
O período de maior ocorrência de queda de balões se concentra entre os meses de maio e julho, época das tradicionais festas juninas, justamente quando o tempo mais seco favorece o surgimento e a propagação de incêndios. As estatísticas são ainda mais preocupantes em anos de Copa do Mundo, quando a prática costuma ganhar força. Diante desse cenário, autoridades e entidades ligadas à prevenção de acidentes reforçam os alertas sobre os riscos da soltura de balões no ABC, considerada crime.
Dados do Plano de Auxílio Mútuo (PAM) Capuava apontam que 44 balões foram registrados nas plantas industriais associadas ao Cofip (Comitê de Fomento Industrial do Grande ABC 2024). Em 2025, foram contabilizados 33 registros. Já em 2026, até o momento, cinco ocorrências foram registradas pelo PAM.
Os números históricos demonstram o potencial de crescimento da prática em períodos de grandes eventos. Conforme dados estatísticos do PAM Capuava, em 2014, ano em que a Copa do Mundo foi realizada no Brasil, 207 balões foram registrados nas plantas industriais associadas ao Cofip.
A preocupação é grande devido à localização estratégica do Polo Petroquímico do ABC, que reúne indústrias que trabalham com produtos inflamáveis e operações de alto risco, apesar de investirem em segurança. A queda de um balão em uma instalação industrial pode provocar incêndios de grandes proporções, o que coloca em risco trabalhadores, moradores e o meio ambiente.
Além das áreas industriais, os balões também representam ameaça para áreas de mata, unidades de conservação, residências e redes elétricas. Em municípios como Santo André, Ribeirão Pires, São Bernardo e Rio Grande da Serra, que concentram importantes remanescentes de Mata Atlântica, a prática pode desencadear incêndios ambientais com impactos duradouros para a fauna e a flora.
Desde fevereiro de 1998, a fabricação, comercialização, transporte ou soltura de balões são considerados crimes ambientais. A prática está prevista na Lei Federal nº 9.605, que estabelece penas de até três anos de detenção para os responsáveis.
Período de estiagem amplia preocupação com balões
O alerta ganha mais relevância no momento em que a Defesa Civil do Estado de São Paulo reforça as ações de prevenção contra queimadas na temporada de estiagem de 2026, que tradicionalmente se estende entre junho e outubro, período considerado o mais crítico para incêndios florestais no Estado.
Em entrevista ao RD, Clovis Tiago Censon, agente do Departamento de Proteção e Defesa Civil de Santo André, explica que o trabalho do órgão se divide em três frentes: prevenção, preparação e resposta. “Na etapa preventiva, preparamos a população sobre como agir diante de situações de risco, com foco na adoção de medidas que reduzam danos e preservem vidas”, afirma.
Na fase de preparação, a Defesa Civil realiza treinamentos com equipes de emergência que atuam em sistema de plantão no município. Atualmente, Santo André conta com sete equipes formadas por servidores municipais que auxiliam nas ocorrências quando acionados.
Já na etapa de resposta, a atuação ocorre após a ocorrência, com apoio à população, isolamento de áreas afetadas e suporte às equipes de emergência. “Quando há necessidade, atuamos para proteger a população, fazer isolamentos e minimizar os impactos causados pela ocorrência”, explica Censon.
Uma das novidades deste ano é o programa Muralha do Fogo, desenvolvido pelo governo do Estado. A iniciativa utilizará câmeras instaladas em rodovias estaduais para identificar rapidamente focos de incêndio, permitindo o monitoramento em tempo real e o acionamento ágil das equipes antes que as chamas atinjam grandes proporções.
Crime ambiental ameaça remanescentes da Mata Atlântica
Para o biólogo Ronaldo Morais, diretor do BioParque Macuco, em Mauá, a queda de balões não deve ser tratada como acidente, mas como consequência de uma prática considerada crime ambiental. “O balão já é um crime em si. Quando provoca um incêndio, não estamos diante de um acidente, mas de uma ação criminosa que causa impactos graves ao meio ambiente”, afirma.
Morais destaca que as florestas exercem papel fundamental no equilíbrio climático. As áreas florestais funcionam como um grande sistema de regulação da temperatura do planeta. “Quando perdemos essas áreas, agravamos os efeitos das mudanças climáticas e aumentamos os riscos de eventos extremos, que afetam diretamente a população”, explica.
No ABC, municípios como São Bernardo, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Diadema ainda preservam importantes remanescentes de Mata Atlântica. “Existem áreas muito bem conservadas, como na Serra do Mar e em Paranapiacaba, onde ainda encontramos espécies de grande porte. Mas também há trechos em recuperação que são extremamente frágeis e vulneráveis ao fogo”, observa.
De acordo com o biólogo, os incêndios causados por balões podem comprometer décadas de regeneração ambiental. “Nas áreas que já sofreram degradação, um novo incêndio pode provocar danos irreparáveis. A recuperação da vegetação começa rapidamente após as chuvas, mas a formação de uma floresta estável exige muitas décadas e pode levar mais de cem anos”, afirma.
Os prejuízos também atingem diretamente a fauna silvestre. “Você acaba com árvores antigas que servem de abrigo, reprodução e alimentação para diversas espécies. Aves, mamíferos, insetos e outros animais perdem habitat, alimento e condições de sobrevivência. Além disso, toda a cadeia alimentar é afetada”, destaca.
Morais alerta ainda para um fator frequentemente ignorado pela população. “Muitos balões de grande porte carregam estruturas com fogos de artifício. Essas estruturas podem ficar presas nas copas das árvores e aumentar significativamente o risco de incêndios”, alerta.
O biólogo ressalta que o período de estiagem potencializa os riscos. “O incêndio já é perigoso por si só, mas durante o tempo seco existe uma grande quantidade de matéria vegetal ressecada, que funciona como combustível para as chamas”, afirma o Morais.

Simulado prepara equipes para ocorrências
Como forma de prevenção, o Cofip, o PAM Capuava e a empresa associada PMS promovem, na próxima quinta-feira (11/6), simulação de queda de balões em parques industriais. A atividade ocorrerá a partir das 9h no Centro de Treinamentos da PMS, localizado na rua David de Oliveira Gomes, 191, em Ribeirão Pires. A previsão é de que o exercício tenha duração de aproximadamente duas horas.
A atividade será realizada no campo da PMS, empresa especializada em consultoria e treinamento de brigadistas. O cenário reproduzirá uma instalação industrial e contará com uma demonstração prática de queda de balão.
Segundo os organizadores, o objetivo é capacitar as equipes de brigada de incêndio das empresas associadas ao Cofip ABC e ao PAM Capuava para atuar com rapidez e eficiência em situações de emergência envolvendo a queda de balões.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
