. “Imagine uma criança que se depara com o pai chegando alcoolizado e batendo na mãe. Isso constitui violência e também uma forma grave de adultização. Em algumas comunidades, os jovens convivem constantemente com consumo de drogas, assassinatos e corpos estendidos no chão”, afirma.
As experiências citadas configuram violações diretas aos direitos da infância, já que a legislação brasileira estabelece a proteção integral da criança e do adolescente, a qual garante que não sejam expostos a qualquer tipo de crueldade, exploração ou opressão. Para o especialista, o ambiente digital amplia ainda mais esse contato, expondo jovens a conteúdos potencialmente traumáticos.
Ausência de regulamentação
Outro ponto de preocupação é a exploração do trabalho infantil no ambiente virtual. Alves destaca que, enquanto a legislação exige alvarás judiciais para que menores atuem em produções de TV, cinema, música ou esportes, a internet segue praticamente sem fiscalização. “No mundo físico, é preciso comprovar que a criança vai estudar, que não será submetida a conteúdos inadequados e que sua integridade física e psicológica estará preservada. No digital, pais transformam suas casas em verdadeiros ‘Big Brothers’, com gravações constantes e até casos de pornografia infantil denunciados, como aconteceu na casa do influenciador Ítalo”, explica.
Famílias inteiras, segundo o advogado, passaram a viver exclusivamente da monetização de conteúdos com os filhos, prática que também se enquadra como exploração de trabalho infantil, conforme o artigo 403 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que proíbe qualquer trabalho a menores de 16 anos, exceto na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos.
A ausência de regulamentação específica para plataformas digitais agrava o problema. Alves ressalta que, na televisão, há classificação indicativa que informa a idade adequada para cada programa e alerta para cenas de violência ou nudez. Já na internet, esse recurso não existe. “Precisamos de uma classificação indicativa para aplicativos e redes sociais, que informe os efeitos colaterais dos jogos e plataformas, como acontece com os remédios. Aplicativos como o Roblox, por exemplo, expõem crianças a situações de violência. É urgente que o Ministério da Justiça avance nessa questão”.
Conflito de gerações e liberdade assistida
A psicóloga Natália Bianchini chama atenção para o conflito de gerações dentro das famílias. Muitos pais acreditam que os filhos deveriam viver a mesma infância que tiveram, sem perceber que também foram expostos a riscos ou contextos pouco adequados. “Nos cursos de pais que ministro, vemos duas reações comuns. Alguns dizem ‘eu cresci assim e não morri’, sem perceber os prejuízos que carregam até hoje. Outros sentem culpa por não conseguirem oferecer aos filhos uma infância igual à deles. Mas a verdade é que a infância mudou, e precisamos reconhecer que a realidade das crianças e adolescentes de hoje é totalmente distinta”, explica.
A especialista compara sua própria infância, marcada por brincadeiras de rua, com a dos filhos, que cresceram em um ambiente mais restrito e conectado. Para a Natália, a chave está em compreender que o momento dos filhos não coincide com o dos pais e que impor padrões passados tende a falhar.
Por isso, defende o conceito de “liberdade assistida”. Crianças e adolescentes podem acessar a internet e o celular, mas precisam ser acompanhados de perto, com regras claras e responsabilidades compatíveis com a idade. “Não se trata de proibir totalmente nem de liberar sem limites. É preciso acompanhar, saber o que eles acessam, organizar o tempo de tela, impor horários de sono e momentos de descanso. Muitas vezes, isso gera frustração, raiva e sensação de injustiça nos filhos. Mas frustração também educa e mostra que impor limites constitui uma forma de cuidado e amor”, afirma.
Embora existam projetos de lei em tramitação sobre o tema, tanto o advogado quanto a psicóloga concordam que a proteção começa dentro de casa. “Mais do que leis, o que garante o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes é a atuação cotidiana dos pais e responsáveis”, diz o advogado. A psicóloga reforça que educar hoje exige compreender riscos, mudanças e responsabilidades.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
