O envelhecimento acelerado da população ampliou a procura por profissionais especializados no cuidado à pessoa idosa no ABC. Cuidadores, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos geriatras e outros especialistas passaram a ocupar papel cada vez mais importante para famílias, instituições de longa permanência e serviços de saúde. Apesar dos investimentos de municípios e instituições de ensino na formação de mão de obra, especialistas e representantes de casas de repouso afirmam que a oferta de profissionais qualificados ainda não acompanha o crescimento da demanda.
Para a professora da disciplina de Enfermagem e coordenadora do Serviço de Gerontologia da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Ana Paula Guarnieri, esse cenário resulta das transformações demográficas registradas no país nas últimas décadas. “O envelhecimento da população aumentou a demanda por profissionais especializados. Não se trata de uma tendência passageira, mas de uma transição demográfica e estrutural. A queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida reduziram a capacidade do cuidado familiar informal e transferiram essa demanda para a economia do cuidado”, explica a coordenadora.

Na avaliação da especialista, a necessidade ultrapassa a medicina geriátrica e a enfermagem. O mercado também exige profissionais de gerontologia, fisioterapia, neuropsicologia, fonoaudiologia e tecnologias assistivas. Mesmo assim, ainda existem gargalos importantes. “Temos alta taxa de informalidade, déficit de qualificação técnica padronizada e escassez de modelos sustentáveis de cuidados de longa duração”, afirma Ana Paula.
Municípios ampliam capacitações voltadas à população idosa
Diante do aumento da população idosa, municípios do ABC têm ampliado ações de qualificação profissional e fortalecido da rede de atendimento. Embora algumas administrações afirmem não enfrentar dificuldades para contratação, todas reconhecem a necessidade de investir em serviços especializados e na preparação de profissionais para atender esse público.
Em Mauá, a Prefeitura promove cursos de formação para cuidadores de idosos por meio de programas de qualificação profissional. Em 2024, duas turmas capacitaram 100 pessoas. No ano seguinte, outras duas turmas formaram mais 80 participantes, e novas capacitações estão previstas para este ano. O município também oferece cursos de informática para pessoas com mais de 50 anos por meio do Programa Qualifica Mauá, que atendeu cerca de 130 alunos no primeiro semestre deste ano.
Diadema também aposta na formação de novos profissionais. A Fundação Florestan Fernandes ofertou 170 vagas para o curso de Cuidador de Idosos entre 2025 e 2026, com nova turma prevista para o próximo ano. Além da qualificação, o município informou que está em fase de implantação do Centro-Dia do Idoso e destacou que o atendimento à população idosa ocorre por meio dos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social), Creas (Centros de Referência Especializados de Assistência Social), Espaço Conviver 60+, Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e SAD (Serviço de Atenção Domiciliar), que também orienta familiares e cuidadores. Segundo a administração municipal, atualmente não há dificuldades para contratar profissionais especializados.
Rio Grande da Serra informou que mantém um curso de capacitação para cuidadores de idosos com turmas nos períodos da manhã, tarde e noite. O município também destacou que o atendimento à população idosa ocorre por meio do Cras e do Creas, com equipes compostas por assistentes sociais e psicólogos, responsáveis pelo acompanhamento de casos de vulnerabilidade, abandono, violência e outras violações de direitos.
Em Santo André, a Prefeitura ressaltou que mantém equipes multiprofissionais para atendimento à população idosa na rede socioassistencial, com atuação em equipamentos como Cras, Creas, Centro POP, Vem Maria e Crisa (Centro de Referência do Idoso de Santo André). O município também informou que as Instituições de Longa Permanência para Idosos conveniadas contam com profissionais especializados e recebem capacitações permanentes promovidas pela administração municipal, seja para servidores ou para equipes das organizações da sociedade civil parceiras.
São Bernardo destacou que todas as Unidades Básicas de Saúde atuam com equipes multiprofissionais por meio da Estratégia Saúde da Família, compostas por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde. O município informou ainda que conta com profissionais especializados em cuidados geriátricos, responsáveis por atendimentos compartilhados e apoio às equipes da Atenção Básica, como forma de fortalecer o atendimento diante do envelhecimento da população.
Dificuldade para contratar
A realidade descrita pela coordenadora da FMABC aparece no cotidiano das instituições que prestam assistência à população idosa. A enfermeira responsável técnica do Residencial para Idosos Anastácia, em Santo André, Daniela Freire Soares Brolezi, relata dificuldade para contratar profissionais especializados, principalmente cuidadores de idosos, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos geriatras. “Atualmente enfrentamos dificuldades para contratar profissionais qualificados para atuar no cuidado à pessoa idosa. A escassez torna o processo de contratação mais demorado”, relata. O Residencial para Idosos Anastácia mantém vagas abertas conforme a necessidade operacional, principalmente para cuidadores e técnicos de enfermagem.
Segundo Daniela, além da formação técnica, a instituição prioriza profissionais com empatia, ética, responsabilidade, boa comunicação e compromisso com uma assistência humanizada. Após a contratação, a equipe participa de treinamentos periódicos sobre prevenção de quedas, manejo de demências, cuidados paliativos, prevenção de lesões por pressão, administração segura de medicamentos e protocolos assistenciais.
Na avaliação da enfermeira, a dificuldade de contratação interfere diretamente na rotina da instituição. “A escassez de profissionais qualificados aumenta a dificuldade na composição das escalas de trabalho, gera maior sobrecarga para as equipes e pode comprometer a continuidade e a qualidade da assistência”, afirma. Daniela também considera necessário ampliar a oferta de cursos voltados à geriatria e gerontologia, fortalecer a formação prática e incentivar programas permanentes de educação continuada.
Já na Casa de Repouso Vida Serena, em Ribeirão Pires, o desafio apresenta outra característica. Representantes da instituição afirmam que a principal dificuldade não está na formação técnica, mas na busca por profissionais comprometidos com o cuidado à pessoa idosa. “O que falta é compromisso, responsabilidade, zelo pelo trabalho e pelos idosos”, destacam os representantes.
Embora não existam vagas abertas no momento, a Casa de Repouso Vida Serena informa que o trabalho exige profissionais com amor, empatia, dedicação, responsabilidade e compromisso. A instituição oferece treinamento voltado à adaptação dos profissionais à rotina da casa. A formação técnica ocorre em cursos externos. Segundo os representantes da Vida Serena, a ausência de bons profissionais compromete significativamente o funcionamento da instituição, já que a equipe de cuidados exerce papel essencial na assistência aos idosos.
Cuidado, escassez e formação
Para Ana Paula Guarnieri, o cuidado à pessoa idosa não pode ser tratado apenas como uma atividade baseada na boa vontade. “O cuidado ao idoso não é apenas uma atividade afetiva, mas uma intervenção em saúde complexa”, afirma a coordenadora do Serviço de Gerontologia da FMABC. A professora alerta que profissionais sem capacitação específica elevam os riscos de acidentes, erros de medicação, perda da autonomia e agravamento do quadro clínico dos pacientes. “O idoso já foi um adulto e não é uma criança. Tem necessidades biológicas próprias dessa faixa etária e aspectos psicossociais que o tornam único. Um cuidado que ignora esses fatores pode colocar essa pessoa em situação de vulnerabilidade”, diz.
Ana Paula também esclarece que existe diferença entre as atribuições do cuidador e do profissional de enfermagem. Segundo ela, o cuidador não é um profissional de enfermagem e não pode realizar procedimentos privativos dessa categoria, e o cuidador também não substitui a família.
A escassez de profissionais especializados também provoca reflexos diretos na rotina das famílias, que muitas vezes assumem responsabilidades sem preparo técnico. “A falta desses especialistas transforma o cuidado em improviso, aumenta o risco de acidentes, erros de medicação e perda da autonomia. Para a família, surge sobrecarga e esgotamento emocional, porque parentes sem preparo assumem o papel de cuidadores”, afirma Ana Paula. Segundo a coordenadora da FMABC, situações como demências exigem dedicação permanente e costumam concentrar a responsabilidade em poucos integrantes da família, principalmente mulheres. “Quando falamos em estresse do cuidador, estamos falando de uma pessoa, geralmente uma filha ou esposa, que chega ao limite do esgotamento físico e mental por tentar fazer tudo sozinha. Não existe idoso bem cuidado ao lado de um cuidador doente”, comenta.
Apesar das iniciativas em andamento, Ana Paula avalia que a formação de profissionais ainda não acompanha o ritmo do envelhecimento da população. “Não temos profissionais de saúde, especialmente enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, em quantidade suficiente para atender os equipamentos de saúde e o cuidado domiciliar. Também faltam médicos geriatras e equipes de reabilitação especializadas”, explica a especialista.
Na FMABC, a formação de profissionais para esse segmento inclui a Especialização Multiprofissional em Reabilitação Gerontológica e a Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso, iniciativas voltadas à preparação de equipes para atender às demandas de uma população em constante crescimento.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
