A maternidade ainda é cercada por cobranças sociais, romantização e sobrecarga emocional para as mulheres. Em entrevista ao RDtv, Rebeca de Cassia Daneluci, doutora em Psicologia Social, mestre em Psicologia Clínica e docente do curso de Psicologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, afirma que não existe uma única forma de vivenciar a maternidade e destaca os desafios emocionais, culturais e sociais enfrentados pelas mulheres.
Rebeca explica que a experiência de ser mãe é atravessada por diferentes realidades e escolhas da mulher. “Existem mulheres que querem ser mães, mulheres que não querem e mulheres que vivem maternidades diferentes. Há uma diversidade muito grande sobre a questão da maternidade”, afirma.
Segundo a psicóloga, durante décadas a maternidade foi colocada como destino natural da mulher, sem espaço para questionamentos. “Nas gerações das nossas avós, a maternidade não era uma escolha. A identidade feminina estava muito ligada ao fato de ser mãe”, diz.

Atualmente, porém, as mulheres acumulam diferentes funções e responsabilidades. Trabalham, estudam, buscam independência financeira e realização pessoal, além dos cuidados com os filhos e com a casa. “O mercado de trabalho não se adaptou à mulher que cuida dos filhos. Isso gera sobrecarga e culpa, porque ela sente que nunca consegue dar conta de tudo”, destaca.
A psicóloga também chamou atenção para a pouca participação masculina nos debates sobre criação dos filhos. “Quando uma criança adoece, normalmente quem falta no trabalho é a mãe. Ainda existe uma expectativa social de que o cuidado seja responsabilidade feminina”, relata.
Idealização da maternidade
Para a psicóloga, a maternidade não é algo instintivo, mas uma construção desenvolvida na convivência com o bebê. “A ideia romantizada da maternidade contribui para frustrações e sentimentos de culpa. Quando o bebê nasce, nasce alguém que a mulher ainda não conhece. É um processo de aprendizado mútuo”, explica.
Rebeca ressalta que o início da maternidade costuma ser difícil, principalmente pela falta de espaço para que as mulheres falem sobre medos, inseguranças e frustrações. “A amamentação, por exemplo, exige técnica e, muitas vezes, pode ser dolorosa. Algumas mulheres sofrem por não conseguir amamentar. Só com o tempo a mãe aprende a interpretar o choro do bebê e a amamentar. Nada vem pronto”, garante.
A professora da USCS aponta, ainda, a cobrança social direcionada às mulheres que optam por não ter filhos. A sociedade ainda trata a decisão de não ter filhos como algo que precisa ser justificado. “Quando uma mulher diz que não quer ser mãe, normalmente é questionada. É como se a identidade feminina estivesse necessariamente ligada à maternidade”, comenta.
Falta acolhimento
Rebeca também fala que durante muitos anos mães atípicas foram responsabilizadas de forma injusta por condições dos filhos. “Essas mulheres vivem uma rotina intensa de cuidados, mas são pouco escutadas”, afirma.
A cobrança sobre essas mães é constante, enquanto o apoio emocional ainda é insuficiente. “Escutam o tempo todo o que devem fazer, mas quase ninguém pergunta como estão. É importante criar espaços de acolhimento psicológico para essas mães”, destaca.
A psicóloga reforça a importância de preservar a individualidade feminina além da maternidade. “É importante que a mãe tenha sonhos, desejos, vida social e momentos de cuidado consigo mesma”, alerta. Assista a entrevista completa.
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