
Estudo publicado pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) aponta que, apesar do país ser um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, ainda enfrenta índices preocupantes de fome e insegurança alimentar. Assinada pelo professor Rogério Lopes, mestre em Administração com Ênfase em Gestão de Negócios, e pela estudante de Publicidade e Propaganda, Ana Julia Azambuja dos Santos, a nota técnica faz parte da 33ª Carta de Conjuntura da USCS e mostra que mais da metade da população brasileira enfrenta algum grau de insegurança alimentar, realidade que se reflete em regiões urbanizadas e economicamente desenvolvidas, como o ABC, onde 52% de um grupo de 25 entrevistados da região já enfrentaram falta de alimentos.
Apontadas pelo estudo como uma solução para a insegurança alimentar as iniciativas de hortas comunitárias vêm ganhando destaque no ABC como alternativa de produção sustentável e geração de renda. Organizadas por associações e famílias agricultoras, essas hortas ocupam áreas antes ociosas e produzem alimentos e temperos destinados ao consumo local. Além de ampliar o acesso a alimentos frescos e de baixo custo, o modelo fortalece a segurança alimentar, cria oportunidades de trabalho e promove inclusão social.
A nota técnica afirma que programas públicos como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Pronaf ( Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) também desempenham papel fundamental no combate à fome e no incentivo à agricultura familiar, mas ainda enfrentam desafios relacionados a orçamento, logística e acesso ao crédito. Estudos na região indicam que preços elevados, transporte não eficiente e falta de informação dificultam o pleno acesso da população aos alimentos.
Em estudo prático sobre o tema, os autores realizaram entrevistas com 25 pessoas do ABC (moradores de Santo André, São Bernardo e São Caetano), com perfil predominante entre 26 e 60 anos (68%) e renda familiar de até 3 salários-mínimos (76%)
A pesquisa apresenta os resultados das entrevistas. Quanto ao consumo de refeições diárias e falta de alimentos, se observa que 72% consomem três refeições diárias, mas 52% já enfrentam falta de alimentos. Quanto aos preços 92% notam aumento moderado ou significativo.
“No contexto do ABC, essas desigualdades se manifestam de maneira particular, com uma população urbana significativa enfrentando desafios de acesso a alimentos frescos e nutritivos. No entanto, a experiência das hortas comunitárias sob torres de energia, a atuação da agricultura familiar urbana e a integração com programas como PNAE, PAA e Pronaf demonstram que soluções regionais adaptadas ao contexto local podem gerar impactos concretos. Tais iniciativas fortalecem a segurança alimentar, promovem inclusão social, incentivam práticas sustentáveis e aproximam produtores e consumidores, mesmo em áreas densamente urbanizadas”, afirmam os autores da nota técnica.
Citando estudo do IBGE de 2023, a nota técnica aponta que o ABC reflete uma realidade nacional. A desigualdade social não é um problema exclusivo do ABC mas sim do Brasil, onde 32,4% da população vive em situação de pobreza e a extrema pobreza é significativamente impactada sem programas sociais. “E para combater os problemas urbanos o estado de São Paulo registrou um aumento significativo no número de contratos e no valor investido pelo Pronaf, com 13.127 contratos e R$ 893,6 milhões investidos, representando um crescimento de 12,64% contratos e 16,15% aa safra 2023/2024 em relação a safra de 2022/2023″, diz o estudo.
Rogério Lopes e Ana Julia Azambuja dos Santos concluem dizendo que o país tem potencial para ser referência no combate à insegurança alimentar. “O Brasil, aliado a exemplos concretos como os observados no ABC , possui potencial para se tornar referência global em produção alimentar sustentável. O sucesso depende, contudo, do compromisso contínuo do poder público, da sociedade civil e dos próprios agricultores em implementar políticas integradas e inovadoras, capazes de transformar a segurança alimentar em realidade para todos.”
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
