
A melhora nas condições de crédito e a mudança no perfil dos compradores começam a movimentar o mercado imobiliário do ABC. Apartamentos menores, principalmente de dois dormitórios, estão entre os imóveis mais procurados na região, impulsionados por jovens que buscam o primeiro imóvel e por investidores – em grande parte da mesma faixa etária – interessados em unidades com potencial de renda por meio da locação.
Embora a redução da taxa de juros ainda não tenha provocado mudanças significativas nos financiamentos imobiliários, representantes do setor avaliam que a perspectiva de novas quedas da Selic pode aumentar a confiança dos consumidores que aguardam um momento mais favorável para comprar.
Levantamento do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo (Crecisp) mostra que o mercado imobiliário do ABC registrou recuperação em abril, com alta de 66,92% nas vendas de imóveis residenciais usados na comparação com março. No acumulado do primeiro quadrimestre de 2026, as negociações de compra e venda cresceram 23,56%.
Os apartamentos foram maioria entre os imóveis vendidos no período, com 69% das transações, enquanto as casas representaram 31%. Entre os apartamentos comercializados, as unidades de dois dormitórios responderam por 58,1% das vendas, indicando maior procura por imóveis compactos, com menor custo de manutenção.
Para o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo (Crecisp), Augusto Viana, quem possui condições financeiras para comprar não deve necessariamente esperar uma redução maior dos juros para fechar negócio. “Quem tem condições de fazer uma aquisição e tem condição de crédito não deve esperar, porque a tendência da taxa de juros é baixar daqui para frente. Depois, pode não encontrar o imóvel dentro de um espaço ideal”, afirma.
Segundo o especialista, imóveis de até R$ 500 mil concentram boa parte da procura. Entre as casas, os modelos de dois dormitórios são os mais buscados por casais e famílias, enquanto, nos apartamentos, a procura está concentrada em unidades que podem chegar a até três quartos.
Dados apresentados pelo Crecisp indicam que os financiamentos realizados pela Caixa Econômica Federal e por bancos privados representaram 67,8% das transações em maio, considerando a comparação com abril. O levantamento também aponta que o preço e a localização continuam sendo os principais critérios na escolha do imóvel. Regiões periféricas, em que o custo do imóvel é menor, concentraram 52,5% da preferência dos compradores, seguidas pelas áreas centrais, com 30,5%, e regiões consideradas nobres, com 16,9%.
Jovens buscam primeiro imóvel
Entre as mudanças percebidas pelo setor está a chegada de compradores cada vez mais jovens ao mercado. Consumidores entre 28 e 42 anos, principalmente na faixa de renda individual entre R$ 4 mil e R$ 7 mil, têm ampliado a procura por apartamentos. “Cada dia mais o jovem tem procurado apartamento, seja para se mudar e morar lá ou investir comprando pequenos imóveis para fazer locação. Esse movimento veio para ficar”, explica Augusto Viana.
Para o presidente da Acigabc, Nilson Colombo, o perfil do comprador muda conforme a faixa de renda. Nos imóveis de entrada, a procura é maior entre pessoas mais jovens, principalmente aquelas atendidas pelo Minha Casa, Minha Vida, nas primeiras faixas do programa. “Os imóveis de entrada são procurados por pessoas de 25 a 30 anos, que querem morar sozinhas ou estão começando uma família. E a tendência é de um público cada vez mais jovem”, afirma.
Segundo Colombo, conforme o valor do imóvel aumenta, também muda o perfil de quem compra. “Um imóvel de R$ 350 mil exige uma renda diferente de um imóvel de R$ 600 mil. Quando sobe o padrão, normalmente aparece um comprador com mais consolidação financeira, geralmente acima dos 45 anos”, explica.
Além de quem procura a casa própria, unidades compactas também têm atraído investidores interessados em renda com aluguel. Os dados do Crecisp mostram que as locações residenciais cresceram 101,56% em abril na comparação com março. Entre os apartamentos alugados no período, as unidades de dois dormitórios representaram 69,4% dos contratos registrados.
Segundo Augusto Viana, imóveis menores podem apresentar boa rentabilidade quando destinados à locação. “Um imóvel pequeno pode render até 1,5% do valor da propriedade, e conforme aumenta o tamanho, a rentabilidade muda”, afirma.
Nilson Colombo explica que até compradores de maior renda têm recorrido ao financiamento imobiliário, mesmo quando possuem recursos disponíveis. “O comprador de alta renda também financia, mas em uma proporção menor. Muitas vezes ele entende que é mais interessante manter o dinheiro aplicado e financiar parte do imóvel”, diz.
Santo André concentra lançamentos
No mercado de novos empreendimentos, Santo André aparece como destaque entre as cidades do ABC. Segundo Nilson Colombo, a agilidade na aprovação de projetos tem atraído incorporadoras para o município. “Santo André tem se destacado porque aprova projetos em menos tempo. A incorporadora espera seis meses como um prazo aceitável, mas há casos em que a aprovação ocorre em cerca de quatro meses”, afirma.
Segundo ele, a cidade chegou a concentrar cerca de 70% dos lançamentos imobiliários da região, enquanto os demais municípios dividiram o restante.
Exemplo disso é Davi Ventura, de 32 anos, morador de Santo André, que financiou seu primeiro apartamento próximo à Santa Cecília e decidiu colocar o imóvel para locação pela plataforma digital Airbnb enquanto ainda não se mudava. A estratégia, adotada em 2022, ajudou Davi a reduzir o impacto das parcelas do financiamento e transformou o imóvel em uma fonte de renda durante esse período.
“Eu sempre tive o objetivo de comprar meu próprio apartamento, mas precisava encontrar uma forma de tornar esse investimento viável. Então colocar ele para locação nesse primeiro momento foi uma maneira de ajudar no pagamento do financiamento e, no futuro, morar nele com mais tranquilidade”, conta. Ao longo do processo, Davi também adotou o mesmo esquema na cidade em que reside e hoje está com dois apartamentos alugados. “Aqui foi ainda mais rápido porque precisei esperar menos de 5 meses pra conseguir alugar”, conta.
Em entrevista ao RD, Davi afirma que a escolha levou em consideração não apenas o desejo de ter a casa própria, mas também o potencial de valorização do imóvel. “Procurei apartamentos que fizessem sentido como investimento e também um deles como futura moradia. A localização foi um dos principais fatores para a escolha”, conta.
Minha Casa, Minha Vida segue como porta de entrada
Apesar da expectativa de redução dos juros, o setor afirma que o financiamento imobiliário tradicional ainda não apresentou queda significativa nas taxas praticadas pelos bancos. Segundo Nilson Colombo, a maior facilidade continua concentrada nos contratos vinculados ao Minha Casa, Minha Vida, principalmente nas faixas 1, 2 e 3.
“A queda da Selic ainda não chegou de forma perceptível para o financiamento imobiliário. Hoje, quem tem encontrado mais facilidade é o comprador enquadrado no Minha Casa, Minha Vida”, afirma. A expectativa do mercado é que novas reduções dos juros possam ampliar a procura por imóveis na região ao longo dos próximos meses.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
