
A alta de 67,7% no número de pessoas em situação de rua, revelada pelo RD esta semana, se agrava ainda mais com a estagnação e deterioração da infraestrutura que deveria acolher essas pessoas, sobretudo nos dias mais frios do ano, como os verificados nesta semana com temperaturas em torno dos 10 graus celsius. Quem lida diariamente com essa população sabe que há muitos gargalos no atendimento, nos abrigos noturnos e na assistência social.
Nos últimos três anos o número de pessoas em situação de rua passou de 381, em abril de 2023, para 639 no mesmo mês deste ano, alta de 67,7%, segundo dados do CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais) do governo federal. Para Thiago Silva Quintanilha, coordenador no ABC do Movimento Nacional da População de Rua, é muito difícil enfrentar as noites geladas nas calçadas, mas na maioria dos abrigos a situação não é favorável para quem escolhe essa opção. Segundo ele as vagas são poucas e a há abrigos que não oferecem boas condições de acolhimento.
“As prefeituras precisam entender que é preciso abrir mais vagas em abrigos, há superlotação e mesmo assim não atende todo mundo. Não adianta por 100 pessoas lá dentro e outras 800 ficam de fora. Lá dentro estipulam regras rígidas, criadas sem nenhuma discussão e por isso muitos entendem que é melhor ficar na rua”, aponta. Dentre as dificuldades estão falta de lugar para abrigar os animais de estimação, falta de local para guardar as carrocinhas, já que muitos vivem de recolhimento de recicláveis e sucata, mas também há locais em más condições.
Quintanilha aponta que dinheiro não falta, pois há financiamento do governo federal, através do Plano Nacional Ruas Invisíveis, mas antes é preciso formar conselhos municipais da população de rua, e há resistência das prefeituras. “A gente praticamente não encontra abertura para tratar disso, os municípios não querem criar, não se consegue agenda com prefeitos, nem com secretários. Enquanto isso a gente vê superlotação e sucateamentos poucos abrigos que existem. A realidade é de locais em que as pessoas vão ficar em locais com ratos e percevejos. Já pedi reunião com o Consórcio Intermunicipal para tratar disso e não tive retorno”, lamenta.
O Movimento Nacional da População de Rua, conseguiu montar, com doações, a Cozinha Solidária Rita Galdina, que fornece alimentos para a população em situação de rua. Esse trabalho encontra muitas dificuldades, a distribuição das marmitas era feita pelo próprio Quintanilha, mas seu carro sofreu um acidente está sem condições de rodar há quatro meses. “A gente conta com alguns voluntários que entregam, mas a gente tem que ajudar na gasolina e nem sempre dá. Então a gente está mais limitado e atendendo quem pode vir até aqui para retirar. Estamos fazendo cerca de 90 refeições por dia. Tudo é feito através de doações. Quem quiser doar deve entrar em contato através do telefone 11-98478-9375.
Thiago Quintanilha cita, como retrocesso, o fim do restaurante Nosso Prato, fechado no fim do ano passado pela prefeitura de São Caetano. “É uma cidade higienista. Eu já dormi embaixo da cobertura da Secretaria de Educação e vi quando a Guarda Civil vinha para tirar a gente de lá. Fazem tudo para as pessoas não ficarem na cidade. Primeiro a prefeitura fechou o restaurante dizendo que ia reformar, depois anunciou que não ia abrir mais. Isso é para afastar o morador de rua de lá”, completa.
“A diferença de São Caetano é que não fazem questão de esconder que não querem pobre lá. Escorraçam as pessoas”, diz Gisele Capelli, que há 12 anos mantém a ONG (Organização Não Governamental) Anjos da Sopa, que fornece mensalmente 10 mil refeições, além de roupas e cobertores a moradores em situação de rua de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Mauá. “Só para São Caetano a gente sai com duas caixas de marmitas, mas o trabalho lá é mais difícil, porque as pessoas evitam se aglomerar, ficam espalhadas à noite, escondidas até atrás de sacos de lixo para não serem vistas”, explica.
“Mas essa situação de higienização a gente vê em tudo que cidade”, continua a fundadora o Anjos da Sopa. “Enquanto isso a gente vê uma diminuição grande nas doações e o frio já matou esse ano 12 pessoas na nossa região, o que nos preocupa muito”, sustenta.
Baseada nas conversas que tem com os moradores de rua Gisele diz que os abrigos são muito precários. Ela reproduz o que Quintanilha diz sobre a higienização destes locais. “Não é feita a dedetização e muitas pessoas acabam contraindo doenças de pele transmitidas por outros. As pessoas também são tratadas de qualquer jeito e tem muita humilhação e não é porque a pessoa mora na rua que tem que aceitar isso”, aponta.
As regras impostas nos abrigos também afastam o público alvo. “As pessoas são obrigadas a acordar e sair de lá até as 6h, faça sol ou chuva e esses locais ficam longe das áreas onde esses moradores em situação de rua costumam ficar e onde conseguem alimentação, por isso muitos evitam o abrigo para ficar perto de onde conseguem se manter. Ninguém quer ficar em uma calçada suja e passar frio, essas pessoas tem problemas, estão doentes e precisam de ajuda”. A Ong Anjos da Sopa precisa de doações de alimentos e roupas para manter seu trabalho. O ponto para entrega de doações fica na rua Rua Javri, 445 – Vila Assunção – Santo André. Mais informações nas redes sociais da entidade.
Para o sociólogo, professor e historiador de Rio Grande da Serra, Henrique Correa Campos, diz que é necessária estratégia regional para lidar com uma população que não se importa com as divisas municipais. “A situação de rua é resultado de um processo de vulnerabilização que envolve diferentes fatores. A perda do emprego e da renda, a dificuldade de acesso à moradia, o rompimento de vínculos familiares e questões relacionadas à saúde mental e ao uso de substâncias podem se somar e levar uma pessoa a essa condição. Por isso, não é possível olhar para esses números de forma isolada”, afirma.
Para o especialista, a própria dinâmica do ABC exige que o problema seja pensado para além de cada município. “Hoje, cada município organiza sua própria estrutura de abordagem e acolhimento, mas a situação de rua não termina na divisa da cidade. Seria importante discutir, dentro de uma estrutura, como o Consórcio ABC, a criação de estratégias regionais de abordagem, identificação e encaminhamento dessas pessoas, para que os municípios possam compartilhar informações e construir fluxos conjuntos de atendimento”, sugere.
O RD pediu uma entrevista com representante do GT (Grupo de Trabalho de Assistência Social) do Consórcio, para falar sobre a atenção à população em situação de rua, mas a entidade encaminhou uma nota. “A atenção à população em situação de rua é uma pauta permanente de articulação regional entre os sete municípios e Consórcio Intermunicipal, considerando que essa população circula pelo território e demanda ações integradas. Historicamente, o tema é discutido no âmbito da entidade regional, com propostas de integração dos serviços de assistência social, saúde, trabalho e renda e habitação. O Consórcio ABC promove o diálogo entre as administrações municipais para o compartilhamento de experiências e o aprimoramento das políticas públicas voltadas à população em situação de vulnerabilidade, respeitando as competências de cada município na execução dos serviços de acolhimento e atendimento”, sustenta o colegiado de prefeitos.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
