A Casa da Palavra Mário Quintana, no Centro de Santo André, recebeu nesta quinta-feira (20/08) o lançamento do livro O Axé dos Antigos: linhagens e casas de Candomblé, de Ifá e de Egúngún no ABC Paulista, do escritor, historiador, professor e doutorando da USP Fábio Dantas Rocha. A obra reúne a história de 10 casas que compõem o campo afro-religioso da região e busca recuperar trajetórias que, segundo o pesquisador, ficaram à margem dos registros oficiais.
Em entrevista ao RDtv, Fábio contou que a pesquisa combinou levantamento histórico, visitas de campo, entrevistas e indicações feitas pelos próprios integrantes das comunidades. O trabalho nasceu a partir de uma investigação sobre a trajetória da população negra em São Paulo. Ao direcionar o olhar para o ABC, o historiador identificou uma lacuna na forma como a história da região era contada.

“Nos chamou atenção um tipo de discurso muito parecido com o que acontecia em São Paulo, de um discurso que conta a história das cidades sempre a partir de uma lógica do imigrante, sempre a partir do ponto de vista da imigração, da industrialização e da urbanização”, afirmou.
A pesquisa revelou histórias pouco presentes na documentação oficial, envolvendo migrações, lutas por moradia, construção de barracões e quartos de santo, organização das cozinhas, cuidados com os assentamentos e formação de filhos de santo.
“Quando você vive as cidades, encontra uma população negra participando de toda a vida democrática, de toda a vida social. E nos chamou atenção que essas histórias não fossem contadas. Foi nesse percurso que as casas de Candomblé surgiram”, explicou.
A partir dessas descobertas, Fábio decidiu contar parte da história negra do ABC por meio das experiências das comunidades de Candomblé. Segundo o historiador, não foi difícil localizar as casas na região. Muitas estão próximas a áreas de mata e represas, embora também existam terreiros em bairros periféricos e regiões centrais dos municípios.
“O ABC é de fato a nascente do Candomblé paulista. É importante ressaltar a importância de Santo André, São Bernardo e Diadema para a formação do Candomblé no ABC e, se pensarmos em São Caetano, a Umbanda é muito forte aqui também”, destacou.
Entre os espaços abordados na pesquisa está o Santuário Ecológico da Serra do Mar, conhecido como Santuário Nacional da Umbanda. Criado por Pai Ronaldo Linares e Tatá Pérsio, o local foi pensado como um espaço destinado às práticas das religiões de matriz africana, considerando a necessidade de contato com a natureza e de áreas apropriadas para os rituais.

“Pai Ronaldo Linares, junto com Tatá Pérsio, fundaram esse santuário com esse objetivo de congregar as religiões de matrizes africanas. Sabendo da necessidade de terreno, da proximidade da natureza, da abundância de água e do racismo religioso, eles pensaram na formação desse ambiente para que as práticas afro-religiosas tivessem um lugar seguro”, relatou.
Apesar de incluir o espaço na pesquisa, o historiador não conseguiu entrevistar o babalaô Ronaldo Linares. Publicado pela Editora Memoratório, O Axé dos Antigos acompanha a trajetória de mães e pais de santo, os processos de fundação e continuidade das comunidades, os deslocamentos de pessoas e as práticas materiais, religiosas e coletivas que mantêm essas tradições.
Fábio também afirmou que pretende dar continuidade à pesquisa e desenvolver novos projetos relacionados à história e à cultura afro-religiosa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
