
A dificuldade para manter programas de castração gratuita em Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra ganha um peso ainda maior diante da realidade enfrentada pelas próprias equipes de proteção animal: denúncias de maus-tratos, abandono e negligência, o que coloca à prova a capacidade das cidades de prevenir e atender a causa animal.
Em Ribeirão Pires, os procedimentos cirúrgicos que dependem de anestésicos – como o serviço de castração – estão temporariamente paralisados devido à necessidade de substituição de medicamentos.
A informação foi confirmada pela Prefeitura de Ribeirão Pires, que prevê a regularização da situação e a retomada dos atendimentos em cerca de uma semana.
Quem precisou recorrer ao serviço nos últimos meses relata frustração, especialmente diante do número de casos de abandono e maus-tratos registrados na cidade nos últimos anos. Para uma protetora animal que atua no município e prefere não ser identificada, a dificuldade de acesso à castração gratuita acaba penalizando justamente quem tenta contribuir para reduzir o problema.
“Do que adianta ter pessoas de bem que investem tempo para acolher esses animais de rua e levá-los para castrar, se a Prefeitura não faz o dever de casa, que é fornecer o atendimento gratuito aos pets?”, questiona. Em entrevista ao RD, ela afirma ter procurado o serviço em pelo menos duas oportunidades diferentes nos últimos dois meses e relata dificuldades para conseguir atendimento.
“Parece que estão sem seringas para fazer a castração, um item de fácil acesso que ninguém se movimenta para garantir e dar continuidade aos atendimentos. Enquanto isso, os políticos desfilam pelo centro da cidade pedindo votos para as eleições”, reclama.
Cidade registra mais de 100 casos de maus-tratos
A situação chama atenção diante do fato da cidade ter contabilizado 106 casos de maus-tratos contra cães e gatos apenas entre janeiro e junho deste ano, segundo dados da própria administração municipal. Entre as ocorrências atendidas estão animais abandonados em vias públicas, mantidos em correntes curtas, sem abrigo adequado ou vítimas de agressões.
No mesmo período, Ribeirão Pires realizou 954 castrações, além de ações de resgate, atendimento veterinário e acolhimento de animais em situação de risco. A Prefeitura afirma que mantém o programa de castração gratuita e realiza ações de forma contínua, incluindo mutirões.
Em Rio Grande da Serra, serviço também enfrenta interrupção
Em Rio Grande da Serra, a castração gratuita também passa por uma interrupção temporária. Isso porque de acordo com a Prefeitura, a cidade aguarda a posse de um médico-veterinário aprovado no último concurso público para que os procedimentos possam ser retomados.
A dificuldade ocorre em uma cidade que também tem recorrido a ações pontuais para atender a demanda da causa animal. Para se ter ideia, somente este ano três campanhas com unidades móveis de castração foram organizadas por protetores independentes, resultando em mais de 800 animais castrados.
A necessidade de ampliar esse tipo de atendimento ganha ainda mais força diante dos casos recentes envolvendo maus-tratos. Em junho, 65 animais, sendo 50 cães e 15 gatos, foram resgatados de um canil clandestino em Rio Grande da Serra, onde foram encontradas irregularidades, ausência de carteirinhas de vacinação, medicamentos vencidos e condições sanitárias consideradas inadequadas.
A responsável pelo local foi detida e encaminhada à delegacia.
Castração como prevenção
A castração é uma das estratégias utilizadas para controlar o crescimento da população de cães e gatos e evitar que novas ninhadas acabem nas ruas. O procedimento também está associado à prevenção de algumas doenças e à promoção da saúde dos animais. Na prática, porém, quando a oferta gratuita não acompanha a demanda, tutores e protetores acabam dependendo de mutirões e campanhas para conseguir atendimento.
Um caso recente em Ribeirão Pires mostra a dimensão do problema. O abandono de seis filhotes de cachorro na rua João de Nadae, registrado por câmeras de segurança, mobilizou moradores e circulou pelas redes sociais até que a pessoa apontada como responsável pelos animais fosse localizada.
Durante a averiguação da ocorrência, a equipe também encontrou a cadela que havia dado à luz aos filhotes. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ela permanecia presa a uma corrente e dividia o espaço com outro filhote da mesma ninhada, em condições apontadas como maus-tratos.
Os animais foram retirados do local e encaminhados para atendimento veterinário pelo Departamento de Bem-Estar Animal. Após os cuidados necessários, deverão ser disponibilizados para adoção. A castração também está prevista antes ou durante o processo de encaminhamento para novos tutores.
O caso deixa claro como situações de abandono, reprodução sem controle e maus-tratos podem se cruzar e gerar uma demanda que recai sobre a rede pública de proteção animal e sobre protetores independentes. A castração, nesse contexto, seria uma medida preventiva para evitar que novas ninhadas fossem submetidas às mesmas situações.
Problema não se limita aos dois municípios.
Em Santo André, há filas de cerca de 200 a 300 animais por clínica para castração. O Hospital Veterinário, que atende animais braquicefálicos e/ou com mais de 35 quilos e realiza cerca de 50 castrações mensais, possui uma fila estimada em aproximadamente 700 animais.
Já São Bernardo realizou mutirão de quatro dias em março para reduzir a fila, no entanto outros animais aguardam a castração. Até julho, a cidade havia contabilizado 2.843 procedimentos e pretende superar a marca de 5 mil castrações em 2026.
Em Diadema, o Castra+São Paulo realizou 2 mil procedimentos gratuitos entre julho e agosto, na Praça da Moça, mas atualmente o serviço não está disponível, e a Prefeitura abriu chamamento para selecionar organização responsável pela próxima campanha.
Já Mauá informa não possuir fila de espera desde 2025. Entre 2021 e 2025, o município contabilizou 27.175 castrações e, até março de 2026, havia realizado outras 1.659.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
