
Dados do Mapa das Empresas do Governo Federal apontam que entre entre janeiro e julho de 2023 foram abertas 38.173 empresas nas sete cidades da região e no mesmo período de 2026 foram 56.283, alta de 47,44%. Porém, o comparativo dos dois períodos também mostra que o volume de fechamentos cresceu praticamente na mesma medida. Em sete meses de 2023 foram 20.863 empresas fechadas e neste ano 30.770, alta de 47,5%. O levantamento mostra que, nos primeiros sete meses deste ano e 2023, para cada duas empresas abertas uma se encerra.
Para entidades patronais ouvidas pelo RD, a maior parte dos encerramentos de CNPJs (Cadastros Nacionais de Pessoas Jurídicas) atinge pequenas empresas ou aquelas de um único trabalhador e as razões variam entre falta de preparo para empreender e falta de acesso a crédito.
De acordo com o Mapa das Empresas, a razão entre abertura e fechamento de empresas em 2023 era de 54,6% e em 2026 de 54,7%, ou seja, apesar de mais empresas o percentual de “mortalidade” continua igual em relação às aberturas.
Para Beto Moreira, presidente do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do ABC), é preciso saber administrar e conhecer o ramo em quer se quer empreender, para evitar a morte precoce da empresa. Na opinião de Moreira, empreender exige cada vez mais preparo, planejamento e conhecimento da atividade, principalmente diante dos custos e das dificuldades enfrentadas pelas empresas.
Carga tributária e preparo
“O setor precisa de empresários preparados, que conheçam o negócio, controlem custos e estejam atentos às mudanças no comportamento do consumidor. Ao mesmo tempo, é preciso criar condições para que o empreendedor consiga trabalhar, porque a carga tributária, os custos e a burocracia acabam pesando muito sobre quem quer abrir ou manter uma empresa. O nosso papel é justamente representar esses empresários e buscar condições que deem mais segurança para que eles possam investir, gerar empregos e continuar movimentando a economia da região”, afirma.
Valter Moura Júnior, presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo do Campo), considera também que a carga tributária é fator que surpreende quem acaba de começar um negócio, além disso, diz, qualquer negócio precisa considerar o comércio eletrônico, como aderir ou concorrer com o e-commerce, com atendimento diferenciado na venda presencial.
“O ambiente para empreender no Brasil ainda é pouco favorável, principalmente pela elevada carga tributária, pelos juros altos e pelas mudanças no comportamento do consumidor”, diz Moura Junior. Para o dirigente, o País ainda desestimula muito o empreendedorismo. Os impostos elevados e os juros altos dificultam a abertura de empresas, reduzem a capacidade de investimento e, muitas vezes, tornam o negócio inviável.
Considerar o comércio eletrônico
“Além disso, estamos vivendo uma transformação no consumo, com o crescimento do comércio eletrônico e a redução das lojas físicas em vários segmentos. Nesse cenário, o pequeno empresário ainda encontra espaço, principalmente quando oferece atendimento próximo, qualidade e uma experiência que o consumidor não encontra no ambiente digital. Mas é fundamental que ele esteja preparado para empreender e que existam condições mais favoráveis para quem produz, investe e gera empregos”, diz Moura Júnior.
O empresário Edgar Pereira Cezar, que dirige a Milênio Embalagens, fabricante de embalagens de papelão ondulado em Diadema, e primeiro vice-diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) no município, lembra que nem mesmo empresas de grande porte, com décadas de história estão livres de problemas que, em casos extremos, podem levar à falência. Cezar se refere às recuperações judiciais de Casas Bahia, que levaram ao fechamento de diversas lojas, da Marabraz e do grupo que controla os restaurantes Habibs, Ragazzo e Tendal Grill.
Pequenos negócios
Para Cezar, o pequeno empreendedor, desde o MEI (Microempreendedor Individual) ou o que tem uma pequena empresa de prestação de serviços ou pequena indústria, está mais sujeito às variações do mercado e, se não tiver experiência pode perder tudo o que investiu. “Não temos uma estatística própria sobre essas empresas que fecham, porém, pela experiência que tenho de mais de 20 anos como empresário vejo que as empresas que mais fecham são as prestadoras de serviços ou comércio, poucas são indústrias. São aquelas pessoas que empreendem por necessidade, ou porque perderam emprego, porque querem investir um dinheiro guardado e isso leva ao fechamento por falta de preparação do empresário ou uma pesquisa detalhada do mercado”, aponta.
Para o empresário, o custo alto é desafio para manter uma empresa, e as taxas de juros impactam diretamente e de forma mais aguda o pequeno e o microempresário. “Pessoas usam os poucos recursos que têm, um carro – no caso da escolha ser trabalhar como motorista de aplicativo -, um dinheiro guardado, uma rescisão trabalhista que recebeu, mas a falta de preparo, as adversidades da economia, a concorrência com lojas online e importados, tudo isso concorre contra. Ainda mais agora com a possibilidade de liberação da taxa das blusinhas, as mercadorias importadas vão chegar na casa das pessoas a um preço muito barato e afetar as empresas brasileiras”, cita.
Educação financeira
Segundo o vice-diretor do Ciesp de Diadema, falta investimento do governo em educação financeira, com noções de empreendedorismo e de economia básica. Cezar concorda que o brasileiro é empreendedor, que busca sempre sua independência financeira, porém sem orientação corre muitos riscos e pode perder tudo que investiu se o negócio não der certo.
“O governo tem papel fundamental na educação de base como também as entidades têm o dever de dar esse auxílio à perenidade dos negócios. O Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) tem um conjunto de informações muito importante para quem quer empreender, mas acho que todos devem se unir. Tentar mudar de vida é um direito legítimo de todo trabalhador, mas se der errado ele pode perder recursos e sair endividado. O jovem hoje se encanta com pessoas que vivem da internet, não produzem nada, mas ganham rios de dinheiro, isso influencia muita gente em redes sociais. Na contramão, as empresas têm dificuldades de contratar mão de obra porque os jovens não querem trabalhar com carteira assinada, quando a possibilidade de construir uma carreira numa empresa é muito mais palpável do que o risco de empreender. É desejável que se empreenda, mas com preparo para isso e ciente dos riscos”, completa.
Dados
Segundo o Mapa das Empresas, das 56.283 empresas abertas no ABC em 2026, até julho, 45.058 são de empresários individuais. No mesmo período 30.770 fecharam, e destas 26.615 eram de empresários individuais. Das que fecharam este ano 54,5% eram geridas por homens e 45,5% por mulheres.
Das empresas ativas na região, que são 396.241, a maior parte é formada por escritórios de prestação de serviços e comércios.

RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
