
O poeta e músico Neira Galvêz lança “Na espera áspera”, seu primeiro livro de poemas, pela Kotter Editorial. Com 88 páginas, a obra aborda temas como cansaço crônico, precarização do trabalho, contradições políticas, excesso de telas, crise de saúde mental e as inquietações humanas provocadas pelo capitalismo tardio.
Concebido pelo autor como uma espécie de carta aos arqueólogos do futuro sobre o fim de uma época, o poemário combina ironia, cinismo e deboche para refletir sobre o esvaziamento das utopias cotidianas e a angústia existencial do presente.
A obra também percorre questões como a uberização do trabalho, a mercantilização da fé e a herança histórica de um Brasil marcado pela escravidão, pelo moralismo e pela corrupção. Para a professora e especialista em língua portuguesa Vitória Bressan Marcilio, responsável pela quarta capa, a primeira antologia de Galvêz apresenta um retrato franco do país, capaz de provocar no leitor um sentimento de constrangimento diante da realidade — “ou quem sabe o espelho”.
O excesso de telas e de informação e o impacto desse cenário sobre a saúde mental também aparecem ao longo do livro. Em poemas como “brain rot” e “diário noturno para os sociólogos do futuro”, o autor aborda a relação com as redes sociais, os hábitos que atravessam a vida digital, a insônia e o medo diante do futuro.
O olhar sobre o presente é assumidamente pessimista. Galvêz descreve sua posição como a de alguém que observa, quase de forma apática, um período de profundas transformações. “Me sinto como uma testemunha apática do final dos tempos, com a necessidade de comunicar isso”, afirma.
Apesar do tom niilista, “Na espera áspera” não se encerra no desencanto. Entre as inquietações apresentadas pelo autor, aparece também uma tentativa de encontrar possibilidades de recomeço, mesmo em meio às ruínas. A obra busca, segundo Galvêz, pequenos espaços de resistência e afeto diante de um cenário marcado pelo esgotamento.
“Apesar de todas as coisas terríveis que relato e diagnostico, considero que é preciso, de alguma forma, encontrar um meio de trabalhar nossa habilidade de ter e dar esperança”, diz.
Carta aos arqueólogos do futuro
A ideia de transformar o livro em uma espécie de registro para o futuro esteve presente desde a concepção do projeto. Galvêz definiu que os poemas deveriam funcionar como uma carta aos arqueólogos que, em algum momento, encontrassem os vestígios do período atual.
O resultado é uma obra atravessada pelo desabafo, pelo humor ácido e pelo pessimismo associado ao período pós-pandêmico, mas que não abandona completamente a possibilidade de mudança. A tentativa de compreender o presente se mistura à busca por uma nova perspectiva diante das incertezas do futuro.
A trajetória do autor ajuda a explicar a diversidade de referências presentes no livro. Neira Galvêz nasceu em 1994, em São Bernardo, e atua como poeta e compositor. Desde 2017, publica experiências poéticas em sua página no Instagram. Na música, possui três álbuns lançados com a banda Lavolta e também participou de trabalhos com artistas da cena underground brasileira, como 1LUM3 e Vivian Kuczynski.
Filho e neto de exilados políticos da ditadura de Pinochet, Galvêz transita entre o mundo corporativo e a criação artística. Sua produção literária reúne influências de poetas como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Alberto Pucheu e Claudia Roquette-Pinto.
As referências, no entanto, não estão restritas à literatura. A música também ocupa espaço importante na formação de sua escrita, especialmente por meio de compositores e letristas como Clemente Nascimento, Arnaldo Antunes, Renato Russo, Marcelo Nova, Mano Brown, Rappin Hood, MV Bill, BNegão e Marcelo Yuka.
A música como exercício de escrita
A experiência acumulada como compositor também influenciou diretamente a construção de “Na espera áspera”. Para Galvêz, o processo de escrever letras de música contribuiu para desenvolver uma relação mais cuidadosa com as palavras e com o espaço ocupado por cada verso.
“Ter criado dezenas de músicas nos últimos anos me ajudou a exercitar o trabalho com as palavras, sobretudo na hora de editar, apagar, sacrificar frases, em prol do espaço e da métrica, sem perder o objetivo e o sentido”, explica.
Essa relação entre música e poesia aparece na preocupação com ritmo, métrica e escolha vocabular, mas também na própria maneira como o autor estrutura seus poemas. O livro alterna observações sobre a vida cotidiana, críticas sociais e reflexões existenciais, construindo um retrato fragmentado de um período que, para o poeta, parece marcado pelo esgotamento.
Futuros projetos
O próximo projeto do autor é um álbum solo conceitual, que pretende chamar de “Língua morta”, por tratar a indignação como uma espécie de língua em extinção nos nossos tempos. Além disso, ele afirma que pretende se dedicar à prosa.
Leia o poema “na espera áspera do que está adiante”, de Neira Galvêz:
antigamente o futuro era brilhante
agora tudo é nostalgia serial
como um velório da esperança diletante
ou quarta-feira ao final de carnaval
eu sinto um cansaço que paira no ar
uma apatia geral da plateia humana
quase torcendo para o mundo se acabar,
ou talvez seja eu perdendo a pouca gana…
talvez seja eu sem uma fé praticante
talvez seja eu sem convicções políticas
talvez seja eu, homem deste tempo e instante,
sob sintomas que a ciência não explica.
o que sei é deste amargo que ainda fica
na espera áspera do que está adiante
Ficha técnica
Livro: Na espera áspera
Autor: Neira Galvêz
Rede social do autor: https://www.instagram.com/neira.galvez
Número de páginas: 88
ISBN: 978-65-5361-570-0
Gênero: Poesia
Editora: Editora Kotter
Ano: 2026
Adquira: https://kotter.com.br/loja/literatura/poesia/na-espera-aspera/
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
