
Seja por uma noite mal dormida, excesso de peso carregado ou má postura prolongada, a dor nas costas é uma das reclamações mais comuns em consultórios. No entanto, o que muitas vezes é rotulado como um simples “mau jeito” ou cansaço muscular pode, na verdade, ser o indício de uma condição que requer atenção especializada e direcionada.
Ainda mais no atual contexto digital de home-office e uso intenso de smartphones, em que passar longos períodos sentado ou curvado em frente a uma tela faz parte da rotina diária de muitos trabalhadores.
Segundo o ortopedista Ricardo Ferreira, o perfil dos pacientes com dor na coluna mudou significativamente nos últimos anos. Com a consolidação do trabalho híbrido e o uso constante de celulares, adultos jovens e pessoas em idade produtiva tornaram-se os novos frequentadores dos consultórios de ortopedia e neurocirurgia. Alguns gatilhos comuns incluem:
– Trabalhar horas seguidas no notebook com a tela baixa (forçando o pescoço para baixo);
– Utilizar cadeiras sem apoio para braços ou que deixem os pés suspensos;
– Passar longos períodos sentado sem fazer pausas para caminhar ou se alongar;
– Digitar no celular mantendo o aparelho abaixo da linha dos olhos por muito tempo;
– Fazer esforços físicos bruscos ou carregar peso sem o devido condicionamento ou técnica.
O grande vilão, no entanto, não é necessariamente uma postura considerada “errada”, mas sim a falta de movimento do corpo. “Não existe uma postura única e obrigatória que proteja toda pessoa de dor. O maior inimigo é a postura mantida por tempo demais, sem movimento, sem variação e de forma desconfortável”, explica o médico.
Além disso, a dor nas costas se manifesta de formas e em locais diferentes, recebendo classificações específicas de acordo com a área da coluna que é afetada. “A cervicalgia é a dor no pescoço. A dorsalgia ocorre na parte média das costas e a lombalgia afeta a região inferior da coluna, sendo a mais comum”, completa Pedro Góes, neurocirurgião especializado em coluna vertebral.
Em casos atrelados ao uso prolongado de celulares, a cervicalgia é uma das dores mais comumente associadas à má postura. O fenômeno pode ser às vezes apelidado de “text neck”, dor no pescoço associada ao hábito de trocar mensagens. Os especialistas lembram, porém, que a dor é sempre multifatorial e não deve ser transformada em diagnóstico automático de cervicalgia, que costuma vir acompanhada de rigidez local, dores nos ombros, limitação de movimento e até cefaleia (dor de cabeça).
Já a dorsalgia, no meio das costas, muitas vezes exige investigação clínica minuciosa por se relacionar com o tórax e o abdome, onde se localizam diversos órgãos. Por isso, em alguns casos, a dorsalgia é associada a doenças pulmonares, cardíacas, gastrointestinais, inflamatórias, infecciosas ou tumorais. A lombalgia, por outro lado, é a queixa mais comum e pode ficar restrita ao local da lombar ou irradiar para as pernas, acompanhada de formigamento, perda de sensibilidade ou fraqueza.
Em outros casos, essas dores também estão relacionadas com a compressão dos nervos, levando ao agravamento de outros sintomas. “Quando há irritação ou compressão de uma raiz nervosa, pode surgir dor irradiada para os braços, e até formigamento, perda de sensibilidade ou redução de força até as mãos. As causas mais frequentes são sobrecarga muscular, posturas sustentadas, alterações degenerativas, disfunções articulares e, em alguns casos, hérnias discais ou estreitamento dos canais por onde passam os nervos”, comenta o Dr. Ricardo.
Tratamento: cirurgia é regra ou exceção?
Na maioria das vezes, a dor nas costas é de origem mecânica aguda, melhorando em poucos dias com calor local, analgésicos simples e correção de postura. Porém, cenários clínicos de compressão de nervos e da medula, perda progressiva de força, dificuldade para caminhar e alterações de sensibilidade podem indicar algo mais grave e, até mesmo, a necessidade de intervenções cirúrgicas.
“A maioria das dores na coluna responde bem ao tratamento conservador, com medicamentos, fisioterapia, atividade física orientada e mudanças de hábitos. A cirurgia é reservada para situações em que existe uma alteração estrutural bem definida, compatível com os sintomas do paciente, sem melhora após um período adequado de tratamento clínico”, afirma o neurocirurgião.
A hérnia de disco, por exemplo, não é sinônimo de gravidade, sendo possível conviver com a condição de forma totalmente assintomática. “Um conceito importante é que não operamos um exame de imagem, mas sim um paciente. A decisão cirúrgica sempre leva em consideração a história clínica, o exame físico, os exames complementares e, principalmente, o impacto da doença na qualidade de vida”, completa. Entretanto, em casos mais graves envolvendo perda do controle urinário ou intestinal, a cirurgia pode ser uma urgência.
Na maioria dos casos, no entanto, as dores nas costas podem ser facilmente controladas e prevenidas, evitando que se tornem um problema crônico e limitante. “A melhor estratégia é pensar na coluna como parte de um sistema: músculos, articulações, peso corporal, postura, sono, saúde mental, rotina de trabalho, condicionamento físico e hábitos diários (alimentação e hidratação). O objetivo não é ‘nunca mais sentir dor’, mas reduzir a intensidade, recuperar autonomia e evitar que uma dor episódica se transforme em limitação crônica”, diz Ferreira.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
