ABC - segunda-feira , 17 de fevereiro de 2020

Fundação Criança ajudou a solucionar 861 casos de desaparecimentos

A busca por crianças e jovens desaparecidos conta com um aliado em São Bernardo, o Programa Reencontro, desenvolvido pela Fundação Criança para dar apoio às famílias. Desenvolvido em parceria com a Polícia Civil e referência no ABC, o projeto já ajudou a solucionar 861 casos desde sua criação em 2006.

“A quantidade de crianças e adolescentes não encontrados, levando-se em conta os últimos cinco anos, é de menos de 1%, se comparada ao total de queixas de desaparecimentos no município”, afirma Ariel de Castro Alves, presidente da Fundação Criança e coordenador do Grupo Técnico Criança Prioridade 1 do Consórcio Intermunicipal do ABC. No Estado, os índices de desaparecimentos não resolvidos gira em torno de 15%.

A Fundação tem reivindicado junto ao Estado, por meio do Consórcio Intermunicipal, a criação de delegacias especializadas de proteção à criança e ao adolescente. “O ABC tem todas as condições de ser referência nesta temática, como tem sido em várias outras. Através do Consórcio realizamos capacitações sobre o enfrentamento ao desaparecimento de crianças e adolescentes aos profissionais da área social e aos policiais das sete cidades do ABC”, defende.

Atualmente, a Fundação lida com 10 casos de desaparecimentos de crianças e adolescentes, com apoio da polícia, que imediatamente após o registro do boletim de ocorrência, encaminha o documento por fax para o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da instituição. Numa ocorrência, esta destina sua equipe interdisciplinar para atuar no atendimento aos familiares e colaboração nas buscas, investigação e localização. “No momento do desaparecimento tudo é válido para colaborar na busca e localização, mas é necessário um planejamento e uma integração para que todas as pessoas e órgãos contribuam conforme suas atribuições e possibilidades”, detalha.

Outra medida utilizada é o envelhecimento digital. O método é utilizado para pessoas desaparecidas há anos, com paradeiro totalmente desconhecido. O programa simula o envelhecimento a partir de fotos do desaparecido e de seus familiares, possibilitando a divulgação da imagem com as características físicas atuais da criança.

Após o retorno da criança a convivência com os pais, responsáveis e familiares, a Fundação também realiza uma avaliação sobre o que motivou o desaparecimento dessas crianças ou adolescentes, oferecendo um acompanhamento e inclusão do jovem e da família em programas sociais da própria Fundação e da Rede Municipal de Assistência Social e de Saúde. Outros programas da Fundação são o apoio à família, erradicação do trabalho infantil, enfrentamento à violência doméstica e atendimento à comunidade com ações socioeducativas, abrigos e tratamento de dependência química.

Cadastro

Desde 2011, a Fundação Criança mantém no site www.fundacaocrianca.org.br o Cadastro de Crianças e Adolescentes Desaparecidos para que os interessados em ajudar a divulgar fotos dos jovens desaparecidos possam ajudar. Já o Programa Reencontro está disponível de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. O endereço é rua Francisco Visentainer, 804, bairro Assunção. Mais informações pelos telefones 4344-2100 e 4344-2148.

São Paulo registra 53 desaparecidas a cada dia

Família ainda procura Sulamita

Em São Bernardo, a família Scaquetti nunca mais foi a mesma desde 16 de setembro de 2010, quando a esteticista Sulamita Scaquetti Pinto, na época com 32 anos, não apareceu na escola para buscar o filho e nem voltou para casa. Numa procura contínua, a família mudou a rotina, porque quase não recebeu ajuda da polícia.

Professora de Serviço Social, a irmã Rosa Scaquetti deixou Ribeirão Pires e foi morar no apartamento de Sulamita, no bairro Santa Terezinha, em São Bernardo, para ficar mais perto da família e atuar nas buscas. Cerca de 50 pessoas, entre familiares e amigos, tentam ainda hoje achar Sulamita. Espalharam panfletos em quase toda linha de ônibus municipais e distribuíram faixas.

Rosa acredita que um surto pode ter provocado o desaparecimento de Sulamita. Vaidosa, a esteticista tomava remédios para emagrecer e, no final de 2009, teve um surto com a interrupção do tratamento. “Ela ficou uma semana chorando e com mania de perseguição. Prometeu não ingerir mais o medicamento, mas voltou a tomá-lo em 2010”, conta.

Rosa diz que, apesar da repercussão do caso na imprensa, os policiais pareciam não saber do sumiço da jovem. “Fizemos boletim de ocorrência, mas ao falar com os policiais nas ruas víamos que eles não tinham conhecimento do fato. Foi aí que percebemos que teríamos de fazer trabalho de formiguinha. A gente recebia telefonemas e ia atrás”, afirma Rosa.
A professora conta que as poucas pistas sobre o paradeiro da irmã foram obtidas pela família. No dia posterior ao sumiço, Rosa encontrou o carro de Sulamita num lava rápido, no centro de São Bernardo. Lá, soube que Sulamita tinha ido a um culto e quando retornou foi informada que não aceitavam pagamento com cartão, disse que iria ao banco, mas não voltou. “Conseguimos ver as imagens de todos os bancos da rua Marechal Deodoro e descobrimos que ela não foi a nenhum deles”, afirma.

Os Scaquetti descobriram que Sulamita passou pelo parque Selecta, pois foi vista caminhando com os sapatos na mão, sentada num ponto de ônibus e depois entrando num terreno baldio. Um tio achou as roupas da esteticista num terreno. Estavam dobradas, sem sinal de violência. Ficaram desesperados. “Só então tivemos a ajuda do COE [Comandos e Operações Especiais da Polícia Militar], que procurou vestígios da moça na mata do parque Selecta, mas nada encontrou”, afirma.

Há quase dois anos, a família não tem mais pistas. “A polícia interrompeu as buscas, sem previsão para retomá-las”, conta. Inconformado, o pai, Moacyr Pinto publicou diversas cartas com pedido de ajuda aos internautas e também propôs um projeto de lei junto ao governo do Estado. “A nossa briga é por políticas públicas, pois é um descaso muito grande ouvir dos policiais para deixarmos que Deus irá trazer minha irmã de volta”, critica. Rosa não desiste. “A gente não esquece um parente próximo”, diz a professora que ainda divulga fotos pelo Facebook, na esperança de ter alguma notícia. O telefone para notícias de Sulamita é (11) 96629-5475.

Mãe chora sumiço de Thayane

Datas comemorativas, como Natal e Dia das Mães, foram esquecidas pela dona de casa Tania Regina Cruz, 38 anos, desde que a filha Thayane Hellen Cruz Alves, 15 anos, fugiu pela janela da cozinha e nunca mais voltou para casa, no Jardim Irene IV, em Santo André. Thayane desapareceu no dia 12 de novembro de 2011.

“Ela gostava de sair, queria ser igual às irmãs, mas não conseguia voltar dos lugares”, conta a mãe. Thayane tem problemas mentais. A mãe reclama que foi insultada pela polícia. “Quando fui fazer o boletim de ocorrência, eles falaram que era para a gente se virar, porque a polícia não procura ninguém”, conta a dona de casa, que tem mais 10 filhos. Abalada com o sumiço da filha, Tania não respondeu às provocações dos policiais. “Eles não procuram porque é filho de pobre. Mas se fosse de rico, estava todo mundo atrás”, acredita.

Sem condições de manter o aluguel da casa onde vive, Tania terá de se mudar para a casa da mãe, em São Paulo. O fato tem deixado a dona de casa ainda mais aflita. “Tenho de ir, mas meu coração ficará aqui. Enquanto não encontrá-la, não terei paz”, afirma. A mãe acredita que a filha foi aliciada por algum rapaz e esteja presa na região, por causa da beleza e dos olhos verdes.

Técnico procura dois filhos

Janderson Barbosa Costa, técnico de luz e som, 32 anos, passa parte do tempo com a sobrinha de um ano. No braço direito uma tatuagem de sol e lua, que representam os filhos Endrews e Tamiris Diniz Barbosa, hoje com 13 e 12 anos, respectivamente, ambos desaparecidos.

O técnico não vê os filhos desde outubro de 2004, quando a mãe Maia do Socorro Lima Diniz disse que levaria as crianças ao shopping e nunca mais retornaram. “Eu acredito que foi vingança porque eu não quis voltar com ela”, conta o rapaz que, para encontrar novamente os filhos, fez até curso de detetive particular. “Eu vendi tudo para pagar detetives”, diz.

Nos tempos livres, Costa sai de casa, na vila Vivaldi, em São Bernardo, para procurar a família. O tecnico afirma que recorreu à polícia, “mas negaram ajuda, porque eu não tinha o endereço exato de onde as crianças estavam”, critica.Por andar pela cidade à procura dos filhos, Janderson conta que virou alvo dos policiais. “Já perdi as contas de quantas vezes fui abordado e detido”, reclama.

Costa sonha com o casal de filhos. “Quero colocá-los na escola, pois sei que eles não estudam porque já fiz busca na Delegacia de Ensino e os nomes deles não constam nas listas de escolas públicas e particulares”, afirma.

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