
A endometriose, durante muito tempo empurrada para o campo do silêncio, ganhou espaço oficial no plenário da Câmara Municipal de Santo André nesta quinta-feira (12/03).
A sessão solene em comemoração à Semana de Educação Preventiva e de Enfrentamento à Endometriose e ao Dia Nacional de Luta contra a Endometriose – celebrado neste 13 de março – reuniu representantes do poder público, da área da saúde e mulheres que convivem diariamente com a doença, em um encontro marcado por relatos e apelos por mais políticas públicas.
A solenidade foi presidida pelo vereador Renatinho Santiago, autor do requerimento que deu origem ao evento e também de iniciativas legislativas ligadas ao tema no município. Compuseram a mesa a vice-prefeita Silvana Medeiros e a deputada estadual Ana Carolina Serra. Também participaram autoridades da saúde e do ensino médico, entre as quais o presidente da Fundação do ABC, Aldemir Humberto Soares, e o reitor do Centro Universitário FMABC, Fernando Fonseca, além de diretores de unidades de saúde estaduais e municipais do ABC.
Mais do que uma cerimônia formal, a sessão teve tom de mobilização. Ao abrir os pronunciamentos, Ana Carolina Serra afirmou que “a dor não é normal” e defendeu mais investimento em exames de imagem especializados, capacitação médica e pesquisa. Segundo a deputada, o debate precisa sair do campo da empatia discursiva e alcançar orçamento, estrutura e ação prática, especialmente em uma área que afeta milhões de mulheres e ainda convive com subdiagnóstico e invisibilidade.
A fala da parlamentar dialogou com uma percepção repetida ao longo da sessão: a de que muitas mulheres ainda passam anos ouvindo que a dor menstrual intensa seria algo comum. O próprio vereador Renatinho Santiago reforçou essa crítica ao afirmar que a endometriose “não é exagero”, “não é drama” e “não é frescura”.
Durante a solenidade, foi exibido um vídeo institucional sobre a lei municipal que instituiu o Programa de Prevenção e Tratamento da Endometriose em Santo André. No material, foram destacados sintomas recorrentes, a dificuldade de diagnóstico e a necessidade de atendimento especializado. O vídeo também ressaltou a expectativa de ampliação do acesso ao tratamento no município, a partir da regulamentação da política pública já aprovada.
A sessão ganhou ainda mais força com os depoimentos de mulheres diretamente afetadas pela doença. Foi o caso de Wendy Ruas, por exemplo, de 31 anos, que contou como conviveu por anos com a suspeita da doença, até conseguir o primeiro laudo somente em 2025, após pagar por uma ressonância em hospital particular. Em sua fala, fez um apelo para que profissionais e serviços de saúde não desacreditem o sofrimento das pacientes e defendeu a necessidade de melhorias estruturais.
As manifestações das pacientes encontraram eco nas falas das autoridades presentes. Silvana Medeiros, vice-prefeita de Santo André, afirmou que a política pública precisa ser transformada em prática cotidiana e destacou o papel do núcleo especial de políticas para as mulheres, criado pelo município, como elo entre a legislação e a execução de ações articuladas na rede de saúde.
Na área técnica, a médica Maria Odila Gomes Douglas, do Centro Universitário FMABC, destacou que o Ministério da Saúde já estabeleceu protocolos e diretrizes terapêuticas para o diagnóstico da endometriose. A especialista enfatizou que a cólica menstrual precisa ser valorizada como um sinal de alerta e defendeu que o cuidado deve ser integral: “A mulher não precisa só do ginecologista; ela precisa do psicólogo, de um clínico cuidador, nutrição e exercício físico. O atendimento deve ser multiprofissional”, afirmou a médica.
Em fala posterior, o presidente da Fundação do ABC, Aldemir Humberto Soares, reforçou que hoje há condições de realizar o diagnóstico, desde que existam equipamentos adequados, técnica apropriada e investimento. Segundo ele, não basta diagnosticar se o sistema não consegue oferecer o tratamento, inclusive cirúrgico, quando necessário. Ao citar o Hospital Mário Covas como unidade capacitada para os casos mais complexos, ponderou que a ampliação das cirurgias depende de reforço financeiro e apoio institucional.
Ao longo do encontro, Renatinho Santiago mencionou números que ajudam a dimensionar a demanda reprimida. Segundo o vereador, Santo André teria mais de 40 mil mulheres com diagnóstico de endometriose, enquanto o ABC somaria mais de 120 mil casos, muitos deles com pacientes à espera de cirurgia de alta complexidade. O vereador também defendeu a implantação de um ambulatório da dor e de um ambulatório da mulher, como estratégias para ampliar o cuidado preventivo e o acompanhamento contínuo.
“Em 13 de março celebramos o Dia Nacional de Combate à Endometriose, uma data para dar visibilidade a uma doença que afeta milhões de mulheres e que, por muito tempo, foi marcada pelo silêncio e pela falta de diagnóstico. O encontro na Câmara representa um marco importante: a dor da endometriose não será mais silenciada em nossa cidade. Nesse sentido, sugerimos a criação de um ambulatório da dor e também do ambulatório da mulher. Avançamos com projeto de lei e indicações ao poder público, para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado”, afirma o vereador Renatinho Santiago.
A sessão solene terminou com agradecimentos e com uma mensagem que se repetiu desde a abertura: a necessidade de transformar debate em ação. Em vez de tratar a endometriose como assunto restrito ao consultório ou à esfera privada, o encontro na Câmara de Santo André colocou a doença no centro da agenda pública. E deixou claro que, para as mulheres que convivem com dor, sangramento, espera e descrédito, visibilidade não é um gesto simbólico. É o primeiro passo para garantir dignidade, acolhimento e tratamento.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
