Mais de 78 mil pessoas são alcançadas por programas de segurança alimentar no ABC, em bancos de alimentos, restaurantes populares, campanhas de arrecadação e outras iniciativas voltados à distribuição de mantimentos para o combate à fome na região. Apesar dos avanços e do aumento dos investimentos públicos, entidades que atuam diretamente com a população em situação de vulnerabilidade afirmam que o acesso a alimentação adequada ainda representa um desafio e defendem maior articulação entre poder público, iniciativa privada e organizações sociais.
Embora reconheça a importância dos programas públicos, o presidente e fundador da Casa Neon Cunha, Paulo Araújo, avalia que o combate à fome exige um olhar que vá além da quantidade de alimentos distribuídos. Segundo Araújo, muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para acessar refeições nutritivas e balanceadas.
A ONG recebe apoio do Banco de Alimentos e do programa Mesa Brasil, do Sesc, mas a demanda permanece elevada. A Casa Neon mantém uma cozinha aberta que oferece alimentação diariamente, todos os dias da semana, com cinco refeições por dia. “O desafio não é apenas matar a fome. As pessoas precisam ter acesso a uma alimentação de qualidade, com proteínas, legumes, verduras e outros alimentos que garantam uma nutrição adequada”, afirma.
Para Araújo, organizações sociais de diferentes municípios enfrentam dificuldades semelhantes. O dirigente defende o fortalecimento das políticas públicas, a ampliação das parcerias com empresas e a construção de estratégias capazes de alcançar famílias que ainda permanecem fora da rede de atendimento. “Nem o poder público nem a sociedade civil conseguem alcançar sozinhos todas as pessoas que precisam. É necessário pensar formas de ampliar a captação e a distribuição de alimentos para que mais famílias consigam superar a insegurança alimentar”, comenta.
Prefeituras
Os municípios apostam em diferentes estratégias para ampliar o acesso da população à alimentação. Em Mauá, o Banco de Alimentos arrecadou 477 toneladas de alimentos em 2025, enquanto Santo André contabilizou 175,1 toneladas no mesmo período e cerca de 177 toneladas em 2026, número ainda parcial. Em São Bernardo, o Banco de Alimentos arrecadou e destinou 68 toneladas de mantimentos no primeiro quadrimestre deste ano, ante 52 toneladas no mesmo período de 2025. Já Diadema arrecadou pouco mais de 50 toneladas entre janeiro e abril de 2026.

As iniciativas garantem acesso à alimentação para famílias em situação de vulnerabilidade social, além de reduzir o desperdício por meio da captação de produtos junto a empresas, produtores rurais e parceiros institucionais.
Bancos de alimentos são eixo das políticas públicas
Em Santo André, o Banco de Alimentos, vinculado ao Fundo Social de Solidariedade, atende 128 instituições assistenciais cadastradas. As entidades são responsáveis pela distribuição dos mantimentos para mais de 55 mil pessoas por mês. Além das arrecadações permanentes, o município promove campanhas solidárias em eventos públicos e privados.
Um dos exemplos foi a última edição da Feira da Fraternidade, que arrecadou mais de 12 toneladas de alimentos. O modelo também inclui eventos municipais com entrada solidária mediante doação de dois quilos de alimentos por participante e parcerias com iniciativas privadas que possuem contrapartida social.
Empresas parceiras
Em Diadema, o Programa Banco de Alimentos recebe doações de empresas e mercados parceiros. Atualmente, cerca de 15 mil moradores são beneficiados por meio de 53 organizações sociais cadastradas. Os alimentos passam por triagem antes da distribuição para famílias em situação de vulnerabilidade, crianças, idosos e pessoas em situação de rua.
No primeiro quadrimestre de 2026, Diadema arrecadou 50.086 quilos de alimentos e distribuiu 48.297 quilos. O volume descartado foi de 1.788 quilos. No mesmo período de 2025, o descarte havia alcançado 75.548 quilos. O município também prevê a implantação de um Armazém Solidário destinado a famílias inscritas no CadÚnico, com oferta de alimentos saudáveis e nutritivos a preços reduzidos.
Ampliação de programas
Em São Bernardo, a Prefeitura reforçou as ações de segurança alimentar a partir de 2025. O Banco de Alimentos arrecadou e destinou 52 toneladas de mantimentos no primeiro quadrimestre daquele ano. Em 2026, o volume chegou a 68 toneladas no mesmo período.
Entre janeiro de 2025 e abril deste ano, o município arrecadou 270 toneladas de alimentos, incluindo frutas, legumes e verduras distribuídos por meio do programa Cesta Verde. A iniciativa integra as ações desenvolvidas em parceria com o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), do governo federal, que permite a compra de produtos da agricultura familiar para distribuição à população em situação de vulnerabilidade.
Outro destaque foi a criação do programa 1, 2 Feijão com Arroz, lançado em maio de 2025. A estratégia ampliou as arrecadações por meio de campanhas solidárias e do ingresso solidário em eventos como o Natal Iluminado no Paço, o Show da Virada, o Arraiá do Paço e o Aviva SBC.
O município também recebeu R$ 800 mil do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome após conquistar a terceira colocação nacional em edital voltado à modernização de bancos de alimentos. O investimento permitirá ampliar em 50% a capacidade operacional da unidade. São Bernardo também integra a Estratégia Alimenta Cidades, iniciativa federal criada para reduzir a insegurança alimentar no País e fortalecer o planejamento integrado das ações voltadas ao tema.
Mauá aposta em atendimento integrado
Mauá mantém uma das maiores estruturas de segurança alimentar da região. O Banco de Alimentos do município recebeu 485 toneladas de alimentos em 2024, 477 toneladas em 2025 e 253 toneladas só em 2026. Atualmente, a estrutura atende 110 associações e entidades, além de 4.453 famílias e cerca de 8.700 beneficiários.
Criado em 2005 e reinaugurado em 2018, o equipamento recebe alimentos da agricultura familiar por meio do Programa de Aquisição de Alimentos e de parceiros como Ceagesp, Benassi, Grupo Carrefour e Dois Cunhados. O banco também recebe rações e areia para pets em parceria com a UPA Animal e o Centro de Controle de Zoonoses.
Além da distribuição de mantimentos, a cidade desenvolve ações voltadas à educação alimentar e ao acompanhamento nutricional da população. Entre elas está o projeto piloto Cozinha Solidária, que beneficia aproximadamente 544 famílias das regiões do Jardim Feital, Jardim Zaíra, Jardim Itapeva e Vila Carlina.
O município também realizou 1.205 visitas domiciliares para identificação de situações de vulnerabilidade, com entrega de 211 cestas de alimentos e 994 kits alimentares. Outra iniciativa é o programa Saúde na Mesa, que resultou na distribuição de 1.600 kits de alimentos de 10 quilos para famílias inscritas no CadÚnico. Mauá ainda conta com um Restaurante Popular fixo e uma unidade móvel, que oferece refeições ao valor de R$ 1 em diferentes bairros da cidade.
As prefeituras de São Caetano, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não responderam ao RD até o fechamento desta matéria.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
