Após dois anos de pandemia da covid-19 e diversos períodos de restrição maior ou menor para funcionamento, os bares voltam aos níveis de faturamento semelhantes ao que tinham antes da crise sanitária. Mas a maioria ainda tem um passado de dívidas, adquiridas nestes 24 meses, que os comerciantes lutam para saldar. Para o presidente do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC), Roberto Moreira, o setor só não aproveita mais esse momento da melhora de caixa, porque tem dívidas a pagar.
Moreira considera difícil e até impossível recuperar as perdas, e que o bom a se destacar é que o setor não tem demitido mais. Muitos já contratam. “Não temos os números dessa nova realidade, pois cada bar tem o seu perfil e situação financeira, mas é o que percebemos no segmento”, afirma.
Roberto Moreira diz que o bar teve de fazer uma série de mudanças para sobreviver à crise, como investimentos em algumas áreas que não eram o seu forte, como a cozinha. “O estabelecimento que antes fazia apenas petiscos para acompanhamento de bebidas, teve de aproveitar a cozinha e o seu pessoal para fazer pratos mais elaborados. Aqueles que mantiveram a qualidade dos seus pratos e investiram na cozinha continuaram vendendo por aplicativo. O pessoal é valente, tem se virado, se esmerou muito”, afirma.
Wagner Cândido, proprietário do Santo Rock Bar, em Santo André, casa mais voltada para o público que aprecia shows e bebidas, está mais otimista. “Ainda não chegou a 100%, mas tem melhorado, ainda não chegamos ao patamar de antes da pandemia”, conta. Cândido foi um de muitos empresários do setor que teve grandes prejuízos com as medidas de restrição de funcionamento, com dívidas que se acumularam, uma delas foi com o aluguel. O proprietário do imóvel não aceitou negociar a redução do aluguel e o Santo Rock deve de deixar a rua das Figueiras, no bairro Jardim, e foi para a avenida Firestone, 1340, no bairro Casa Branca. “Acabamos arriscando com um local maior”, comenta Cândido.
Mudança de comportamento
O presidente do Sehal diz que também houve mudança no comportamento do consumidor. Segundo Moreira, agora o cliente fica menos tempo nas baladas e também procura ambientes menos cheios e, se possível, com área ao ar livre. “As pessoas têm vontade de voltar à vida normal e se divertir, mas ainda há certos receios”, comenta. O dono do Santo Rock concorda, ao dizer que conhece pessoas que não vão ao seu bar porque têm receio de aglomeração e que preferem locais abertos.
Outro fator que afastou um pouco a clientela dos bares foi a alta nos preços verificada nestes dois anos. “O bar atinge quem tem dinheiro e quer sair, e também aquele que não tem tanto dinheiro, mas precisa desestressar; claro que o consumo destes públicos é diferente. Para mantermos o negócio precisamos subir os preços dos produtos, da mesma forma que subiram para nós”, diz Wagner Cândido.
O empresário do setor de bares, Milton Munhoz, teve de fechar um dos seus empreendimentos na pandemia. Munhoz é proprietário do Boteco Rabo de Saia, com unidades em Rudge Ramos, em São Bernardo (avenida Caminho do Mar, 2.937), e em São Caetano (avenida Kennedy, 751). São bares com clientela mista entre jovens, pessoas de meia idade e famílias e que servem porções e bebidas. Munhoz tinha outra casa noturna, com shows, na avenida Antártico, em São Bernardo, que fechou, mas que pretende reabrir o estabelecimento.
Munhoz diz que o movimento está melhor. “Os números surpreendem, estamos igual antes da pandemia, com 10% para mais”, diz o empresário que em vez de demitir aproveitou a equipe entre das duas casas que manteve abertas. “As dívidas ainda são um problema; eu tenho Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Micro Empresas e Empresas de Pequeno Porte), alguma coisa de empréstimo pessoal e o aluguel estou pagando 20% a mais até o final deste ano, por conta do período em que paguei menos, numa negociação com os proprietários”, explica.
O dono do Boteco Rabo de Saia é um entre centenas de empresários que tomaram empréstimos para bancar os negócios durante a pandemia, mas que já pensa em investir. “A saúde financeira da empresa é boa, agora que está se colocando tudo em ordem é uma boa hora para investir de novo, pegar um bar que fechou ou um imóvel vazio e investir. É uma hora boa para isso”, comenta.
Ômicron
O empresário Carlos Miranda, do Brasa Bar e do Liverpool, ambos na avenida Kennedy, no Jardim do Mar, em São Bernardo, confirma a mudança de comportamento dos clientes e diz que os bares melhoraram o movimento até a chegada, no final de 2021, da variante ômicron da covid-19. “Antes a pessoa que saia todo dia, agora não sai mais e isso também é um termômetro da economia”, diz. O comerciante prefere não olhar para trás e diz que o que foi perdido não se recupera; a luta é para pagar as dívidas que ficaram. “Acredito que, se tudo correr bem em dois anos tudo se normaliza”, aposta.
Segundo Miranda já é possível ver casa cheia nos finais de semana, mas muita gente prefere ficar na área mais aberta. O Brasa Bar tem 12 anos de funcionamento e o Liverpool, 30. O empresário não se lembra de uma crise tão séria no setor como esta. Apesar disso diz que o momento é positivo. “No começo tive que demitir a maioria do pessoal, agora já contratei novamente. Eu acho que o movimento vai continuar nessa batida, as pessoas saindo menos, mas voltando”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
