
As plataformas de apostas esportivas e jogos online, popularmente conhecidas como “bets”, deixaram de ser apenas mais uma forma de entretenimento e passaram a representar desafio para o poder público. Enquanto o setor movimenta bilhões de reais e ganha espaço em transmissões esportivas, redes sociais e patrocínios de clubes, cresce também a preocupação com o avanço do jogo compulsivo, especialmente entre públicos vulneráveis e a atuação de empresas irregulares.
Diante do cenário, a regulamentação do setor passou a ocupar espaço nas discussões sobre segurança pública, defesa do consumidor e saúde mental. No entanto, a fiscalização das plataformas não cabe aos estados, mas ao governo federal. A Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, é responsável por autorizar o funcionamento das empresas, monitorar a atuação e aplicar sanções quando necessário.
Já em São Paulo, o foco é a investigação de eventuais crimes praticados por empresas ou organizações ligadas ao setor. Em nota ao RD, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informa que a Polícia Civil apura denúncias e indícios de irregularidades que envolvem plataformas de apostas. Atualmente, o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) conduz cinco inquéritos com empresas que utilizam a denominação “bet”, todas investigadas por suspeita de crimes contra a economia popular na modalidade de pirâmide financeira.
A SSP informa, ainda, que atua em conjunto com os órgãos federais responsáveis pela regulamentação das apostas, além do Ministério Público e do Poder Judiciário, sempre que acionada.
Crescimento das apostas preocupa especialistas
Se por um lado o mercado se expandiu, por outro aumentaram os casos de pessoas que desenvolveram dependência em jogos de azar. Para o psiquiatra e professor do Centro Universitário FMABC, Danilo Baltieri, as evidências científicas apontam uma relação direta entre a popularização das plataformas digitais e o crescimento do transtorno do jogo.
“A expansão das plataformas de apostas esportivas e jogos online foi acompanhada por um aumento consistente dos casos de dependência, especialmente entre os jovens. A facilidade de acesso, a publicidade intensa e a disponibilidade permanente dessas plataformas favorecem o desenvolvimento de comportamentos compulsivos”, afirma.
Segundo o médico, esse cenário já foi observado em outros países. Na Espanha, por exemplo, a legalização das apostas online foi seguida por um aumento expressivo da procura por tratamento especializado. No Brasil, a tendência é semelhante.
Dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), indicam que cerca de 10,9 milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco ou problemático relacionado aos jogos de azar. Desses, aproximadamente 1,4 milhão já atende aos critérios para o Transtorno do Jogo.
Mais da metade dos adolescentes que apostaram no último ano apresentou comportamento de risco ou dependência. Além disso, os atendimentos relacionados ao jogo patológico no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceram 104% entre 2018 e 2025, enquanto os registros nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) aumentaram 206% entre 2021 e 2024.
Quando apostar deixa de ser lazer
O Transtorno do Jogo é reconhecido pela psiquiatria como uma dependência comportamental e integra a classificação oficial dos transtornos mentais. O diagnóstico ocorre quando a pessoa perde o controle sobre as apostas, mesmo diante dos prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.
“Não é apenas uma questão de falta de controle ou impulsividade. Hoje sabemos que o jogo patológico é uma dependência comportamental, com características muito semelhantes às observadas em pessoas dependentes de álcool e outras drogas”, explica Baltieri.
Entre os principais sinais estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, tentativas frustradas de parar, irritação quando não consegue jogar, mentiras para esconder o comportamento, uso das apostas para aliviar ansiedade ou tristeza e o hábito de tentar recuperar perdas apostando novamente.
Segundo o psiquiatra, homens jovens, pessoas com ansiedade, depressão ou uso de álcool e outras drogas, além de indivíduos em situação de vulnerabilidade econômica, fazem parte dos grupos mais suscetíveis ao desenvolvimento do transtorno.
Publicidade e acesso permanente agravam o problema
Para Baltieri, um dos fatores que mais impulsionam o crescimento da dependência é a facilidade de acesso às plataformas digitais. “O jogo online é potencialmente mais viciante porque está disponível 24 horas por dia, pode ser acessado pelo celular em qualquer lugar e permite apostas e depósitos praticamente instantâneos. Além disso, a publicidade intensa, especialmente voltada aos jovens, amplia significativamente a exposição ao risco”, destaca.
Há tratamento
Apesar dos riscos, o transtorno tem tratamento. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada a abordagem mais eficaz e pode ser associada ao acompanhamento psiquiátrico, grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, e atendimento multidisciplinar nos casos mais graves.
“A família tem um papel fundamental para identificar os primeiros sinais do problema e incentivar a busca por ajuda. Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de recuperação”, afirma o especialista.
Como forma de prevenção, Baltieri orienta que as apostas sejam encaradas apenas como entretenimento. “Nunca se deve apostar dinheiro destinado às despesas essenciais nem tentar recuperar perdas apostando novamente. Quando a pessoa percebe que perdeu o controle, o mais importante é interromper as apostas e procurar avaliação profissional”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
