Há 14 anos, uma iniciativa criada a partir de uma experiência de luto se transformou em uma rede de apoio para milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade no ABC. Fundada por Gisele Capelli, a ONG Anjos da Sopa nasceu após a morte da mãe da voluntária, em um inverno rigoroso, com a distribuição de refeições, roupas e agasalhos para pessoas que viviam nas ruas. O que começou com cerca de 70 refeições ganhou novas proporções e hoje passa de 10 mil refeições por mês.
A primeira cozinha funcionava na lavanderia da casa de Gisele. Em entrevista ao RDtv, a também cabelereira conta que com o crescimento das ações, a estrutura mudou para um imóvel na rua Javri, 449, na Vila Assunção, em Santo André. O espaço abriga uma cozinha equipada, com fogão industrial, além das atividades da ONG. Atualmente, cerca de 204 voluntários integram a rede de apoio.

Todas as segundas-feiras, os voluntários levam entre 800 e 1 mil refeições para pessoas em situação de rua de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Mauá. A ONG também mantém atendimento diário na própria sede, com café da manhã e marmitas. Roupas, calçados e cobertores também fazem parte das doações. “O que era esporádico se tornou todos os dias, e há pessoas que sabem que podem bater no nosso portão e para pedir ajuda”, afirma Gisele.
Segundo a fundadora, a atuação ganhou uma dimensão ainda maior durante a pandemia de Covid-19. Mesmo no período de lockdown, a ONG manteve as ações de alimentação e chegou a atender um número de pessoas cerca de dez vezes maior em relação ao período anterior.
Trabalho além das refeições
A atuação dos Anjos da Sopa também alcança 227 famílias em situação de vulnerabilidade social na região. Segundo Gisele, cerca de 70% dessas famílias são formadas por mães atípicas que vivem em comunidades com condições precárias de moradia e falta de saneamento básico. Uma vez por mês, a ONG entrega cestas básicas para essas famílias. A iniciativa também promove ações em datas comemorativas, como Páscoa e Dia das Crianças, além de atender crianças de instituições de acolhimento.
No Dia das Crianças (12/10) deste ano, a festa será realizada em 11 de outubro (domingo), no Colégio Celso Gama. A programação terá lanches, doces, pipoca, algodão-doce, refrigerantes, sucos, show de mágica, DJ e robôs dançarinos. Para a ação, a ONG ainda recebe doações de milho para pipoca, revistas da Turma da Mônica, bichos de pelúcia, doces, caixas de bombons, salgadinhos, refrigerantes e sucos. O material pode ser entregue na Rua Javri, 449, na Vila Assunção.
Segundo Gisele, os Anjos da Sopa atuam na etapa de aproximação e preparação antes do encaminhamento para a Fazenda da Esperança. A ONG também acompanha alguns dos participantes após o ingresso no projeto. “Eu costumo dizer que a dependência química é um aprisionamento. Por isso, antes de qualquer encaminhamento, existe todo um trabalho de conversa, conscientização e construção de confiança”, afirma.
Para Gisele, o contato direto com a população em situação de rua também ajuda a combater a ideia de que essas pessoas estão nas ruas por escolha. “Ninguém quer estar numa calçada com fome, ferido, exposto ao frio e sem condições básicas. Quando vejo alguém dizer que uma pessoa está nessa situação porque quer, tenho mais piedade de quem pensa assim. Ainda falta entender muito sobre a realidade de quem vive nas ruas”, diz.

Outra campanha permanente dos Anjos da Sopa é a arrecadação de cobertores para pessoas em situação de rua. A iniciativa ganhou força após um inverno com registros de mortes de pessoas sem moradia, segundo Gisele. A ONG aceita cobertores novos ou usados. Também é possível contribuir por meio do Pix da instituição. Segundo a fundadora, cada cobertor adquirido pela ONG custa R$ 16,90. “Cobertor é um artigo vital para a gente. Todos os dias tem alguém que precisa de um. Muitas vezes, quando vamos para as ruas e não temos um cobertor, precisamos usar papelão e plástico para proteger uma pessoa do frio naquele momento”, afirma.
A ONG também participa do projeto Com Deus Tem Jeito, iniciativa que reúne instituições para oferecer uma oportunidade de saída das ruas a pessoas em situação de vulnerabilidade e dependência química.
Voluntariado
O trabalho também depende da participação de voluntários. O grupo oferece atividades na cozinha, preparação de alimentos, separação de doações e ações nas ruas. Gisele chama a atividade de “cozinha-terapia” e destaca o contato entre os voluntários durante o preparo das refeições. À noite, as equipes saem para levar comida, roupas e apoio às pessoas em situação de rua. Quem deseja participar pode entrar em contato pelo WhatsApp ou pelo Instagram dos Anjos da Sopa. Após uma conversa inicial, o voluntário passa a integrar o grupo de colaboradores.
A inspiração para o trabalho, segundo Gisele, veio da própria mãe. A lembrança da infância e dos ensinamentos recebidos ajudou a definir a forma de atuação da ONG. “Minha mãe sempre mostrou que, mesmo quando a gente tinha pouco, existiam pessoas que tinham menos ainda. Ela dividia o nosso nada. Isso ficou dentro de mim”, afirma.
A ONG não possui vínculo político ou religioso, embora a fé católica faça parte da motivação pessoal de Gisele. “Minha fé em Jesus me inspira. A ONG, porém, não tem envolvimento religioso nem político. A nossa ideia é gente ajudando gente”, afirma.
Serviço
Anjos da Sopa do ABC
Endereço: rua Javri, 449 – Vila Assunção, Santo André
WhatsApp e chave Pix: (11) 97215-4434
Instagram: @anjosdasopadoabc
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
