
As autoridades federais dos EUA investigam se o ex-deputado federal de origem brasileira George Santos se envolveu em uso de informação privilegiada ao apostar em um mercado de previsões sobre seu comparecimento ao discurso do Estado da União do presidente Donald Trump, no fim de fevereiro.
Pouco antes do discurso, Santos anunciou nas redes sociais que planejava comparecer. Sua presença era tema de debate entre apostadores do mercado de previsões Kalshi, que faziam apostas sobre a lista de convidados.
“Estarei na galeria”, provocou Santos em um vídeo publicado no X.
O ex-deputado não compareceu ao discurso e, por volta da época do evento, a Kalshi identificou que ele havia apostado contra a própria presença, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que falou sob condição de anonimato para discutir uma investigação em andamento.
A empresa encaminhou o caso ao Departamento de Justiça e à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), órgão regulador que supervisiona os mercados de previsão.
A CFTC investiga Santos. Não está claro se o Departamento de Justiça abriu uma apuração formal. O ex-parlamentar não respondeu à reportagem do The New York Times.
Ex-congressista republicano de Nova York, Santos, de 37 anos, foi acusado de fraude em 2023, após o The New York Times e outros veículos noticiarem que ele havia mentido extensamente sobre sua biografia. Os promotores o acusaram de fornecer informações falsas em formulários oficiais e desviar dinheiro de doadores, entre outros crimes. Ele foi expulso da Câmara dos Representantes e posteriormente condenado a sete anos de prisão.
A investigação ocorre em um momento em que o governo Trump enfrenta pressão para demonstrar capacidade de fiscalização sobre o uso de informações privilegiadas e outros abusos em mercados de previsão, setor que cresce rapidamente nos Estados Unidos.
A Kalshi é uma das empresas do setor com ligações ao círculo empresarial do presidente. No início do ano passado, a companhia nomeou Donald Trump Jr. como consultor estratégico.
Uma investigação do The New York Times publicada no mês passado apontou que, durante o governo Trump, a CFTC tomou decisões favoráveis aos mercados de previsão em diversas ocasiões.
Dois altos funcionários de carreira da agência, que questionaram a condução de casos relacionados a esses mercados, foram afastados para investigação e proibidos de acessar os escritórios da instituição no fim do ano passado, segundo o jornal.
Em entrevista ao The New York Times, o presidente da CFTC, Michael S. Selig, afirmou que os reguladores responsabilizarão eventuais infratores. Santos deixou a prisão após Trump comutar sua pena.
A investigação sobre as apostas de Santos foi noticiada anteriormente pela Rádio Pública Nacional (NPR). O caso é o terceiro caso de suspeita de uso de informação privilegiada em mercados de previsão revelado nas últimas semanas.
No mês passado, o Departamento de Justiça e a CFTC acusaram um funcionário do Google de utilizar informações privilegiadas para apostar em resultados de buscas na internet.
Em abril, um integrante das Forças Especiais dos EUA foi acusado de usar informações confidenciais do governo para obter mais de US$ 400 mil em apostas relacionadas à operação para capturar Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
Condenação e clemência de Trump
O republicano foi condenado após admitir que enganou doadores e roubou a identidade de 11 pessoas, entre elas familiares, para realizar contribuições à própria campanha.
Santos passou 84 dias sob custódia federal. Segundo o Departamento Federal de Prisões, sua libertação estava originalmente prevista para setembro de 2031.
A comutação da pena foi mais um ato de clemência concedido por Trump a ex-políticos republicanos desde seu retorno à Casa Branca.
No fim de maio, o presidente perdoou o ex-deputado federal Michael Grimm, republicano de Nova York que, em 2014, se declarou culpado por subnotificar salários e receitas de um restaurante que administrava em Manhattan.
Trump também concedeu perdão ao ex-governador de Connecticut John Rowland, cuja carreira política foi marcada por um escândalo de corrupção e duas condenações federais.
Quem é George Santos?
Filho de imigrantes brasileiros, Santos foi o primeiro republicano assumidamente gay eleito para o Congresso dos Estados Unidos, em 2022, ao conquistar uma cadeira que representava partes do Queens e de Long Island.
Sua carreira política, porém, terminou rapidamente após o The New York Times e outros veículos revelarem uma série de falsidades em sua trajetória.
Santos afirmava ser descendente de refugiados do Holocausto, dizia que sua mãe estava no World Trade Center em 11 de setembro de 2001, alegava ter sido destaque no vôlei universitário e afirmava possuir ampla experiência em Wall Street.
Posteriormente, admitiu que nunca se formou no Baruch College nem integrou o time de vôlei da Manhattan College. Também não trabalhou no Citigroup nem no Goldman Sachs.
Ele tampouco era judeu, apesar de ter feito declarações nesse sentido. Santos alegou que se referia à ascendência judaica da família de sua mãe, embora tenha sido criado como católico.
Em 2023, foi acusado de desviar recursos de campanha, receber auxílio-desemprego de forma fraudulenta e mentir ao Congresso sobre seu patrimônio. Meses depois, foi expulso da Câmara dos Representantes dos EUA.
Santos se declarou culpado no ano seguinte, às vésperas do julgamento, e admitiu ter mentido sobre sua formação acadêmica e experiência profissional durante a campanha eleitoral.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
