
Com a inadimplência em alta no ABC, e com alguma participação do vício em jogos on-line neste cenário, a notícia de que o governo federal proíbe a atividade das casas de apostas on-line, as chamadas BETs, é bem recebida por especialistas da área médica e econômica, ainda mais com a notícia de que a medida provisória deve conter também a criação de cursos de educação financeira, para evitar endividamento. Dados de julho deste ano levantados pela CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano, mostravam que a inadimplência tinha subido 8% no ABC considerando o período de 12 meses. E boa parte deste endividamento pode estar ligado às BETs, segundo análise do setor.
O presidente Lula assinou a medida provisória durante evento em São Paulo nesta sexta-feira (25/09). Durante o evento o ministro da Saúde, Alexandre Padilha apresentou números de estudo feito sobre as BETs pelo Governo Federal e que embasaram a medida provisória. “Os números que expressam o tamanho do problema, mas não expressam o drama das pessoas e familiares, mais do que a atividade econômica a BET é algo que entra nas casas das pessoas, nas escolas e afeta não só quem entra na compulsão. São mais de 1,3 milhão de brasileiras e brasileiros que realizaram a autoexclusão e quase um terço desse número aconteceu durante a Copa do Mundo pela profusão de publicidade e mensagens de estímulo para as apostas eletrônicas. 51% deles declararam uma relação direta com seus problemas de saúde e 35% afirmam ter perdido o controle. Esse é um mal em que as pessoas não só perdem o dinheiro elas perdem o controle sobre a sua própria vida, sobre seu próprio tempo. sobre o contato e convívio com a família, com a escola e local de trabalho”, destacou o ministro.
Padilha também apresentou dados que mostram que a mortalidade por suicídio para quem é dependente do jogo é 15 vezes maior e esse número aumenta 150% entre os jogadores on-line. Os danos associados ao jogo geram custo anual de R$ 38 bilhões anuais e de 2018 a 2025 os atendimentos do SUS para o jogo patológico cresceram 140%.
O presidente Lula disse que a medida visa salvar a vida de milhares de brasileiros e garantir a segurança econômica de milhares de famílias. “Tem gente devendo na BET com quatro cartões de crédito do mesmo banco, virou uma jogatina sem controle. Um pequeno empresário chegou a uma dívida de R$ 2,5 milhões, vendeu o comércio dele, as coisas do pai e mentiu para todo mundo até que tomou consciência e está se tratando. Esse rapaz fez 1.300 PIX para a mesma plataforma. Uma moça que tinha uma loja no interior de Minas Gerais deve R$ 630 mil, que jamais vai poder pagar, ou seja, a sociedade ficou desprotegida”, disse após assinar a medida provisória.

“Esse país que era contra cassino, contra briga de galo trouxe o cassino para dentro de casa, e ele está com o aposentado, tá com uma criança de 13/14 anos que pega o cartão do pai. Conversei com mulher que tentou se matar três vezes. Então tomei a decisão, não dá, não é brincadeira, é um problema sério que está afetando pessoas pobres que jogam para ver se conseguem comprar o pão no dia seguinte. É como um câncer, ou a gente tira o tumor, ou ele vai matar a gente. A gente está tentando livrar o povo desse país de se matar por conta de uma perspectiva de ganhar na loteria”, completou Lula.
Pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas. que aponta que o país já alcança a marca de 50 milhões de apostadores nas capitais (um salto de 10,5 milhões de pessoas em relação a 2025). O estudo detalha o perfil, os hábitos e os impactos financeiros e sociais dessa modalidade de consumo que atinge 36% dos consumidores digitais brasileiros.
O levantamento mostra que cerca de 23% dos apostadores admitem ter investido valores que comprometeram sua renda ou seu bem-estar financeiro. O impacto no consumo diário é direto: 43% dos apostadores relatam que já abriram mão de algum item de consumo, como internet (15%), contas básicas de água, luz e telefone (13%), passeios em família (12%), vestuário (12%) e alimentação fora de casa (12%), para destinar dinheiro aos jogos. A gravidade da situação financeira reflete-se na inadimplência: 25% dos entrevistados afirmam que já deixaram de pagar alguma conta para apostar, e 24% já tiveram o nome negativado por causa de gastos com jogos online. Destes, 11% continuam com o nome sujo. Para piorar o cenário, 28% dos apostadores admitiram ter recorrido ou considerado ações extremas para conseguir recursos para o jogo, como pegar dinheiro emprestado (12%), vender bens próprios ou da família sem consentimento (8%) ou utilizar cartões de terceiros sem autorização (8%).
Para o presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano, Alexandre Damasio, que há tempos vem batendo nesta tecla do vício em BETs e da necessidade de educação financeira, a medida cai como uma luva, apesar de ter sido anunciada em meio à uma campanha eleitoral. “Parece que o Lula lê o RD e a nossa briga há algum tempo sobre aas BETs e a educação financeira. Pode ser ruim do jeito que foi feita, em meio a uma campanha eleitoral, mas põe uma lupa sobre o assunto e diz que não quer isso indo de encontro ao que muitas instituições, como a CDL vêm dizendo”, comemora.
Para Damasio investimento de R$ 160 bilhões das BETs no país não vai ser entregue fácil e ele prevê uma briga jurídica e política. “Como cooptaram os esportes, as outorgas e as propagandas em geral, vai dar briga”, prevê. As empresas do setor de jogos on-line já se organizam; o presidente do IBJR (Instituto Brasileiro do Jogo Responsável), Carlos Lima, disse, nesta sexta-feira (25/09) que as empresas vão cobrar o valor das outorgas pagas e os investimentos feitos.
O país tem 84 BETs licenciadas, que tiveram uma receita bruta de R$ 20 bilhões somente no primeiro semestre deste ano. As BETs foram autorizadas em 2018, no governo Michel Temer, e regulamentadas em 2023 já no governo Lula.
“Todos os setores da sociedade sentiam como as BETs faziam mal. A gente não tem como aferir isso porém podemos dizer que 27% da inadimplência decorre da falta de dinheiro que a BET leva. Nos últimos três anos o tíquete médio da inadimplência nas contas de água e luz aumentou e isso é reflexo do público das classes D e E que colocou R$ 30 na BET, portanto, para o varejo o fim da BET será ótimo e já poderemos sentir o efeito disso nas vendas da Black Friday e no Natal”, diz o presidente da CDL sancaetanense que tem percebido que os pequenos comércios tem sofrido mais porque as pessoas vão aos mercados e às padarias com menos dinheiro.
Para Danilo Baltieri, psiquiatra do Centro Universitário FMABC os primeiros sinais que demonstram que o uso das BETs deixa de ser recreativo para se tornar um vício aparecem quando o comportamento de apostar se torna persistente e gera prejuízo clinicamente significativo.
Transtorno do jogo
Segundo o médico, entre os indicadores iniciais mais frequentes estão a preocupação constante com apostas (planejar a próxima jogada, reviver resultados anteriores ou pensar no jogo mesmo em momentos inadequados), a necessidade de apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma excitação, a irritabilidade ou inquietação quando se tenta reduzir ou interromper as apostas (sintomas de abstinência), tentativas repetidas e malsucedidas de controlar o comportamento, o uso do jogo como escape de emoções negativas, o “perseguir perdas” aumentando apostas após prejuízos na tentativa de recuperá-los, mentiras para familiares e amigos sobre o envolvimento e o comprometimento de relacionamentos, trabalho ou estudos. Esses critérios, estabelecidos por manuais diagnósticos, quando presentes, devem caracterizar o transtorno do jogo e diferenciar o uso recreativo do patológico”, detalha.
O psiquiatra diz que, em relação à dependência, o vício em jogo online compartilha mecanismos neurobiológicos centrais com a dependência química de álcool e de outras drogas, como a ativação do sistema de recompensa, alterações na tomada de decisão e perda de controle, mas apresenta particularidades estruturais que o tornam potencialmente mais intenso.
“A disponibilidade 24 horas por dia, anonimato, velocidade das apostas e depósitos, ausência de pausas naturais e facilidade de acesso por dispositivos móveis (smartphones). Em comparação com jogos presenciais, essas características elevam o risco de progressão rápida para o transtorno do jogo”, explica Baltieri. O transtorno do jogo é reconhecido nos códigos CID-11 (6C50.0) e tem sido cada vez mais acolhido na rede de atenção psicossocial, especialmente nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Dados recentes mostram crescimento expressivo dos registros de atendimento relacionados ao jogo patológico no SUS, com aumento de mais de 200% nos CAPS entre 2021 e 2024, o que confirma que a rede pública já incorpora essa demanda, ainda que a capacidade e a especialização possam variar regionalmente”, diz o médico
O especialista da FMABC diz que o perfil do jogador on-line é de homens jovens, entre 18 e 40 anos, pessoas com estresse psicológico elevado, depressão ou ansiedade, usuários de álcool ou de outras substâncias durante o jogo e indivíduos com menor renda. O psiquiatra diz que, diante dos problemas econômicos causados pelo jogo, a família deve ser envolvida no processo terapêutico. “Familiares frequentemente são os primeiros a identificar mudanças de comportamento, dificuldades financeiras e alterações de humor, e seu apoio empático, sem julgamento e sem ‘salvar’ financeiramente o jogador, aumenta as chances de adesão e manutenção da recuperação. Sessões de orientação familiar ajudam a fortalecer a rede de suporte e a reduzir a negação. Embora o teleatendimento do SUS seja predominantemente individual, ele não exclui a possibilidade de incluir familiares em momentos específicos”, aponta.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
