A socióloga Ivone Santana, companheira de Celso Daniel quando ele foi morto em 2002, revelou nesta quarta-feira (18) durante entrevista à Rádio ABC que não teve acesso à íntegra do processo judicial que apura o assassinato do ex-prefeito de Santo André. Segundo ela, desde a morte do petista até um ano atrás, só os irmãos dele podiam falar em nome dele, e por isso, tinham acesso detalhado à investigação.
“Eu não conheço todo processo judicial porque até um ano atrás quem falava em nome do Celso era o Bruno Daniel. Nós não sabemos se alguma coisa em relação às pessoas que foram presas podia ter sido feita. De um ano pra cá, a Liora, reconhecidamente, é a pessoa que fala em nome do Celso”, disse.
Liora é a filha de Celso Daniel. Em agosto de 2002, Ivone entrou na Justiça com um pedido de reconhecimento de paternidade. Na ocasião, ela anexou no processo o resultado de exame de DNA feito com um fio de cabelo do prefeito, que teria conhecimento da paternidade, encontrado em um dos pertences (bolsa) dela.
Recentemente, a paternidade foi, finalmente, reconhecida pelos irmãos de Daniel. Cientificamente incontestável, a ligação paternal não pode mais ser postergada pelos irmãos. O fato exemplifica o relacionamento inexistente entre Ivone e os dois irmãos de Celso.“O processo ficou sem andar durante nove anos porque a família não se prontificou a fazer o DNA. Então é essa relação que nós temos, a qual não foi estabelecida por nós”.
Ivone afirma que com o reconhecimento da paternidade de Liora – única herdeira de Celso – ela e a filha irão protagonizar iniciativas que eternizem os pensamentos e ideais do petista.“A partir de agora que nós temos oportunidade de fazer, nós vamos fazer coisas que correspondam às idéias dele. Algumas pessoas podem dizer que nós não fizemos nada, mas nós respeitamos os princípios dele e agimos como imaginamos que ele gostaria que nós tivéssemos agido. Isso eu falo em meu nome e em nome da minha filha”.
Segundo informações dos bastidores, mesmo sem o vínculo no papel, Ivone e Celso Daniel tinham um relacionamento sólido e até, segundo fontes, pretendiam se casar. Embora nutrissem o relacionamento afetivo, moravam em residências distintas.
Ações
Em dezembro, Ivone e Liora cederam todo acervo intelectual de Celso Daniel ao Consórcio Intermunicipal do Grande ABC (que fora idealizado por ele no início da década de 90). Nesta sexta (20), a partir das 19h, ocorrerá o ato em homenagem aos 10 anos da morte do ex-prefeito. O evento, que ocorrerá na Fundação do ABC, é organizado pelas duas. A solenidade contará com a presença de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula. Devido ao tratamento de um câncer na laringe, o ex-chefe da Nação não deverá comparecer.
Morte
A morte de Celso Daniel completará dez anos à espera de desfecho na Justiça. Ao longo da década, o crime ganhou enredo de novela policial. Sete pessoas ligadas ao caso, entre testemunhas e acusados de participação no crime, morreram neste período.
Prefeito de Santo André pela terceira vez, Celso Daniel foi encontrado morto numa estrada de terra em Juquitiba (SP), alvejado por oito tiros, após dois dias de sequestro. Ele era o escolhido para coordenar a campanha que levaria o ex-presidente Lula ao poder.
O caso já foi reaberto duas vezes, investigado pelo Ministério Público, pela Polícia Civil e até pela CPI dos Bingos, em Brasília. O nome do prefeito batizou ginásio, parque e praça, mas o crime permanece sem veredicto.
A investigação também marcou um dos mais duros embates entre Promotoria, advogados e o PT. Para o Ministério Público, Daniel foi vítima de crime de mando, encomendado pelo amigo e ex-segurança Sérgio Gomes da Silva. Eles estavam juntos quando o petista foi sequestrado, na saída de um restaurante em São Paulo. Os promotores sustentam que Daniel teria descoberto um esquema de corrupção na prefeitura para financiar campanhas do PT e que o sequestro teria sido simulado.
A tese vai na contramão das conclusões da polícia, que defende a versão de que houve crime comum. O PT acusa os promotores de tentarem politizar a morte. Dos oito acusados pelo Ministério Público, somente Marcos Bispo dos Santos foi julgado e condenado, em 2010, a 18 anos de prisão. O julgamento de Gomes da Silva, em júri popular previsto para este ano, é o mais aguardado pela Promotoria.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
