
Por Leonardo Garcia
Durante décadas, quando se pensava na nutricionista dentro de uma empresa, a primeira imagem que vinha era a de uma profissional responsável pelo cardápio. Calculava quantidades, acompanhava a produção, supervisionava a qualidade, cuidava da segurança alimentar e garantia que a refeição chegasse corretamente aos pratos dos colaboradores. Essas tarefas seguem sendo fundamentais. Mas, talvez, essa definição tenha ficado pequena demais. Cada vez mais próxima dos trabalhadores, a nutricionista corporativa começa a ocupar um espaço que vai muito além da cozinha e passa a se tornar figura bem relevante na estratégia de pessoas das empresas. Vivemos uma importante transformação.
No cenário atual, essa profissional já se posiciona como quem influencia uma das principais experiências diárias do colaborador. Afinal, o momento da refeição é, para muitos, o principal — e às vezes o único — ponto de descompressão, socialização e recarga de energia dentro de uma planta industrial ou de um centro de escritórios.
Em um momento em que as empresas discutem saúde, qualidade de vida, retenção de talentos e experiência do colaborador, preocupações que impactam positiva ou negativamente a produtividade, a nutricionista começa a ocupar um espaço cada vez mais transversal, conectado a áreas como Recursos Humanos, saúde corporativa, ESG (Environmental, Social, and Governance) e experiência do colaborador.
Essa transformação, contudo, ainda dá seus primeiros passos. O mundo corporativo ainda não percebeu completamente o tamanho do papel desempenhado pela nutricionista. Para isso, é preciso aprofundar o entendimento de que uma refeição é muito mais do que uma refeição.
Pense na rotina de alguém que passa oito ou nove horas por dia dentro de uma empresa. Em algum momento, essa pessoa paralisa suas atividades laborais para comer. A refeição pode parecer apenas uma pausa operacional. Mas também é uma experiência de cuidado.
A qualidade dos ingredientes da refeição diz alguma coisa. A variedade, idem, assim como a atenção às restrições alimentares e a própria possibilidade de fazer escolhas. Por tudo isso, a alimentação corporativa não deveria ser analisada apenas pela ótica do custo por refeição. Ela também faz parte da experiência que uma empresa oferece às pessoas. E é justamente aí que a nutricionista ganha uma dimensão diferente.
Vale destacar que o Conselho Federal de Nutrição (CFN) reconhece a alimentação coletiva em empresas e instituições como uma área de atuação profissional do nutricionista. Na prática, isso envolve planejamento, qualidade, segurança dos alimentos, processos e promoção da alimentação adequada. Ainda assim, boa parte desse trabalho continua invisível.
O colaborador vê o prato. O financeiro vê o custo. A operação vê o processo. A nutricionista precisa olhar para tudo isso ao mesmo tempo, ao equilibrar qualidade nutricional, segurança, preferências, cultura regional, disponibilidade de ingredientes, orçamento, aceitação, desperdício e execução. É uma equação muito mais complexa do que simplesmente “elaborar um cardápio”.
Diante dessa necessária transformação, há uma questão que deve ser feita: se as empresas já entenderam que saúde, bem-estar e experiência do colaborador são temas estratégicos, por que a profissional que acompanha diariamente uma das necessidades mais básicas dessas pessoas ainda é frequentemente tratada apenas como parte da operação de alimentação?
A pergunta não significa transformar a nutricionista em uma profissional de RH. Significa reconhecer que alimentação, comportamento, saúde e experiência estão conectadas. Essa mudança já começa a aparecer no mercado.
Na Consuma, onde mais de 200 nutricionistas atuam diariamente em diferentes operações corporativas, essa transformação aparece de forma bastante concreta. O trabalho dessas profissionais está cada vez menos restrito à elaboração de cardápios e mais conectado à experiência do consumidor, à redução de desperdícios, à personalização da alimentação e à leitura dos hábitos de quem está do outro lado do balcão.
Essa presença no campo permite observar uma mudança importante: o consumidor corporativo está mais informado, mais exigente e mais interessado em saber o que está colocando no prato. A consequência é que o trabalho da nutricionista também muda. Ela precisa entender não apenas de nutrição, mas de comportamento, experiência, operação e, cada vez mais, de dados.
Há, ainda, outro aspecto pouco explorado. As empresas gastam milhões em comunicação interna para falar de saúde e bem-estar. Criam campanhas, newsletters, palestras e programas. Mas existe um canal que está diante do colaborador todos os dias: o restaurante corporativo. Enquanto uma palestra dura uma hora, uma campanha pode durar uma semana, a alimentação acontece todos os dias.
Cada refeição pode ser uma oportunidade de apresentar novos alimentos, incentivar escolhas mais equilibradas, reduzir desperdícios e construir uma cultura diferente em torno da comida. A relação não é só mais da cozinha para fora, como também de fora para a cozinha, com maior relação entre empresas e alimentação. A nutricionista, então, deixa de ser apenas responsável pelo que é servido e pode se tornar uma agente de mudança de comportamento no universo corporativo.
Durante muito tempo, a principal pergunta foi: “Quanto custa a refeição?”
Talvez a pergunta agora precise ser: “Que valor essa refeição entrega para as pessoas e para a organização?”, cuja resposta é centrada na atuação do nutricionista.
No dia 31 de agosto, quando celebramos o Dia do Nutricionista, vale olhar para essa profissão para além da cozinha. Porque a nutricionista do futuro não será apenas a profissional que olha para o que vai ao prato. Será cada vez mais a profissional que ajuda as empresas a entenderem as pessoas que estão sentadas à mesa. Empresários que já vivem essa percepção saem na frente e compreendem que a próxima grande transformação do RH não esteja em uma nova plataforma ou em um novo benefício; talvez ela esteja acontecendo todos os dias, na hora do almoço.

Leonardo Garcia é presidente da Consuma Gastronomia
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
