
Em tempos em que a violência contra a mulher tem cada dia mais registros, a segurança também dentro de um carro de aplicativo é cada vez mais relevante. As principais operadoras Uber e 99 têm seus próprios programas de alertas e segurança e até a opção da mulher chamar uma motorista, mas nem sempre essa opção está disponível na região, só parte das usuárias ouvidas pelo RD relata o conhecimento da funcionalidade.
A vice-presidente da OAB (Ordem dos Advogados de Santo André) e especialista na área segurança, Mirian Bazote, diz que as plataformas poderiam oferecer mais ferramentas de proteção.
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, as plataformas divulgaram materiais informativos sobre essas opções de atendimento em emergências e a opção da motorista mulher. Mirian Bazote, considera que as plataformas poderiam investir mais em serviços de proteção, principalmente para as mulheres, como câmeras com armazenamento de imagens só acessíveis por solicitação das partes e também mais informação de como usar as opções de segurança.
“Eu fiz o lançamento de uma cartilha sobre comportamentos abusivos de homens e demos uma pincelada no que pode acontecer no transporte por aplicativo, eu percebi que, na época, o serviço Uber Mulher tinha sido retirado, entrei em contato com a plataforma para saber porque, e me disseram que tinham dificuldade para contratar motoristas parceiras em quantidade suficiente para manter. Eu soube que depois voltaram com esse serviço. Mas esse é apenas um mecanismo de outros que as plataformas deveriam adotar”, diz Mirian, que também é empresária e usa suas redes sociais para dar dicas de segurança para a mulher.
Mirian vai lançar no próximo dia 31 outra cartilha, chamada “Do Cotidiano ao Perigo Real”, que alerta sobre várias situações do dia a dia em que a mulher fica mais vulnerável, como na saída de casa, caminhando na rua e entre as dicas estão algumas relacionadas ao uso do transporte por carros contratados por aplicativos.
O RD adianta algumas das dicas deste novo manual para segurança da mulher. A primeira delas é, quando o carro chega, é o motorista que tem que perguntar o nome dela, e não o contrário, assim é possível saber se está entrando no carro certo. Conferir antes o motorista e a placa do carro também é importante.
Dicas de segurança
Outra dica de segurança é sentar na posição diagonal à do motorista, nunca atrás do banco dele. “Isso é importante porque assim eu consigo ver o que ele está fazendo, se ele liga algum dispositivo ou se pega alguma coisa. Isso é muito importante. Outra coisa importante é que os aplicativos têm na aba de segurança uma opção de gravar o áudio de tudo que acontece durante a corrida e que se encerra automaticamente com o fim do trajeto. Essa gravação também pode ser solicitada se necessário e considerada como prova”, diz Mirian.
Conversar muito e ser invasivo sobre coisas da vida da passageira é outro sinal de alerta. “Se o motorista pergunta se você trabalha ou mora naquele endereço que te pegou é sinal importante de alerta, coisas como perguntar se mora sozinha, no que trabalha são outras questões muito invasivas que a mulher deve evitar responder”, diz a advogada.
Mirian diz que compartilhar a viagem com alguém de confiança como dica que pode alertar em caso de parada repentina ou desvio do trajeto. “A gente tem que saber usar todas as ferramentas dos aplicativos de transporte. Uma frase mal colocada pode mostrar a intenção do motorista. O importante é a mulher não achar que aquilo é normal e ficar atenta ao comportamento, ao trajeto, pois qualquer desvio não justificado é motivo para acionar a emergência do aplicativo”, completa.
A moradora de São Caetano, Liege Ariza Sanchez, que usa diariamente o serviço de transporte por aplicativo para deslocamentos de ida e volta para o trabalho, diz que não passou por situações de risco, mas tem conhecimento das ferramentas de segurança do aplicativo e sempre compartilha os trajetos com a mãe. Liege, no entanto, não conhece a ferramenta para a contratação de motoristas mulheres. “Eu não sabia que tinha Uber ou 99 só para mulher, eu uso já há três anos e, com certeza, tenho medo, já vi motorista que corre, que costura no trânsito. Mas nunca aconteceu do motorista dizer algo que me deixou constrangida”, diz a usuária. “Se eu puder escolher uma mulher de motorista eu me sentiria mais segura”, completa.
Aline Alves, que mora em Diadema, desconhecia a ferramenta que conecta passageiras a condutoras e diz que pretende usar. Nas corridas que contratou já foi atendida por mulheres diz que se sentiu mais segura. Ela critica a postura e o profissionalismo de alguns motoristas. “Várias vezes que pedi veio carro batido, carro muito sujo, motorista vestido de qualquer jeito e nem parecia que estava a trabalho, inclusive alguns até com cheiro de suor”, reclama.
Antonia Souza, de Santo André, conta que usa com certa regularidade o serviço de transporte por aplicativo, diz que nunca identificou uma situação de risco, mas diz também que se sente melhor quando a motorista é mulher. Ela adota uma medida preventiva quando o condutor é homem. “Dou um jeito de falar alto com alguém no celular dizendo que estou compartilhando a viagem”. Segundo ela isso já dá ao motorista a informação de que a passageira está precavida. “Também deixo a janela aberta e estou sempre perto da porta e fico atenta a tudo”, continua Antonia. “Com isso eu me sinto segura independente de quem estiver dirigindo, porém, à noite, se for uma mulher eu me sentiria melhor”.
A andreense disse que já pegou carro de aplicativo em diferentes regiões e já percebeu comportamento inadequado dos motoristas, só porque estavam transportando mulher. “Em São Paulo peguei um que além de ser grosso me deixou longe do endereço, à noite com duas adolescentes e uma pessoa depressiva. Uma outra vez ele chegou no local de partida e quando viu as sacolas e uma pessoa bem gordinha virou e foi embora. Em Bauru, no interior do Estado, vi motorista imprudente e reclamando de um trânsito que nem existe. Trânsito é terça e quinta em São Paulo”, brinca Antonia Souza.
Funcionalidade
O RD examinou os aplicativos Uber e 99, na primeira logo depois de informar o destino aparecem as opções de tipos de carro e também aparece a opção Uber Mulher. Pela simulação feita, com uma corrida entre a divisa de São Bernardo com Diadema, na avenida Piraporinha, até um endereço no bairro Vila Nogueira, também em Diadema, o valor da corrida foi igual ao do Uber X, com uma variação para maior no tempo de espera. No app da 99 a opção Botão 99 Mulher não foi encontrada no aplicativo.
O Uber Mulher foi anunciado pela plataforma no início de março para operação em capitais como Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. Segundo a plataforma, se não houver condutoras na região para atender imediatamente o aplicativo pergunta se ela quer continuar aguardando ou se pode ser atendida por um motorista. Questionada sobre a quantidade de mulheres motoristas parceiras, em relação a condutores homens e sobre o percentual de chamados do Uber Mulher foram de fato atendidos conforme a solicitação, a Uber não respondeu. A plataforma também não informou se essa funcionalidade está disponível em todo ABC. Da mesma forma a 99 não respondeu com dados regionais a respeito do botão 99 Mulher e nem porque o aplicativo não oferece essa funcionalidade na região.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
