
Os resultados do estudo de fase 3 RASolute-302, apresentados na reunião anual da Asco (Sociedade Americana de Oncologia Clínica), em Chicago, e publicados no periódico The New England Journal of Medicine, chamaram atenção pelos benefícios observados em pacientes com câncer de pâncreas avançado.
Para o oncologista Thiago Branco, do Instituto Nacional de Câncer e conteúdista da Afya, o principal legado da descoberta pode estar além dessa doença: a validação da via RAS como alvo terapêutico abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos voltados a diferentes tipos de câncer que compartilham o mesmo mecanismo molecular.
O estudo foi realizado com cerca de 500 pacientes da América do Norte, Europa e Ásia, divididos entre tratamento padrão com quimioterapia e o uso do daraxonrasibe, terapia desenvolvida para atuar contra mutações da via RAS presentes em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático. Os resultados reforçam uma hipótese perseguida há décadas pela oncologia: a possibilidade de bloquear de forma eficaz um dos principais mecanismos responsáveis pelo crescimento de diversos tumores. “No início dos anos 2000, o tratamento para o câncer de pâncreas oferecia expectativa de vida bastante limitada. Embora os resultados do estudo representem um avanço importante para esses pacientes, o aspecto mais relevante é demonstrar que é possível atuar diretamente sobre uma via biológica considerada, por muitos anos, um dos maiores desafios da oncologia molecular”, afirma Thiago Branco.
O interesse em torno da descoberta está relacionado ao papel da via RAS no desenvolvimento do câncer. Esse mecanismo funciona como um regulador do crescimento celular e, quando sofre mutações, pode permanecer ativado de forma contínua, afim de estimular a multiplicação descontrolada das células tumorais. Durante décadas, essa alteração foi considerada um alvo difícil de ser explorado terapeuticamente.
Embora o câncer de pâncreas tenha sido o primeiro grande campo de teste para essa estratégia, Thiago Branco destaca que o potencial da descoberta vai muito além da doença. Alterações na via RAS estão presentes em aproximadamente 20% de todos os tumores humanos.
As estimativas indicam que mutações nessa via estão presentes em cerca de 45% a 50% dos casos de câncer colorretal, em 30% a 35% dos cânceres de pulmão, além de parte dos tumores urogenitais e de alguns tumores do sistema nervoso central. Na avaliação do especialista, a validação desse mecanismo representa um passo importante para o desenvolvimento de futuras terapias direcionadas. “Ao demonstrar que a via RAS pode ser um alvo terapêutico viável, o estudo abre caminho para novas pesquisas em diferentes tipos de câncer que compartilham essa alteração molecular. Isso não significa que os mesmos resultados serão observados em outros tumores, mas amplia as possibilidades de desenvolvimento de tratamentos mais direcionados e potencialmente mais eficazes para esses pacientes.”, explica.
Atualmente, diferentes estudos clínicos já investigam terapias baseadas nesse mecanismo, de forma isolada e em combinação com outros tratamentos. A expectativa é compreender melhor como essa estratégia pode ampliar os benefícios clínicos observados até agora e contribuir para o avanço da medicina de precisão em diferentes tipos de câncer.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
