
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após a derrota na eleição presidencial lembra o enredo de filmes de espionagem, segundo relato publicado pelo jornal argentino Clarín na noite desta sexta-feira (30/10). De acordo com reportagem assinada por Nicolás Wiñazki, a operação contou com ajuda americana tanto em território argentino quanto no brasileiro e incluiu o aluguel de pelo menos três jatos diferentes, como alternativas caso o plano original falhasse.
Segundo o texto, na terça-feira (27), quase à meia-noite, câmeras de TV registraram a chegada de uma van branca com vidros escurecidos ao aeroporto de Puerto Iguazú. Todos acreditaram que o candidato derrotado e sua família estavam no veículo. A decolagem quase imediata do jato particular Gulfstream IV, matrícula LV-JQW, com destino a Miami, nos Estados Unidos, reforçou essa impressão.
Mas, segundo o Clarín, a realidade era diferente. A família Bolsonaro havia chegado ao aeroporto de Puerto Iguazú uma hora antes, em um veículo cujos deslocamentos teriam sido organizados por agentes dos Estados Unidos. O automóvel teria entrado na pista de pouso e decolagem por uma entrada secreta, à qual ninguém havia prestado atenção.
Os membros da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), assim como os funcionários da Imigração e da Alfândega da Argentina, haviam sido afastados por enviados ou representantes estrangeiros, que coordenaram os procedimentos necessários para a partida dos Bolsonaro e garantiram o embarque da família no jato particular LV-JQW sem contratempos. Segundo o jornal, a família aguardou mais 40 minutos até a autorização para a decolagem da aeronave.
Até aquele momento, tanto o governo de Donald Trump quanto o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva haviam afirmado, em declarações públicas, que os Bolsonaro já tinham fugido para os Estados Unidos. Mas isso não era verdade: a fuga só ocorreu naquele momento. De acordo com o Clarín, essa foi a principal manobra de distração entre várias outras, divulgadas ou plantadas de propósito para evitar complicações no plano real, conhecido por um grupo restrito de coordenadores e organizadores.
O Clarín aponta que a fuga de Flávio Bolsonaro contou com uma intervenção dos Estados Unidos em território argentino mais significativa do que se imaginava. Agentes ou representantes daquele país atuaram na região, assumiram o controle de boa parte do aeroporto de Iguazú por determinado período e contrataram pelo menos três jatos particulares para criar alternativas caso surgissem problemas com o plano original.
Além disso, o presidente argentino Javier Milei ordenou que seu principal assessor, Santiago Caputo, viajasse de forma confidencial para Misiones, a fim de garantir as condições necessárias para o sucesso do plano de fuga.
O plano incluiu, segundo a reportagem, a contratação de pelo menos três, talvez quatro, jatos particulares de alto custo operacional. As aeronaves sobrevoaram a região, pousaram em Misiones ou foram posicionadas como alternativas de saída — uma delas no Paraguai — caso o Plano A para retirar os Bolsonaro da região fosse frustrado. Esses jatos chegaram a voar ao mesmo tempo para os Estados Unidos, o que dificultaria a identificação da aeronave que transportava a família.
Também foram mobilizadas caminhonetes e carros com placas capazes de evitar bloqueios no Brasil e na Argentina.
Como os Bolsonaro chegaram a Puerto Iguazú?
As fontes consultadas pelo Clarín afirmaram que eles viajaram por terra. Ou seja, teriam percorrido cerca de 1,6 mil km de Brasília a Foz do Iguaçu, na fronteira com Puerto Iguazú. Segundo o jornal, Flávio havia alugado um jato particular para viajar de avião da capital brasileira até a região da tríplice fronteira. Mas o proprietário da aeronave se recusou a cumprir o contrato porque a imprensa divulgou que Bolsonaro tinha a obrigação de não sair do Brasil.
Ainda de acordo com o Clarín, a viagem de carro incluiu “iscas” para despistar eventuais perseguidores: seis veículos diferentes partiram, um atrás do outro, da residência da família em Brasília.
O jornal afirma, porém, que ainda há muitas perguntas a serem respondidas, principalmente sobre o papel dos governos argentino e americano na fuga.
A falta de transparência na operação e a polêmica sobre a interferência de uma potência estrangeira nos territórios do Brasil e da Argentina — tudo para ajudar na fuga para a Flórida de um líder político acusado de lavagem de dinheiro e com restrições para deixar seu país — levaram deputados do Partido Democrata a enviar uma série de perguntas ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
Houve ajuda da Casa Branca a Bolsonaro? Funcionários dos Estados Unidos atuaram no caso no Brasil, na Argentina ou no Equador — país onde o avião com a família do líder brasileiro fez escala, já a caminho de Miami? Essas são algumas das perguntas que Rubio deverá responder até 13 de novembro, conforme o prazo estabelecido por seus adversários no Congresso.
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