
A gastronomia se consolida como um dos principais critérios na escolha de destinos turísticos no Brasil, tanto para estrangeiros quanto para o público doméstico. Dados da Embratur mostram que a comida já ocupa posição estratégica no turismo global e figura entre os fatores que mais influenciam a satisfação de visitantes internacionais no País, ao lado da hospitalidade e da qualidade da hospedagem. Esse cenário reforça o papel de bares e restaurantes como protagonistas na experiência de viagem e na atração de turistas para diferentes regiões.
Levantamento da Embratur, realizado em parceria com Visa e Ipsos com mais de 8 mil estrangeiros que visitaram o Brasil, aponta a gastronomia entre os aspectos mais bem avaliados da estadia no País.
Para o presidente da entidade, Bruno Reis, o resultado reflete uma mudança no perfil do viajante contemporâneo. Segundo Reis, a gastronomia deixou de ser um atrativo complementar e passou a ocupar posição central no turismo internacional, o que impulsiona deslocamentos planejados a partir das experiências culinárias desejadas.
Entre os brasileiros, o movimento também ganha força. A valorização da regionalidade, dos patrimônios culturais e de experiências autênticas estimula o turismo gastronômico interno. Festivais, produtos com identidade territorial, mercados locais e restaurantes passaram a integrar os roteiros e a motivar viagens.
Na prática, isso se traduz na consolidação de restaurantes como destinos em si. Para a chef Anouk Migotto, proprietária do Donna Pinha, em Santo Antônio do Pinhal (SP), esse processo resulta da combinação de diferentes fatores. Não há um elemento isolado capaz de transformar um restaurante em polo turístico, afirma. O caminho passa pela construção de uma narrativa consistente, que valorize a identidade local, os ingredientes da estação e iniciativas como festivais, capazes de criar conexão com o público.
Anouk destaca que inovação precisa caminhar ao lado da constância. Manter qualidade, regularidade nos sabores e um padrão consistente de atendimento é essencial para sustentar o status de restaurante-destino. Mais do que visibilidade momentânea, o foco deve estar na relevância e na autenticidade da experiência.
Reputação digital como porta de entrada
No turismo gastronômico, a decisão do visitante começa antes mesmo de ele se sentar à mesa. A reputação digital se tornou um dos principais pontos de contato entre consumidor e restaurante, funciona como vitrine e influencia diretamente a escolha do público. Em muitos casos, a busca online representa o primeiro contato do turista com o estabelecimento.
Nesse contexto, a Página da Empresa no Google ganha protagonismo. Informações atualizadas, respostas a avaliações e imagens de qualidade têm impacto direto no desempenho dos estabelecimentos, tanto na visibilidade quanto na conversão de visitas. Negócios com melhores avaliações tendem a aparecer mais nas buscas e registram maior número de pedidos de rota.
Para José Eduardo Camargo, líder de conteúdo da Abrasel, a gestão da reputação digital deve receber prioridade. Cuidar da presença online, interagir com clientes e manter dados completos são ações fundamentais para transformar visibilidade em fluxo de clientes.
Além do Google, plataformas como TripAdvisor e Airbnb também influenciam a decisão do turista ao reunir avaliações e relatos de experiências. Esses espaços funcionam como validação social, especialmente para quem visita o destino pela primeira vez.
Diante desse cenário, Anouk Migotto ressalta que o serviço precisa acompanhar a expectativa criada no ambiente digital. Alinhar comunicação e experiência, desde o conceito da casa até o ritmo do atendimento, é essencial. Equipes bem treinadas e atentas ao perfil do cliente contribuem para transformar uma visita pontual em uma experiência memorável.
Reconhecimento internacional impulsiona setor
O avanço do turismo gastronômico no Brasil também se relaciona ao reconhecimento internacional da culinária nacional. O Guia Michelin exerce papel simbólico ao associar excelência gastronômica à decisão de viagem. Sua classificação máxima, de três estrelas, é atribuída a restaurantes que oferecem uma experiência “que vale a viagem”, o que reforça a gastronomia como motivador de deslocamento.
Atualmente, o Brasil conta com duas casas com três estrelas Michelin — Evvai e Tuju, ambas em São Paulo —, únicas na América Latina com essa distinção. Mais do que destacar casos isolados, o reconhecimento evidencia a maturidade e a diversidade da gastronomia brasileira, presente tanto na alta cozinha quanto em experiências ligadas ao território.
Para Bruno Reis, essa diversidade é essencial para a sustentabilidade do turismo gastronômico, pois atende diferentes perfis de viajantes e dialoga com outros atrativos, como cultura, natureza e bem-estar. Ele também aponta que esse segmento tende a sofrer menos com a sazonalidade, o que contribui para manter o fluxo turístico ao longo do ano.
Nesse contexto, bares e restaurantes assumem papel estratégico no desenvolvimento dos destinos. Ao combinar identidade, experiência consistente e gestão ativa da reputação digital, o setor amplia sua capacidade de atrair visitantes, fortalece economias locais e consolida a gastronomia como um dos principais diferenciais do turismo brasileiro.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
