
Após fugir do Brasil para Miami, nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência da República, divulgou na quarta-feira (28/10), uma carta de agradecimento aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos EUA, Donald Trump. Em tom golpista, o senador se declarou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Foi a primeira vez que ele se manifestou após deixar o País.
Flávio, sua mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal saíram do Brasil de carro na terça-feira (27). No fim da noite, cruzaram a fronteira com a Argentina, embarcaram em um jato particular no Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú e desembarcaram nesta quarta-feira (28) na cidade do Estado da Flórida (EUA), pouco depois das 10h30, no horário de Brasília.
O senador usou seu passaporte italiano para entrar na Argentina e seu passaporte diplomático para ingressar nos EUA. A PF havia cancelado os documentos brasileiros, que não poderiam ter sido usados. A aeronave fez uma escala no Equador para abastecimento.
Já em território americano e sem apresentar provas, o senador chamou o resultado do segundo turno da eleição brasileira de “fraude eleitoral”.
A carta de Flávio foi rebatida em nota pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques. Segundo o ministro, as eleições do último domingo ocorreram “dentro da mais absoluta normalidade” e foram “as mais inclusivas da história da República brasileira”. O magistrado disse ainda que “todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos”.
Considerado um potencial nome da centro-direita para a eleição presidencial de 2030, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), discordou da manifestação do candidato derrotado. O governador, reeleito no primeiro turno, afirmou nesta quarta-feira (28) que entende o sentimento de indignação de Flávio, mas disse a reportagem que a eleição acabou e é preciso respeitar o resultado das urnas e seguir em frente.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, afirmou o governador.
‘Brazil’
A carta de Flávio, divulgada por apoiadores e pelo próprio senador, tinha até a noite desta quarta-feira (28) três versões. A primeira tem um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com o nome do País escrito em inglês e a data de 15 de novembro de 1889. O emblema remonta à Proclamação da República e vigorou até 1968.
O texto foi enviado pelo blogueiro Paulo Figueiredo. Quinze minutos após distribuir o conteúdo, o influenciador divulgou uma nova versão, com o brasão atualizado e o nome correto do País. Numa terceira versão editada, publicada no X às 17h51, o senador trocou a expressão “verdadeiro presidente eleito” por “líder” do Brasil.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão”, escreveu o senador nas duas primeiras versões da carta.
Questionado nesta quarta-feira (28), Trump disse que não faria comentários sobre o caso.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado no último domingo no segundo turno da eleição presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, ante 48,22% de Flávio — uma diferença de 4,4 milhões de votos.
A vitória de Lula foi reconhecida pela Justiça Eleitoral e pelos partidos com representação no Congresso, incluindo o PL do próprio senador. O vice de Flávio na chapa derrotada, deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), também atestou o resultado das urnas.
Prorrogação
Na carta com teor golpista, Flávio caracterizou como “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” a prorrogação em duas horas do horário de votação, definida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin. Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio pediram a prorrogação do horário de votação do segundo turno. O senador disse que a decisão acrescentou 10 milhões de votos a Lula.
Segundo o TSE, foram 34.393 votos após as 17h até as 19h. O número é menor que os 40 mil registrados em 2022, quando não houve prorrogação. Os dados consideram as 497.333 seções eleitorais que tiveram o encerramento registrado depois das 17h.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, prosseguiu Flávio na carta.
O candidato derrotado se comparou no texto a políticos de esquerda e de direita que partiram para o exílio. Entre os nomes estão o advogado e diplomata Rui Barbosa, o ex-presidente Floriano Peixoto, o líder francês Charles de Gaulle, o mártir da independência de Cuba, José Martí, e os opositores ao chavismo na Venezuela Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2025.
Sem citar o nome do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o senador o acusou de “sequestrar” seus passaportes. A PF pediu a suspensão dos documentos no domingo, sete minutos após o resultado do segundo turno. Moraes acatou. A ordem, descumprida por Flávio, foi emitida em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro do senador com o advogado Willer Tomaz.
A corporação encontrou registros de e-mail em que o presidenciável derrotado é citado como operador de uma conta no exterior vinculada ao advogado, o que poderia gerar risco de fuga e uso de recursos no exterior. De acordo com a PF, Willer deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos após passar a ser investigado.
A PF citou “risco concreto de evasão” do senador e destacou que a medida se justificava pelo “precedente concreto” do advogado, amigo do senador. A corporação, porém, afirmou em nota divulgada nesta quarta-feira (28) que o senador não pode ser considerado foragido da Justiça e que o descumprimento da ordem para entrega dos passaportes não autorizava sua prisão nem a adoção de medidas como vigilância permanente.
‘Surpreendidos’
O advogado Tracy Reinaldet, que atua na defesa de Flávio, afirmou que foi pego de surpresa com a fuga dele para os Estados Unidos. Segundo o defensor, em uma reunião entre o senador, a equipe jurídica e aliados, na segunda-feira (26), havia ficado combinado que ele entregaria seus passaportes à PF. “Todos da reunião foram surpreendidos com a notícia de que ele teria deixado o País”, disse Reinaldet, em entrevista à CNN.
Os registros migratórios do governo da Argentina mostram que o senador usou um passaporte italiano para entrar no país vizinho e deixou o aeroporto de Puerto Iguazú às 23h52 da terça-feira (27).
A reportagem teve acesso ao último registro de saída de Flávio do país vizinho. Durante a madrugada, o governo argentino divulgou uma nota que informava que o senador havia ingressado à noite no país pela fronteira terrestre com o Brasil, acompanhado de sua família, e embarcado em um voo. O governo se limitou a dizer que ele usou um documento de viagem legal.
Um dia depois de perder a eleição para Lula, Flávio gravou um vídeo no qual afirmou que não sairia do País e que entregaria o passaporte à PF.
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