
São Caetano completa 149 anos nesta terça-feira (28/07) com festa e eventos, mas por trás da importante data e das atividades promovidas pela prefeitura há desafios a serem enfrentados pelo município. As mudanças promovidas pela administração municipal recentemente dividem opiniões, como a mudança do atendimento especializado em doenças cardiovasculares Pronto Cardio, em unidade de atendimento geral; o corte do Tarifa Zero, que era universal e hoje atende somente a moradores, estudantes e pacientes em tratamento de câncer desde que façam um cadastramento já considerado inconstitucional pela Justiça; além do fim do programa assistencial; o restaurante Nosso Prato.
A prefeitura também cortou verba da segurança pública; no ano passado foram destinados ao setor R$ 60 milhões e só R$ 20 milhões este ano. Soma-se a isso questões econômicas como o aumento de 7,66% da inadimplência, queda de 19% nas exportações que trazem insegurança econômica.
O programa Tarifa Zero é o que tem dado mais trabalho, seja para os usuários moradores da cidade que tentam o cadastramento, mas enfrentam barreiras e exigências invasivas à sua vida pessoal, como a pergunta sobre quanto o morador consome de internet mensalmente, seja por quem não mora, mas trabalha em São Caetano. A polêmica restrição ao programa é considerado um retrocesso em termos de políticas públicas. “É um recorte excludente onde quem está dentro da cidade é diferente de quem está fora. É um retrocesso enorme. O Tarifa Zero era um exemplo de política bem feita e a conta estava fechando, mas aí vem esse retrocesso e ainda justificado na sobrecarga do sistema. O programa foi vítima do próprio sucesso. Um parque muito frequentado então tem que ser fechado? O argumento é artificial, o governo não mostrou em nenhuma planilha, a quantidade de reclamações. Nem o estudo feito pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), para justificar o fim da Tarifa Zero universal, cita o volume de queixas”, analisa, Thiago Von Zeidler, urbanista, doutorando em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC (Universidade Federal do ABC) e que deve apresentar sua tese este nos próximos meses justamente sobre a Tarifa Zero.

Segundo Zeidler a piora do serviço, se ocorreu, pode também estar relacionada à verba destinada ao programa e a autorização do município para a empresa que explora o serviço de transporte, a Vipe (Viação Padre Eustáquio), em por mais ônibus na rua. Para o pesquisador também não é convincente o argumento usado pelos vereadores que apoiam o prefeito Tite Campanella (Republicanos) de que diversas cidades que tinham implantado a Tarifa Zero teriam voltado atrás. “Foram dez cidades que desativaram o programa enquanto 145 implantaram. A própria prefeitura teria admitido a redução de 20% no número de carros nas ruas, o que significa menos poluição, menos trânsito, onde isso pode ser ruim? A UFABC vai fazer um congresso esse ano e vai abordar esse tema”, completa o urbanista.
Economia
O fim da universalidade da Tarifa Zero está ligada à sustentabilidade dos empreendimentos, comerciais, industriais, ao emprego e à arrecadação do município. Para o economista e presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano, Alexandre Damasio, a previsão é pessimista para o resultado do comércio e o reflexo poderá vir já no movimento de julho, primeiro mês de cobrança de tarifas para quem não é cadastrado no SancaGov. Levantamento feito pela CDL sancaetanense referente ao mês de junho já apontava que o endividamento das famílias sancaetanenses tinha aumentado 7,66% naquele mês, sendo que a cidade tem a maior dívida média do ABC, de R$ 7.142,81. Ele também considera “muito grave” o resultado do levantamento sobre as exportações feito pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) que apontou queda de 19% em São Caetano.
“Não tenho dúvidas que São Caetano tem coisas a comemorar no aniversário de 149 anos, mas tem problemas; eu vejo uma miopia da gestão que só fala para dentro, olha para o próprio umbigo. Não vemos previsões de como a cidade vai se adaptar ao novo regime tributário, além disso o empresário precisa de um ambiente estável para investir, mas como ter essa estabilidade se a prefeitura muda o sistema o transporte no meio do ano? E a prefeitura que não abre licitações para empresas da cidade? Se a cidade quer manter o título de melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) como vai fazer para manter as empresas, como atrair novos moradores? São Caetano é uma cidade industrial que não traz novas indústrias para atender a essa cadeia”, analisa Damasio.
O presidente da CDL também aponta preocupação com redução das exportações. “Queda de 19% é muito grande. É preciso entender como isso surgiu, mas a prefeitura fala pouco disso e os reflexos são imediatos na economia. A primeira atitude do empresário que passa por isso é cortar funcionários”, aponta. Da mesma forma, Damasio, prevê que o fim da Tarifa Zero universal resulte em desestímulo às contratações na cidade e menos atrativo para empresas. Ele prevê que resultados negativos já sejam verificados em julho, com 15 dias da vigência da cobrança de tarifa nos ônibus.
O ProntoCardio, um centro de médico especializado em doenças cardiovasculares planejado pelo ex-prefeito José Aurichio Júnior (PSD) e inaugurado em 2024, sequer foi aberto ao público por Campanella, que alegou problemas para manter o equipamento, que custou R$ 12 milhões. A prefeitura resolveu transformar o local em uma unidade de atendimento médico geral, com estrutura mais robusta. Ao RD, Auricchio disse que o equipamento era viável e que o atual prefeito foi induzido ao erro. O ex-prefeito garante que o equipamento estaria pronto para funcionar no dia seguinte de sua inauguração, o que não ocorreu após a Enel, concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica, não ter realizado sua parte para o início do serviço, porém não considera que o entrevero com a Enel seja o principal problema. “A questão da Enel ficou como um pano de fundo. Aí colocaram que o custo do equipamento era exorbitante. Eu falei isso para o prefeito (Tite Campanella) também, eles induziram ele ao erro. Isso são burocratas, até colegas médicos, que ficam trancados em gabinete, que não têm acesso ao doente, não conversam com o doente, não sabe do que a cidade tem capacidade, e colocam lá no papel que custa tanto. O papel aceita tudo”, criticou.
Também este ano foi extinto definitivamente em junho deste ano o restaurante popular Nosso Prato, que já tinha sido fechado por Campanella no final do ano passado. Segundo a prefeitura, o programa apresentava alto custo de manutenção e baixa adesão do público para o qual foi criado. O restaurante oferecia café da manhã por R$ 0,50 e almoço por R$ 1. A administração municipal argumentou ainda que o equipamento gerava impactos no comércio e na segurança na região. O projeto de autoria de Tite Campanella foi aprovado com 16 votos favoráveis na Câmara.
Na área da segurança pública a menina dos olhos de São Caetano é o SmartSanca, sistema de monitoramento da cidade que usa a tecnologia como suporte para as forças de segurança na realização de prisões de procurados, busca por veículos roubados ou furtados além de flagrar crimes e acidentes. Tudo isso ajuda muito a polícia a manter os índices de criminalidade baixos na cidade. Porém a prefeitura está investindo R$ 20 milhões este ano na pasta de segurança, um terço do que investiu no ano passado; R$ 60 milhões.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
