Uma profissional de enfermagem foi agredida neste sábado (26/9) na UPA Perimetral, na Vila Assunção, em Santo André. A ocorrência teve início após uma paciente, que recebeu atendimento e medicação, pedir um atestado médico, que não foi concedido. O caso é mais um episódio de violência contra trabalhadores da saúde registrado na cidade nas últimas semanas.
De acordo com Eugênio Dantas, conselheiro do Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo), a paciente apresentou comportamento agressivo durante a permanência na unidade e, após a negativa do atestado, houve novo desentendimento. No momento em que a equipe retirava a punção, a paciente arrancou o dispositivo e, na sequência, partiu para cima da profissional, com empurrões e agressões verbais. A Guarda Civil Municipal (GCM) foi acionada e levou a profissional ao 2º Distrito Policial de Santo André.

Segundo Dantas, não houve necessidade de exame de corpo de delito, pois a agressão não deixou lesões aparentes, como escoriações ou hematomas. No distrito policial, a profissional de saúde recebeu orientação para registrar a ocorrência de forma online devido ao volume de atendimentos. Abalada, a vítima preferiu retornar para casa.
O conselheiro afirma que representantes do Coren-SP estiveram na unidade após o episódio para conversar com os profissionais. Conta que a equipe também se reuniu com Diego Cabral, secretário de Saúde de Santo André, que, segundo Dantas, pretende adotar medidas de proteção. As UPAs Bangu e Vila Luzita já contam com presença da GCM por 24 horas, e o Conselho defende a adoção de medida semelhante na Perimetral.
Em nota, a Prefeitura confirma o episódio e afirma que a Secretaria de Saúde prestou acolhimento à profissional. Segundo a administração, a paciente teria solicitado um atestado médico após o atendimento, mas o documento não cabia à ocasião e foi negado. Ao deixar o consultório, a paciente teria esbarrado em uma técnica de enfermagem e a agredido. A administração diz ainda que os atendimentos nas unidades de urgência e emergência seguem critérios técnicos e assistenciais, e declara que avalia e aprimora as medidas de proteção nas unidades sempre que necessário.
Cobrança por mais segurança
Dantas afirma que além do reforço da segurança nas unidades, Santo André precisa discutir medidas que aumentem a proteção dos profissionais e também responsabilizem quem pratica agressões. O Coren defende a criação de uma legislação municipal semelhante à adotada em São Bernardo, que prevê multa administrativa para quem agride profissionais de saúde dentro do ambiente de trabalho.
“Em São Bernardo existe uma lei que atribui uma multa administrativa para quem agredir um profissional de saúde no seu ambiente de trabalho. A multa começa em cerca de R$ 4,8 mil e pode chegar a R$ 10 mil. Quando o cidadão entende que vai mexer no bolso ao agredir um profissional, seja de forma verbal ou física, ele pensa duas vezes antes de cometer a agressão”, afirma Dantas.
Segundo o conselheiro, a discussão também precisa envolver formas de acolhimento aos trabalhadores após episódios de violência e ações de conscientização da população. Para Dantas, algumas alternativas levantadas durante conversas com a Secretaria de Saúde não seriam adequadas para a realidade brasileira, como medidas de contenção física ou a preparação dos profissionais para defesa por meio de artes marciais. “Precisamos tomar cuidado para que uma medida de proteção não acabe por induzir uma nova situação de violência. Também foram discutidas possibilidades de registro automático da imagem de quem entra na unidade, mas é preciso avaliar com cautela questões relacionadas à LGPD”, explica.
Dantas afirma que o caminho mais efetivo passa por uma medida legal que estabeleça consequências para quem agride trabalhadores da Saúde. “Se Santo André tiver uma lei municipal como existe em São Bernardo, acredito que a sociedade vai pensar duas vezes antes de partir para esse tipo de atitude que tem ocorrido com frequência na região”, completa.
Histórico recente
A ocorrência deste sábado se soma a outros casos registrados em Santo André nas últimas semanas. No dia 31 de agosto, o enfermeiro David Alves Neves, de 41 anos, registrou ocorrência no 6º Distrito Policial após relatar agressões físicas e verbais na UPA Vila Luzita. Dois dias depois, em 2 de setembro, a enfermeira Jucilene Santos de Carvalho relatou ter sido agredida por um casal no Reabilita, no bairro Campestre. O caso também foi levado ao 6º DP.
Já no dia 15 de setembro, dois profissionais de enfermagem e uma médica foram alvo de agressões na UPA Jardim Santo André. Uma enfermeira de 43 anos sofreu ferimento na cabeça e registrou boletim de ocorrência. Na quinta-feira (24/09), outra ocorrência foi registrada na UPA Vila Luzita. Uma técnica de enfermagem e um médico foram agredidos durante um atendimento, segundo informações divulgadas pelo Coren-SP. O agressor e as vítimas foram levados pela GCM ao 6º Distrito Policial.
Com o novo episódio na UPA Perimetral, o Coren-SP reforça a cobrança por medidas de segurança e prevenção da violência contra os trabalhadores da saúde. Para Dantas, a repetição dos casos demonstra que a proteção das equipes precisa sair do campo das discussões e resultar em ações concretas dentro das unidades.
Levantamento mostra dimensão da violência
O cenário de Santo André ocorre em meio a um quadro mais amplo de violência contra profissionais da enfermagem. Uma sondagem realizada pelo Coren-SP entre 20 e 24 de julho de 2026 reuniu 4.402 enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Do total, 72,6% afirmaram ter sofrido algum tipo de violência no último ano. O percentual, apesar de ainda elevado, representa queda de 7,7 pontos percentuais em relação a 2025, quando chegou a 80,3%. Entre os profissionais que relataram agressões, a violência verbal aparece em primeiro lugar, com 89,2%, seguida pela psicológica, com 73,8%, e a violência física foi citada por 19,2% dos participantes.
Os pacientes aparecem como principais autores das agressões, com 68,1% das respostas, seguidos por familiares de pacientes, com 59,6%, e acompanhantes, com 50,7%. A demora no atendimento foi apontada como principal motivo para os conflitos, com 63,9%, seguida por problemas relacionados à estrutura das instituições, com 55,1%, e insatisfação com a assistência, com 45,8%.
Outro dado que a chama atenção é que apenas 30,1% dos profissionais que sofreram violência afirmaram ter feito algum tipo de denúncia. Entre os motivos para não denunciar estão a sensação de impunidade, citada por 59,5%, a falta de apoio da instituição, com 54,5%, e o receio de perder o emprego, com 42,7%.
Entre os que fizeram denúncia, 65,2% disseram que não houve resultado, enquanto 52,2% afirmaram que não se sentiram acolhidos. Apenas 5,7% relataram que o agressor foi punido.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
