
A entrega do prédio da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Ribeirão Pires, em 29 de setembro, foi anunciada como um avanço para a segurança das mulheres do município. No entanto, há mais de um mês depois da inauguração e a unidade permanece sem atendimentos. Mesmo com a estrutura física pronta, o equipamento depende da conclusão de procedimentos administrativos e da definição do efetivo policial para abrir as portas.
Diante da atual situação, o RD questionou a SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Estado, mas não obteve retorno não apenas sobre a DDM de Ribeirão Pires, como as demais da região. Também questionada sobre o assunto, a Prefeitura de Ribeirão Pires informa que a previsão é de reforço no efetivo a partir de novembro, com a chegada de novos policiais oriundos da Academia de Polícia.
Depois da definição das lotações e da conclusão de procedimentos administrativos, a delegacia deve iniciar os atendimentos e contar com profissionais necessários para começar a funcionar. Até lá, a população continua sem uma unidade especializada no município.
Atendimento durante a madrugada
Nas demais cidades da região, a oferta de atendimento especializado, especialmente no período noturno – quando as vítimas podem precisar de ajuda com urgência – é desigual. São Bernardo e Diadema contam com Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) que funcionam 24 horas, enquanto em outros municípios, o atendimento depende de unidades policiais com horário restrito e de serviços municipais de acolhimento.
Uma moradora da Vila Suíssa, em Ribeirão Pires, critica a demora para que o serviço entre em funcionamento. Para s munícipe, a entrega da DDM antes do início efetivo dos atendimentos é mais um exemplo de promessas que não se concretizam na cidade. “Isso tem virado costume em Ribeirão. Falaram da construção do hospital, que até agora não está ativo para a população, mexem em asfaltos que em uma semana estouram, e agora lançaram a DDM que sequer funciona”, reclama.
A falta de uma rede de proteção às mulheres também é alvo de críticas da moradora. “Aqui em Ribeirão não temos nenhum tipo de assistência, principalmente à noite, quando tudo está fechado”, afirma.
Em São Caetano, a dificuldade de acesso ao atendimento especializado durante a noite também foi relatada. No início deste mês, uma mulher foi vítima de violência praticada pelo companheiro e procurou uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), mas não conseguiu atendimento. Sem assistência, precisou recorrer a uma delegacia comum no dia seguinte.
São Bernardo e Diadema têm delegacias 24 horas
São Bernardo foi uma das primeiras cidades do ABC a ampliar o atendimento policial especializado. Em maio de 2026, a Delegacia de Defesa da Mulher instalada na Cidade da Polícia Civil, no bairro Planalto, passou a funcionar 24 horas, inclusive aos fins de semana e feriados.
Nos três primeiros meses de funcionamento ininterrupto, a unidade registrou mais de 750 atendimentos presenciais, entre boletins de ocorrência e prisões em flagrante. Desse total, 363 ocorreram em períodos que antes não eram cobertos pelo atendimento especializado, como madrugadas, fins de semana e feriados. Também foram solicitadas 327 medidas protetivas de urgência.
O balanço aponta ainda aumento de 70% nos registros em comparação com os três meses anteriores à ampliação do horário. Foram 753 atendimentos no período posterior à mudança, ante 442 no trimestre anterior. O crescimento, entretanto, não representa necessariamente aumento dos casos de violência, já que a ampliação do funcionamento também facilita o acesso das vítimas ao serviço.
Em Diadema, a DDM também passou a funcionar 24 horas em setembro de 2026. A unidade, localizada na rua Santa Rita de Cássia, atende mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, inclusive durante a madrugada, aos fins de semana e feriados.
A ampliação do atendimento policial, porém, não elimina a necessidade de uma rede municipal de acolhimento. Em todas as cidades, os serviços especializados têm papel importante no acompanhamento das vítimas, na orientação jurídica e no encaminhamento para medidas de proteção.
Acolhimento na rede municipal opera em horários diferentes
Em Santo André, o Vem Maria, serviço especializado de atendimento às mulheres em situação de violência, funciona das 8h às 20h. O equipamento oferece acolhimento, escuta qualificada, acompanhamento por profissionais de serviço social e psicologia, orientação e articulação com a rede de proteção. Também há atendimento da Defensoria Pública no local.
No primeiro semestre de 2026, o serviço registrou 2.055 atendimentos. O número corresponde aos atendimentos realizados e pode incluir mais de uma procura pela mesma mulher, não representando necessariamente a quantidade de vítimas distintas.
A Prefeitura informou que já recebeu relatos de usuárias com dificuldades para acessar a DDM em razão do funcionamento em horário comercial, principalmente à noite, nos fins de semana e feriados. Não há, entretanto, levantamento sistematizado desses relatos referente a 2025 e 2026.
O município também realiza encaminhamentos à Casa Abrigo Regional Grande ABC, destinada a mulheres em situação de grave ameaça ou risco de morte. Para 2027, está prevista a implantação do Vem Maria Itinerante, com o objetivo de ampliar o atendimento nos bairros mais distantes.
Em Mauá, a rede de proteção é organizada pelo Sistema Único de Atenção à Mulher de Mauá (Suamm). O Centro Viva Maria oferece acolhimento, acompanhamento psicossocial, orientação jurídica e encaminhamentos, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. A cidade também conta com a Patrulha Maria da Penha da Guarda Civil Municipal, que atua 24 horas, e com o Zap Delas, canal de WhatsApp que funciona ininterruptamente para informações e orientações. O serviço pode ser acionado pelo número (11) 92013-5871.
Em 30 de outubro, Mauá contabilizava 294 mulheres em acompanhamento, um aumento de 48 em relação ao primeiro quadrimestre, equivalente a 19,5%. O município também informou que oferece acolhimento emergencial e temporário em Casa de Passagem, com permanência de até 48 horas ou conforme protocolo local.
Cassa de Passagem
Além disso, a Prefeitura está em processo de implantação de uma Casa de Passagem específica para mulheres em situação de violência, com capacidade prevista para 16 pessoas. A efetivação do equipamento depende da conclusão das etapas administrativas, contratuais, estruturais e operacionais.
Em Diadema, a Casa Beth Lobo, vinculada à Secretaria de Assistência Social e Cidadania, oferece atendimento psicossocial, orientação e encaminhamentos à rede de proteção. O equipamento funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e registrou 241 atendimentos a mulheres em situação de violência em 2026.
A cidade também conta com a Patrulha Maria da Penha da GCM, que atua 24 horas no acompanhamento de mulheres com medidas protetivas. A Prefeitura anunciou que pretende ampliar a equipe com mais seis agentes treinados e duas viaturas. Parte das mulheres acompanhadas também pode utilizar o aplicativo ANA, que permite acionar a Guarda em situações de risco e compartilhar a localização em tempo real.
São Bernardo, além da DDM 24 horas, mantém uma rede municipal que inclui a Inspetoria Guardiã Maria da Penha, também com funcionamento ininterrupto, a Casa de Passagem Enfermeira Vanessa de Cássia Fontes e serviços de atendimento psicossocial e orientação jurídica. A rede municipal de saúde também oferece atendimento 24 horas em hospitais e UPAs, inclusive para vítimas de violência sexual, física e psicológica.
Proteção regional e desafios
A Casa Abrigo ABC é outro equipamento importante na rede de proteção. Vinculada ao Consórcio ABC, oferece acolhimento sigiloso a mulheres sob grave ameaça ou risco de morte, e pode receber também seus filhos crianças e adolescentes. O encaminhamento ocorre após avaliação da situação e articulação entre os serviços municipais e os órgãos responsáveis.
Em Ribeirão Pires, enquanto a DDM não começa a funcionar, a Prefeitura informa que mantém serviços de acolhimento e proteção por meio da Secretaria de Segurança Urbana, Mobilidade e Defesa Civil. A administração afirma que entregou o prédio da delegacia ao Governo do Estado e aguarda a estruturação da equipe policial.
A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública do Estado sobre o funcionamento das delegacias na região, o efetivo disponível, a demanda registrada em 2026 e a estrutura de atendimento nos municípios. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
