
O relato do influenciador Felca sobre a própria experiência com o Transtorno de Ansiedade Social (TAS) reacendeu o debate sobre saúde mental e os efeitos da exposição nas redes sociais. Especialistas explicam como o transtorno afeta situações cotidianas, quais sinais merecem atenção e como ajudar alguém durante uma crise.
Também conhecida como fobia social, a condição é caracterizada por medo ou ansiedade intensos em situações nas quais a pessoa pode ser observada, avaliada ou julgada por outras pessoas. Entre os exemplos estão falar em público, conhecer pessoas novas ou pedir ajuda, segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH).
O psiquiatra Rafael Brandes, da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), explica que o transtorno de ansiedade social faz parte de um grupo de condições que inclui o transtorno do pânico, o transtorno de ansiedade generalizada e diferentes fobias.
“Existem vários tipos de transtornos de ansiedade. No transtorno do pânico, a pessoa tem crises de ansiedade sem motivo aparente. No transtorno de ansiedade generalizada, há preocupações excessivas que afetam a qualidade de vida. Já as fobias envolvem medo intenso de determinadas situações, como altura, lugares fechados ou exposição social, que caracteriza a fobia social ou o transtorno de ansiedade social”, afirma.
Segundo a psicóloga Marinês Santos de Oliveira, professora de Psicologia do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), situações aparentemente simples podem provocar reações intensas em pessoas com TAS.
“Situações, às vezes, simples do cotidiano ocasionam no sujeito todo um conjunto de sinais, que ele paralisa, ele rompe com o mundo e ele se isola, como foi o caso que ele [Felca] trouxe, que ele está isolado muitas vezes”, explica.
Repercussão após vídeo de Felca
O tema ganhou repercussão após Felca publicar, na segunda-feira (19), um vídeo no YouTube em que relatou sua experiência com a fobia social. O influenciador havia passado cerca de um ano sem publicar conteúdo nas redes sociais, e parte do público esperava que ele se posicionasse sobre as eleições deste ano. Após a publicação, o vídeo recebeu críticas, enquanto outras pessoas alertaram para os possíveis efeitos dos comentários sobre a saúde mental do criador de conteúdo.
Brandes explica que o medo de avaliação negativa é um dos fatores centrais da ansiedade social. A pessoa pode acreditar que será rejeitada, humilhada ou considerada incapaz durante uma interação, o que aumenta a ansiedade e pode levar à esquiva de situações sociais.
“O paciente tem uma ansiedade grande diante de uma situação social, quando se sente observado ou avaliado. Geralmente, pensa que o julgamento dos outros é negativo, que as pessoas o consideram estranho ou acham que o que ele diz não é válido ou importante. Esse pensamento pode acompanhar uma crise ou até levar a pessoa a evitar determinado lugar”, afirma.
O psiquiatra também destaca que a repercussão negativa de um conteúdo pode agravar a insegurança de quem já enfrenta esse tipo de dificuldade.
Segundo ele, Felca já havia recebido reconhecimento por um vídeo sobre adultização, tema que ganhou grande repercussão e motivou discussões e medidas relacionadas à proteção de crianças e adolescentes. Para Brandes, críticas posteriores podem intensificar a sensação de que o trabalho realizado não tem valor.
“Ele está justamente achando que as coisas que faz não são interessantes, não são boas, não são úteis para as pessoas. E aí, de repente, tem uma avalanche: ‘Ah, porque ele não se posiciona politicamente’. Isso pode deixá-lo, com certeza, mais ansioso e preocupado”, avalia.

Gatilhos e sinais de alerta
Os fatores que desencadeiam ou intensificam a ansiedade variam de pessoa para pessoa, ressalta Marinês. O consumo excessivo de café e outros estimulantes, o uso de álcool e o tempo excessivo diante das telas podem contribuir para o agravamento dos sintomas.
A psicóloga também chama atenção para as comparações nas redes sociais, que frequentemente apresentam versões idealizadas da vida, dos relacionamentos e da aparência física.
“Cada vez mais, a gente está tentando alcançar um lugar em que se expõe demasiadamente uma vida perfeita, um corpo perfeito, relações perfeitas que só estão dentro do celular, porque a vida aqui fora tem outro contexto de realidade”, afirma.
Entre os sinais que merecem atenção estão o isolamento social, a perda de interesse por atividades habituais e a dificuldade de manter a rotina. A pessoa pode deixar de trabalhar, frequentar a igreja, ir à academia ou participar de situações que antes faziam parte do cotidiano.
Marinês ressalta que sentir nervosismo antes de uma entrevista de emprego, viagem ou palestra pode ser uma reação normal. O alerta ocorre quando a ansiedade persiste após a situação ou começa a prejudicar a rotina e as relações sociais. Nesses casos, a recomendação é procurar ajuda profissional.
Tratamento e acompanhamento
O tratamento pode incluir psicoterapia e, quando necessário, medicamentos prescritos por um profissional de saúde. Brandes destaca a terapia cognitivo-comportamental (TCC) como uma das abordagens com maior evidência científica para o tratamento da ansiedade social.
A terapia ajuda o paciente a reconhecer comportamentos de esquiva e a compreender por que evita determinadas situações. O acompanhamento também pode trabalhar estratégias para enfrentar gradualmente as interações sociais que provocam ansiedade.
“Além do medicamento, a psicoterapia é fundamental. A linha que tem as maiores evidências científicas é a terapia cognitivo-comportamental para ansiedade social. Ela ajuda o paciente a perceber a esquiva: ‘Por que eu deixei de sair? Por que, quando tem um grupo de pessoas, eu não consigo falar?’. Assim, trabalha os comportamentos para tentar se expor um pouco mais”, explica o psiquiatra.
Como ajudar durante uma crise?
Durante uma crise de ansiedade, Brandes recomenda ouvir a pessoa sem minimizar o que ela está sentindo. É importante permitir que ela expresse seus medos e oferecer apoio enquanto os sintomas diminuem.
“Tem que deixar a pessoa falar o que está sentindo. Às vezes, ela vai dizer que está se sentindo muito mal porque os outros estão achando que ela não é uma pessoa legal, que é tola ou que as coisas que fala não são inteligentes. A primeira coisa é acalmar”, orienta.
Se a pessoa já tiver medicação prescrita para essas situações, deve seguir as orientações médicas. Em casos de sintomas intensos ou quando houver dúvida sobre a gravidade do quadro, é importante buscar atendimento de saúde. Em uma emergência, pode-se acionar o Samu pelo telefone 192.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
