ABC - segunda-feira , 17 de fevereiro de 2020

Mulheres são alvo do varejo, mas gastam menos, diz pesquisa

Na avaliação do economista Emílio Alfieri, embora cautelosa, a mulher ainda é o grande público alvo do varejo.

Aquele velho conto (um tanto quanto machista, aliás) de que uma mulher com cartão de crédito na mão é sinônimo de perigo cai por terra diante dos estudos realizados no ABC pelo Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, a Umesp. De acordo com Sandro Maskio, docente do curso de Ciências Econômicas e coordenador de Pesquisa do instituto, nos últimos anos, os homens estão menos sensíveis aos preços das mercadorias na hora da compra.

“A curiosidade que observamos ao longo das pesquisas é que, se comparadas aos homens, as mulheres se preocupam muito mais com o valor e a qualidade dos produtos. O gasto médio planejado pela mulher nessas datas comerciais [Natal, Dia das Criança, Dia das Mães, Dia dos Namoradores etc] é bem menor do que o gasto planejado pelo homem. Isso quebra um pouco desse mito de que as mulheres são mais gastonas”, detalha Maskio.

De acordo com a Pesquisa de Intenção de Compras Natal 2012, última coordenada pelo pesquisador, os homens revelaram disposição para pagar um preço médio de R$ 190 por presente, montante 40% maior do que o mensurado pelas mulheres. Além disso, o gasto médio deles gira em torno de R$ 600, valor 70% maior do que o gasto médio programado pelas mulheres.

Na comparação com a pesquisa feita em 2011, o gasto nominal planejado pelos homens permaneceu praticamente estável, com um aumento de 7% no preço médio dos presentes. Já as mulheres apresentaram redução nominal de 15% no gasto planejado, acompanhado de um pequeno aumento de 6% no preço médio.

Na avaliação do economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri, embora cautelosa, a mulher ainda é o grande público alvo do varejo. “Quando saem os dois juntos, o fato é que a mulher é mais seletiva e avalia mais o preço e a qualidade, enquanto o homem se move pelo desejo. Isso acontece de forma geral, não apenas no ABC”, aponta.

“No mercado de trabalho, a mulher ainda batalha para chegar ao patamar do homem. Mas no varejo, ela é preponderante, é quem tem o dinheiro e o poder de decisão. Ela compra para ela e para a família. Isso é histórico e as empresas já estão preparadas para lidar com isso”, destaca. Segundo os estudos levantados pelo Observatório Econômico, qualidade e desconto no produto são fatores determinantes para a compra de um produto.

Ainda na opinião de Alfieri, a mudança na relação mulher-economia acontece mesmo na virada do século, quando cresce a inserção do gênero no mercado de trabalho. “A partir dos anos 1980, 1990, temos visto uma queda na natalidade. Não que a mulher não seja mais necessária no lar, mas o papel de ser mãe, apenas uma dona de casa, tem sumido”, justificou.

“O IBGE, inclusive, tem destacado a diminuição das trabalhadoras domésticas, que estão indo para o setor de comércio e serviços. A mulher se aproxima cada vez mais da produção”, destacou.

Crescimento de chefes de família é menor aqui

Segundo uma pesquisa realizada pelo INPES-USCS (Instituto de Pesquisas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul), nos últimos 15 anos, o ABC observou um aumento da proporção de domicílios com chefes de família do gênero feminino. O estudo, realizado em novembro de 2012, aponta que a participação das mulheres nesse quadro aumentou cerca 49%, passando de 15,0% em 1998 para 22,3% em 2012.

No entanto, a proporção de mulheres chefes de família na região ainda é menor do que a encontrada no Brasil (35% em 2009, segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e no Estado de São Paulo (36% em 2009).

De acordo com Leandro Prearo, coordenador do INPES, a realidade econômica local é um dos principais fatores de interferência no quadro. “No Brasil, principalmente no Nordeste, a mulher tem de sair para o mercado de trabalho para sustentar a casa. Acaba chefiando família. No ABC, isso acaba acontecendo em proporção bem menor, porque a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico por aqui são estáveis”, explica.

A tendência, ainda segundo Prearo, é de que o número de mulheres que chefiam domicílios no ABC continue crescendo, mas sem atingir o patamar nacional.

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