Para Nilton Tristão, cientista político e diretor do Instituto Opinião Pesquisa e da GovNet S/A. o resultado do segundo turno das eleições que deu ao presidente Lula (PT) o quarto mandato depois de uma derrota parcial no primeiro turno, será inspiração para outros países buscarem o equilíbrio de forças políticas diante do avanço da direita nos últimos anos. Para ele, a campanha petista no primeiro turno foi falha por seguir de uma forma mais tradicional e a diferença veio no segundo turno com maior engajamento em redes sociais e mobilizações populares espontâneas.
“No primeiro turno o PT teve uma estratégia equivocada quando se colocou como mote da campanha a vitória no primeiro turno. A intenção era desmobilizar o outro lado só que o que acabou acontecendo é que aquela parte da sociedade, que poderia estar na rua lutando pela vitória do Lula, acabou ficando inerte, pensando porque brigar com sogro, vizinho ou cunhado se a eleição está ganha no primeiro turno. O que aconteceu a gente já sabe; Flávio Bolsonaro termina dois pontos na frente, dois milhões de votos, e todo mundo fica chocado. No segundo turno a impáfia, a soberba, pulou o balcão e foi para o outro lado; aí o Flávio começou a falar de ministério, de mudança na Constituição, a que seria ministra dizendo que ia mandar embora milhares de funcionários públicos e substituir por IA, que iam por o Pablo Marçal como ministro, que ia indicar quatro ministros do STF e tirar dois”, analisa o cientista político.

Para Tristão a campanha foi assumida pela militância, principalmente por jovens de diversos segmentos, sem a articulação direta do marketing da campanha e isso fez a diferença. “Diversas tribos, diversos segmentos, cada um com a sua pauta, baseados na manutenção das existências dessas tribos, começaram a colocar seus perfis e seus canais a serviço da campanha, e uma coisa que foi fundamental, o (André) Janones (Rede), com o Exército do Lula, que bateu quase 11 milhões de pessoas. A grande importância foi criar método, ele dava missões e todo esse contingente sabia o que ser feito e fiz, isso foi algo inédito no mundo. Nunca houve uma campanha desse jeito, onde a estrutura oficial foi colocada de lado, a sociedade assumiu e foi para cima. Já o Flávio tinha campanha estruturada, na lacração da rede social, mas um modelo de direita que estava pronta para combater aquela estrutura do Lula no primeiro turno e, de repente, ele vê um caminhão passando por cima deles e não souberam o que fazer. Eles foram completamente aniquilados diante de um movimento orgânico da sociedade. O Flávio começou a assumir o discurso da esquerda porque não sabia mais o que fazer, mas aí já era tarde demais”.
Segundo o cientista político esse modelo abriu uma brecha numa onda de partidos de ultra direita que passaram a comandar a América do Sul e Europa. “Esse modelo brasileiro vai se tornar tendência para o mundo todo. Porque até então a sensação que as pessoas tinham, é que essa onda de direita era irrefreável, que não dava para parar; passou na Colômbia, pegou no Peru, Chile, Argentina, e agora seria o Brasil. O que passamos para o mundo é a ideia de que eles não são invencíveis, que dá para contê-los. O presidente do Chile tem 15% de aprovação. O Javier Milei não sobrevive a uma eleição presidencial na Argentina e outros terão problemas”.
O modelo de campanha digital terá que ser revisto, segundo o especialista. “Investir mais na comunicação digital acho que é uma tendência, é prudente, mas o que a gente tem que discutir é o formato. Se gastou demais na campanha eleitoral com o tráfego pago. Porque funcionou para uns e não para outros? Porque ele é apenas o carteiro, se não tiver compartilhamento, se não tiver interação, não vai para frente. Os algoritmos continuam achando que aquele tema não era relevante, e não adianta nada, acho que a esquerda está aprendendo isso aí”, interpreta o especialista.
Bolsonaros
Para o cientista político e diretor do Instituto Opinião Pesquisa e da GovNet S/A, o resultado das eleições 2026 podem iniciar a fragmentação da família Bolsonaro por falta de um herdeiro do espólio político com capacidade de voltar ao centro da política nacional. “O futuro do Flávio, ou é fazer companhia para o pai ou para o irmão. O pai continuará preso, o irmão fazendo aquelas coisas nos EUA. Sobra a Michele no Senado, que pode, em breve não ser mais uma Bolsonaro, e o Renan que tem problemas cognitivos sérios, vamos admitir, que pensar não é o forte dele. O (governador de São Paulo) Tarcísio (de Freitas) é uma figura que pode ocupar esse espaço, de quem vai substituir a família que na próxima eleição não vai ter força para por um nome. Esse campo da direita, Cleitinho (governador eleito de Minas Gerais), Tarcísio e até mesmo uma Michele não Bolsonaro vão disputar um espaço de substituição em que talvez a gente encontre uma direita um pouco mais racional. Mais civilizada que tenha uma visão mais moderna e democrática da sociedade”, analisa.
“A verdade é que muita gente está doente, de verdade, parte da sociedade se tornou esquizofrênica com transtorno dissociativo severo, vendo seres imaginários, de todos os tipos que a gente pode pensar. A gente pode até ter a promoção da cura dessas pessoas, optando por algo mais normal, porque o que o Bolsonarismo fez foi exigir que elas fossem para um mundo além da realidade. Essas pessoas precisam passar por um processo de desopilação”, continua o cientista político.
Virada no ABC mostra que prefeitos não convenceram eleitores, diz analista
O presidente Lula consolidou votos no ABC, mesmo nas cidades onde perdeu conseguiu aumentar o número de votos acima do que conquistou Flávio Bolsonaro. Lula conseguiu 872.653 votos, 26,24% a mais que no primeiro turno, e Flávio 759.758 crescendo 12,18%. Para Nilton Tristão, o resultado favorável ao petista está mais ligado ao maior comparecimento às urnas do que a conversão de votos. “Acho que não teve tanta virada de votos, mas as pessoas que não votaram no primeiro turno e vieram para votar no segundo escolheram o nome dele (Lula) majoritariamente. Isso não foi só aqui, foi no mundo”, aponta.
Diadema
Em Diadema os votos de Lula representaram 61% das urnas e a cidade foi a que teve mais votos válidos para o petista na Grande São Paulo. O prefeito Taka Yamauchi (MDB) embarcou na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), mas não conseguiu um resultado melhor para seu apoiado. Os votos do PT cresceram 24% na cidade no segundo turno. Para o analista político isso não prejudica politicamente o prefeito, mas assinala espaço deixado para a oposição a ele crescer. “Acho que isso não inviabiliza a reeleição dele, pois vai ter que responder pelo que ele fez na cidade, mas acho que o Lula olhando isso aí ele pode pensar que precisa retomar Diadema. Abre um espaço”.
Mauá
Administrada pelo PT, Mauá teve um bom engajamento também na campanha petista, onde os votos para Lula cresceram 27,61%. Também para Tristão, o voto na esquerda é mais característico da cidade e não só ao prefeito Marcelo Oliveira. “Mauá colocou um grupo forte para trabalhar para uma cidade onde já era tendência votarem nele”, aponta.
Ribeirão Pires
Em Ribeirão Pires, onde houve uma virada importante com a inversão de posições entre os candidatos à presidência da República entre o primeiro e segundo turnos, Tristão avalia que isso pode indicar um desgaste do grupo político que comanda a cidade. Flávio Bolsonaro que vendeu no primeiro turno na cidade com mais de 30 mil votos teve um acréscimo de 11,82% no segundo turno, já Lula que teve 26,5 mil votos na primeira fase da eleição cresceu 28,42% e liderou o segundo turno.
“Mais uma derrota para a família Volpi. Eles aderiram à campanha de corpo e alma e acho que acabaram até prejudicando porque o (ex-prefeito) Clóvis não tem uma tradição de direita, ele foi do PV, do PSDB, e sempre esteve no campo da Esquerda para o Centro e quando adere a outra ideologia, que me parece que não é sua história natural, isso trouxe consequências. Governo ainda é mal avaliado, uma figura política que teve a pior votação para deputado da sua história. Por isso mesmo não tendo uma do PT perderam mesmo assim. Isso demonstra um enfraquecimento gigantesco da família Volpi em Ribeirão Pires”, aponta o analista político.
Rio Grande da Serra
A aparente neutralidade do prefeito Akira Auriani (PSB) em relação à eleição presidencial, mas seu apoio direto pela reeleição de Tarcísio de Freitas para o governo paulista, pavimentou um caminho em que abre possibilidade de diálogo com os dois lados. “Ele apoiou Tarcísio mas o a urna deu três vezes mais votos para o Lula, eu acho que o Akira construiu pontes dos dois lados”, diz Tristão.
Lula venceu na cidade no segundo turno com 15.250 votos ampliando a preferência do eleitorado em 25,78%. Flávio teve 11.040 votos, 8,68% a mais que no primeiro turno, sendo este o menor crescimento do liberal nas sete cidades da região.
Santo André
A dupla formada pelo prefeito andreense Gilvan Ferreira (Cidadania) e o ex-prefeito, agora deputado federal eleito Paulo Serra Gilvan apoiaram Flávio Bolsonaro, e o PT não ganhou na cidade, porém diminuiu a diferença em um colégio eleitoral numeroso. Para Nilton Tristão pode vir um desgaste político desse resultado.
No segundo turno o candidato do PL venceu em Santo André com 219 mil votos, 12,35% a mais que no primeiro turno, o petista teve 216,5 mil, 27,23% a mais.
“O PT diminuiu bastante a diferença. Temos o Gilvan e o Paulinho Serra nesse apoio ao Flávio. O resultado acende luz amarela, de que o eleitor não efetivamente segue as suas lideranças. Se tirar quem vota no Flávio de qualquer jeito, eles perderam feio. Coloca esse projeto hegemônico em stand-by e um futuro opositor pode crescer, não precisa ser nem do PT, pode ser um conjunto de alianças de oposição”, analisa.
São Bernardo
Pela história de berço do petismo, pelas greves históricas dos metalúrgicos que levaram o sindicalismo a fundar o próprio partido, São Bernardo está mais inclinado a Lula que a Flávio. O envolvimento do prefeito, pouco mudaria o perfil do eleitorado, segundo aponta Nilton Tristão.
O prefeito Marcelo Lima (Podemos) se preservou na segunda etapa. Lula que já tinha vencido no primeiro turno na cidade consolidou essa dianteira com 268 mil votos no domingo (25/10) e crescimento de 24,91% dos votos sobre o primeiro turno. Flávio ficou com 216,7 mil sufrágios, crescimento de 12,62%.
“São Bernardo é um caso a parte, tem história, berço político, local do primeiro grande comício, onde tem o sindicato dos metalúrgicos e onde o presidente mora e tem história com a cidade. A cidade tem essência lulística’, interpreta o cientista político.
São Caetano
Apesar do crescimento de 28,10% nos votos entre o primeiro e o segundo turnos Lula ainda ficou 20 mil votos atrás de Flávio, porém, para o professor da UFABC o apoio do prefeito Tite Campanella (Republicanos) ao candidato da direita não evitou o crescimento do PT. Para Tristão, os 50 mil votos de Lula na cidade mais conservadora do ABC em termos políticos, mostra que há um crescimento da oposição que Tite deve observar.
“Acho que o prefeito Tite Campanella (PL) ajudou nesse resultado para o Flávio. Ele teve um primeiro turno tão ruim que demitiu toda a equipe de comunicação dele, o que eu acho eles não foram culpados. O que salta aos olhos é a quantidade de gente que votou para o Lula em São Caetano, isso me parece que é o crescimento de um sentimento de oposição que o prefeito Tite vai ter dificuldade em lidar nos próximos dois anos. Pode ser que surja um candidato, não necessariamente de esquerda, que amplie saúde pública e programas sociais, que agrade esse grupo dos 50 mil votos”, aponta.
Para cientista político, último mandato de Lula tende a ser mais ousado
“Lula vai ter que fazer um governo de coalisão maior, só que ele está com 80 anos de idade, será seu último mandato e ele tem condição de ser mais ousado, tenho impressão que vamos ter um Lula mais disposto a avançar em determinadas direções do que teria normalmente”, aponta o diretor do Instituto Opinião Pesquisa e da GovNet S/A..
“Esse mandato marca o fim da carreira dele, marcando seu legado e seu nome na história. Eu acho que esse mandato pode ser surpreendente, na medida que temos um presidente que está indo para a aposentadoria, que tem uma preocupação gigantesca com a sua história e que vai ter a capacidade de ousar em algum sentido. Tenho convicção de que vão acontecer coisas muito diferentes no Brasil neste último mandato do Lula”. completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
