
O cachorro Javali, de 16 anos, poderia ser apenas mais um animal atropelado nas ruas do ABC. Na noite do último dia 4, ele foi atingido por um carro na rua Cláudio Maurício Maciotta, no Centro de Ribeirão Pires, e ficou gravemente ferido. Moradores que presenciaram o acidente anotaram a placa do veículo, identificaram a motorista, mas ela ainda não foi penalizada. Segundo testemunhas, ela teria dito que buscaria ajuda em uma clínica veterinária, mas não voltou ao local.
No final, quem ficou para socorrer o animal foram os moradores. Javali foi levado para atendimento veterinário, onde exames apontaram fraturas nas costelas, problemas hepáticos e anemia. A internação inicial custou R$ 2.749,80 e uma campanha foi criada para arrecadar dinheiro não só para manter o animal internado, mas para custear os medicamentos que tiveram que ser comprados nos dias seguintes de cuidado do pet. Depois, o cachorro passou pelo Departamento de Bem-Estar Animal de Ribeirão Pires e acabou acolhido pela ONG Ajudanimal, que assumiu a continuidade do tratamento.
A conta, porém, continuou. Segundo a presidente da entidade, Maria Cecília Bentini, os gastos assumidos pela ONG depois do resgate já ultrapassaram R$ 5 mil, e a prefeitura sequer apresentou proposta ou ajuda para o tratamento do animal.
O caso de Javali mostra uma contradição que se repete no ABC: enquanto as cidades mantêm serviços de fiscalização, castração, adoção e, em algumas casos, acolhimentos, são as ONGs e protetoras independentes que frequentemente assumem a etapa mais difícil do processo, que é retirar o animal da rua, conseguir atendimento completo, pagar tratamentos e encontrar espaço para mantê-lo seguro e acolhido.
“Percebemos que muitas pessoas ajudam no primeiro momento, quando o caso ganha visibilidade, mas depois esquecem que o animal continua precisando de tratamento, exames, medicamentos e cuidados. A partir daí, parece que ele passa a ser exclusivamente um problema nosso”, afirma a cuidadora Cecília.
A discussão ganhou ainda mais relevância após o Supremo Tribunal Federal (STF) reforçar o dever dos municípios de adotar medidas para proteger e oferecer acolhimento adequado a cães e gatos abandonados ou vítimas de maus-tratos. A decisão não determina que todas as cidades tenham obrigatoriamente um canil ou gatil próprio, mas estabelece que o poder público precisa oferecer uma resposta efetiva, inclusive podendo recorrer a parcerias com organizações da sociedade civil.
Na prática, entretanto, protetoras ouvidas pelo RD relatam uma rotina de falta de suporte por parte do poder público, de vagas, lar temporário para os pets, demora para atendimento, ausência de serviço público 24 horas e dívidas acumuladas em clínicas veterinárias que prestam suporte para o atendimento.
O que acontece quando um animal é encontrado na rua?
Em Ribeirão Pires, a Prefeitura afirma que a política de proteção e bem-estar animal vem sendo ampliada desde a criação do Departamento de Bem-Estar Animal, em 2021. Segundo a administração, mais de 30 mil atendimentos foram realizados desde então. A estrutura inclui um ambulatório destinado a procedimentos de pequena complexidade e atendimentos de urgência para animais comunitários ou em situação de vulnerabilidade.
Na avaliação de moradores e protetores, porém, ainda existem lacunas importantes na assistência aos animais em situação de emergência. Uma moradora que acompanhou o caso de Javali, e que prefere não ser identificada, questiona a capacidade da rede pública para responder a ocorrências fora do horário de funcionamento.
“O departamento até existe, mas do que adianta se não há leitos para internação, atendimento 24 horas, resgate emergencial, veterinários públicos? Nos casos que exigem atendimento de maior complexidade, os animais ficam à mercê da própria sorte e dependem de quem tem um bom coração para enxergá-los”, afirma.
Segundo ela, o caso de Javali mostrou justamente essa dificuldade. O cachorro foi atropelado durante a noite, quando o serviço municipal não estava em funcionamento. “Ele foi atropelado de noite e, se não fosse pelos vizinhos se solidarizarem, ele teria morrido ali”, relata.
A Prefeitura informa que os resgates e fiscalizações são realizados prioritariamente das 8h às 17h, mediante registro pelos canais oficiais, como o aplicativo Ribeirão Pires Digital. O município não possui serviço permanente de resgate nem atendimento hospitalar veterinário 24 horas.
De acordo com a administração, ocorrências registradas fora desse período são avaliadas conforme a gravidade do caso e a disponibilidade das equipes e dos veículos. Já os animais que necessitam de atendimento de maior complexidade são encaminhados a especialistas e instituições parceiras.
Em 2025, foram realizadas 716 fiscalizações de maus-tratos, 256 atendimentos veterinários de urgência, 163 adoções e 2.049 castrações. No primeiro semestre de 2026, foram 106 fiscalizações, 99 atendimentos de urgência, 61 adoções e 954 castrações. Atualmente, 125 animais estão sob responsabilidade direta da administração municipal.
Sobre a decisão do STF, a administração afirma que o modelo adotado em Ribeirão Pires está em consonância com a legislação e com o entendimento da Corte. O município ressalta ainda que não considera obrigatória a manutenção de um canil ou gatil público centralizado e aponta parcerias com entidades do terceiro setor, instituições de ensino e protetores independentes como parte da estratégia.
Para Cecília, entretanto, a estrutura disponível não resolve a etapa do acolhimento. “Ribeirão Pires não oferece acolhimento”, afirma. Para se ter ideia, a Ajudanimal mantém atualmente cerca de 235 cães e 50 gatos acolhidos. A entidade foi fundada oficialmente em Ribeirão Pires em 2008, depois de Cecília atuar durante anos como protetora independente.
Em entrevista ao RD, ela conta ter chegado na cidade em 2004, com mais de 70 animais sob seus cuidados. Hoje, a realidade é outra: a ONG está lotada e evita assumir novos casos justamente porque faltam recursos para manter os animais que já estão no abrigo. “Neste mês, por exemplo, resgatamos dois cães vítimas de atropelamento, casos graves que não poderiam ficar sem atendimento e que exigiram muitos cuidados e recursos”, conta.
Mais de R$ 25 mil em dívidas
A falta de dinheiro, segundo ela, afeta todas as etapas do trabalho. “Dificuldades? Todas!”, diz. A organização acumula mais de R$ 25 mil em dívidas com clínica veterinária, além de enfrentar dificuldades para pagar colaboradores e realizar reformas. “Estamos sempre no vermelho”, afirma.
Segundo Cecília, a ONG não recebe verba ou apoio financeiro da Prefeitura de Ribeirão Pires. A entidade recebe auxílio pontual em castrações e em situações envolvendo captura de animais peçonhentos, mas depende principalmente de doações e apadrinhamentos.

Quando o resgate vira dívida
A situação descrita pela Ajudanimal também aparece na rotina do Abrigo Anjos de Patinhas. Danielle Alarcon Gimenez Shiga, responsável pela entidade, entrou na causa animal em 2020, depois de enfrentar o tratamento de duas gatas diagnosticadas com PIF. Durante a campanha para salvar os animais, conheceu pessoas que já atuavam na proteção e passou a participar dos resgates.
Hoje, são 58 animais sob seus cuidados, 54 gatos e quatro cachorros. Os pedidos de ajuda, segundo Danielle, chegam constantemente, mas a capacidade de acolhimento é limitada e nem todos os casos podem ser assumidos. “Pedido de ajuda, resgate chegam toda hora, porém não temos condições e estrutura para resgatar todos”, afirma.
Os casos mais frequentes, de acordo com a protetora, envolvem abandono, maus-tratos e animais doentes. Quando a rede pública não consegue absorver a demanda, a alternativa costuma ser recorrer a clínicas particulares que oferecem valores mais acessíveis. Ainda assim, os gastos acabam superando as doações recebidas. “Vamos carregando dívidas nas clínicas, cartão de crédito para poder manter os 58 animais”, relata.
O custo de cada resgate, segundo ela, também é imprevisível, já que a gravidade do quadro só costuma ser conhecida após exames e avaliação veterinária. “Um simples resgate pode virar uma dívida de R$ 10 mil. Nunca sabemos ao certo o que está acontecendo com aquele animal”, afirma.
Além do dinheiro, faltam espaço e voluntários. Depois que um animal é retirado da rua, começa uma rotina que envolve transporte para consultas e exames, acompanhamento de cirurgias, administração de medicamentos, alimentação e limpeza do espaço. Para Danielle, cada novo resgate significa assumir uma responsabilidade que pode se estender por semanas ou meses, muitas vezes sem saber de onde virão os recursos para mantê-lo.
Quando não há vaga, a solução costuma ser buscar lares temporários, que muitas vezes também são pagos.
A protetora também critica a eficácia dos serviços públicos. “Os hospitais públicos são lotados, com 30, 40 senhas sendo que se tem 300 pessoas numa fila. Se não conseguiu hoje, volte amanhã, se for urgente, pague”. Ainda de acordo com a protetora, há casos em que exames demoram semanas e filas de castração chegam a meses. “Se você quiser um atendimento rápido para se salvar um animal com emergência, se paga. Se não, muito provavelmente esse animal não conseguirá sobreviver”, afirma.
Santo André tem hospital veterinário e espaço para adoção
Em Santo André, a estrutura pública é mais ampla, porém também não funciona 24h. O município mantém um Centro de Adoção de Cães e Gatos dentro do Hospital Veterinário Municipal, com capacidade para 30 cães e 20 gatos. Já animais atropelados sem tutor e aqueles vítimas de maus-tratos são atendidos pelo Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal e encaminhados ao espaço, que também conta com internação.
Segundo a Prefeitura, o orçamento destinado à proteção e ao bem-estar animal é de aproximadamente R$ 10 milhões. Entre as iniciativas está o programa Moeda Pet, que oferece ração, vacinação antirrábica e facilita o acesso à castração.
Alternativas fora da cidade
Na ponta dessa estrutura, porém, protetoras relatam que ainda precisam buscar alternativas fora do município. Aline Funari, que atua na proteção animal há cerca de 20 anos em Santo André e Mauá, mantém atualmente dois cães de resgate e sete gatos. O número de animais que chegam varia: “Tem meses que chegam 20 ou 6 ou 10, depende”, conta.
A protetora aponta a falta de atendimento veterinário emergencial gratuito, resgate, espaço e políticas públicas como alguns dos principais problemas. Na prática, também depende de terceiros para transporte, lares e vagas em eventos de adoção.
Embora seja moradora de Santo André, Aline afirma que já recorreu à estrutura de Mauá para conseguir ajuda. “Apesar de eu ser munícipe de Santo André, quem geralmente me ajuda com vagas nos eventos foi o gestor do Bem-Estar Animal de Mauá”, relata. Ela também já procurou o Hospital Veterinário de Santo André, mas avalia que a estrutura não dá conta de toda a demanda.
Quando um animal permanece por meses sem adoção, os custos aumentam, principalmente com medicamentos e internações. “Já fizemos vaquinha para internações e custear medicamentos e para ajudar outras pessoas que ajudam também”, afirma.
Abandono e maus-tratos estão entre as principais causas da demanda de proteção animal. “Muita gente acha que ter um bichinho é pegar e, quando cansam, abandonam, ou não castram, ou se apoderam para ter lucro com venda de filhotes”, afirma.
Diadema aposta em prevenção
Em Diadema, a política municipal está concentrada principalmente em prevenção, fiscalização e controle populacional. A Prefeitura está em processo de cadastramento de ONGs e protetores independentes para conhecer as entidades que atuam na cidade e avaliar possíveis parcerias. O orçamento atual é de R$ 820 mil, com previsão de aumento de 50% no próximo ano.
As denúncias de maus-tratos são encaminhadas à fiscalização ambiental, que pode advertir o responsável e determinar a correção de situações como falta de alimentação, água, higiene, atendimento veterinário ou condições adequadas de abrigo. Em caso de reincidência, a multa prevista é de 100 UFDs, equivalente a R$ 561 em 2026, além das demais sanções.
Sobre o entendimento do STF, a Prefeitura informou que a abrangência e as consequências da decisão ainda estão em estudo.
O que muda com a decisão do STF?
A decisão do Supremo Tribunal Federal reforça que os municípios têm responsabilidade constitucional pela proteção de animais abandonados ou vítimas de maus-tratos. Isso não significa, necessariamente, que todas as cidades sejam obrigadas a manter um canil ou gatil próprio. A estrutura pode ser organizada de outras formas, inclusive por meio de parcerias com ONGs e organizações da sociedade civil.
O ponto central é outro: o município precisa oferecer uma resposta adequada à situação, e no ABC, essa resposta varia. Ribeirão Pires tem ambulatório e atendimento de urgência, mas não mantém leitos próprios de internação; Santo André conta com hospital veterinário, internação e espaço de adoção; e Diadema concentra sua atuação em fiscalização, vacinação, castração e prevenção, além dos animais mantidos na UVZ.
Há, no entanto, um ponto em comum: nenhuma das três cidades mantém uma estrutura municipal permanente de resgate e atendimento veterinário 24 horas.
Sobrecarga
As prefeituras reconhecem o papel de ONGs e protetores. Santo André os classifica como “excelentes parceiros”; Ribeirão Pires inclui entidades do terceiro setor e protetores independentes em sua estratégia; e Diadema trabalha para mapear essa rede e estudar novas parcerias.
Para quem está na ponta, porém, a parceria não pode significar que a responsabilidade pelo animal simplesmente mude de mãos. “Sem ajuda, fica difícil acolher mais animais e oferecer tudo o que precisam”, resume Cecília, da Ajudanimal, que mantém cerca de 285 animais entre cães e gatos.
Dani, do Abrigo Anjos de Patinhas, resume o mesmo problema de outra forma: “A demanda é sempre maior do que a estrutura”. Aline também aponta a necessidade de ampliar atendimento, resgate, vacinação e políticas públicas.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
