Levantamento feito pelo RD mostra que o ABC chegou a mais de 19,5 mil reclamações sobre perturbação sonora este ano, uma diferença de 348 casos a mais quando comparado a 2025, em que os números totalizaram 19.215 registros. As queixas envolvem som alto em residências e estabelecimentos comerciais, veículos com equipamentos sonoros e aglomerações em vias públicas.
Além do incômodo à vizinhança, o excesso de ruído compromete o descanso e a qualidade de vida dos moradores, com reflexos sobre a saúde física e mental.

A exposição frequente ao barulho pode prejudicar o sono, a memória, a concentração e a audição, e nesse cenário, a biomédica Renata Ruggier de Mattos, professora do Centro Universitário Fundação Santo André, alerta para os riscos à saúde.
“Um barulho constante, barulho pontual, pode interferir negativamente, a médio e longo prazo na saúde”, afirma. Os efeitos variam conforme a intensidade do som e o tempo de exposição, com consequências que podem surgir no curto prazo ou após meses e anos.
Reclamações e fiscalização nas cidades
São Bernardo concentra o maior número entre os registros municipais informados, com 9.767 denúncias ou ocorrências em 2026, ante 6.199 ao longo de 2025, alta de 57,6%. As principais queixas envolvem som alto, aglomerações de pessoas e bloqueio de ruas e calçadas. No ano passado, Rudge Ramos, Parque Terra Nova e Batistini tiveram mais reclamações. Em 2026, Assunção, Dos Casa, Jardim Nascimento e Paulicéia aparecem entre os bairros com maior incidência. Para combater o problema, a Prefeitura mantém a Operação Dorme Bem.
Em Santo André, o Serviço Municipal de Saneamento Ambiental (Semasa) registrou 5.435 ordens de serviço relacionadas à poluição sonora entre janeiro e 31 de agosto de 2026. No mesmo período, foram aplicadas 256 advertências e emitidos 353 autos de infração ambiental. Em 2025, a autarquia contabilizou 6.833 ordens de serviço.
O Semasa fiscaliza ruídos de fontes fixas, como comércios, indústrias, obras, templos religiosos e clínicas veterinárias, mas não atende reclamações de barulho em residências nem de vozes e algazarra. Jardim Santo André e Centro concentram mais ocorrências, sobretudo por som amplificado em bares e adegas à noite. As multas variam de 150 a 300 Fatores Monetários Padrão (FMP). Em caso de reincidência, o estabelecimento pode ter as atividades suspensas ou os equipamentos apreendidos.
Em Diadema, a Guarda Civil Municipal (GCM) recebeu 4.233 denúncias em 2026, ante 6.070 ao longo de 2025. As queixas envolvem principalmente residências e estabelecimentos comerciais, sobretudo bares, além de som automotivo e veículos com emissão sonora irregular. Casa Grande, Eldorado e Taboão estão entre os bairros com maior incidência. Neste ano, a GCM aplicou 462 multas e recolheu veículos e equipamentos, em 2025, foram 727 multas. As penalidades variam de 100 a 2 mil Unidades Fiscais de Diadema (UFDs), o equivalente a R$ 561 a R$ 11.220 em 2026, além de possíveis despesas com remoção e permanência de veículos ou equipamentos em pátio.
Rio Grande da Serra registrou 66 ocorrências de perturbação sonora em 2026, ante 58 em todo o ano passado, alta de 13,8%. Santa Teresa, Vila Figueiredo e Recanto das Flores estão entre os bairros com mais queixas, relacionadas sobretudo a bares, adegas e residências. A legislação municipal estabelece até as 22h o horário de funcionamento de bares e adegas e prevê sanções para atividades após esse limite, caso haja perturbação do sossego. Para veículos com som excessivamente alto, a fiscalização segue o artigo 228 do Código de Trânsito Brasileiro, que prevê infração grave, multa e medidas administrativas.
Ribeirão Pires amplia notificações
Em Ribeirão Pires, as regiões do Parque Aliança, Jardim Caçula, Ouro Fino e Centro estão entre os locais com mais queixas, relacionadas a barulho em áreas residenciais e veículos estacionados em vias públicas com som em volume elevado. Nas fiscalizações de bares e adegas, o município registrou 30 notificações, 19 paralisações de som e seis paralisações totais de atividades em 2025. Em 2026, foram 41 notificações, 15 paralisações de som e seis paralisações totais. A soma desses procedimentos passou de 55 para 62 registros, alta de 12,7%. Os números correspondem às medidas adotadas durante as fiscalizações, não ao total de denúncias ou ocorrências.
Ruído prejudica sono e saúde
Renata explica que o ruído noturno interfere no equilíbrio hormonal necessário ao descanso. A melatonina prepara o organismo para dormir, enquanto o cortisol, associado à atividade e à resposta ao estresse, deve cair à noite. Com a perda de qualidade do sono, essa redução pode não ocorrer como esperado, o que mantém o corpo em estado de alerta.
A professora destaca o papel do sono profundo na consolidação da memória e na recuperação do organismo. “Toda memória, todos os eventos que aconteceram nas horas em que estivemos acordados, são fixados durante esses períodos de ondas mais profundas do sistema nervoso central”, comenta. A interrupção desse processo pode afetar a concentração, a atenção e a capacidade de memorizar informações. No curto prazo, a exposição ao barulho pode provocar irritabilidade, falta de concentração, dificuldade para acordar e menor capacidade para cumprir tarefas cotidianas. Com a persistência do problema, surge ou se agravam quadros de ansiedade, estresse e sintomas depressivos. A privação parcial do sono por meses também pode agravar condições psiquiátricas.
A especialista ressalta a importância de um ambiente de descanso com pouca luminosidade, temperatura adequada e baixo nível de ruído. “Quanto menor for o som ambiente, menores ruídos externos, principalmente ruídos persistentes, isso também interfere na qualidade do sono nas camadas mais profundas do descanso”, explica. A audição também corre riscos, pois ruídos intensos, sons agudos e exposição prolongada ao barulho podem provocar lesões no sistema auditivo e perda auditiva ao longo do tempo. Renata cita estudos com trabalhadores da construção civil, expostos a níveis elevados de ruído por anos, que identificam perdas importantes da capacidade auditiva.
Embora o organismo tenha mecanismos de adaptação, a professora alerta que essa capacidade tem limites. “O corpo humano tem um mecanismo incrível de adaptação, mas isso tem um limite, não dá pra exceder”, afirma. A redução do ruído excessivo é importante para preservar o sossego da vizinhança e evitar prejuízos ao sono, à saúde mental e à audição.
Canais para denúncias
As denúncias de perturbação do sossego podem ser feitas pelo telefone 190 da Polícia Militar e pelo 153 da Guarda Civil Municipal (GCM). Além desses canais, as prefeituras disponibilizam alternativas próprias para o registro de reclamações e solicitações de fiscalização. Além do 153, São Bernardo conta com o aplicativo Palma da Mão, enquanto Diadema tem o telefone 4043-6330.
Rio Grande da Serra conta com atendimento da Secretaria de Segurança Urbana, Trânsito e Defesa Civil pelo telefone (11) 2770-0162, da Ouvidoria Municipal pelo (11) 2770-0212, da Secretaria de Finanças pelo (11) 2770-0158 e da Guarda Civil Municipal pelo telefone de emergência (11) 4826-8008.
Em Santo André, as reclamações podem ser registradas pelo site www.semasa.sp.gov.br, pelos telefones 0800-4848115 e 4433-9300, pelo aplicativo Colab ou pelo WhatsApp 4433-9011, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Em Mauá, os moradores podem acionar o Centro de Controle Operacional pelo telefone (11) 4512-7675.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
