
Uma situação que envolve o fim de um relacionamento, acusações de violência doméstica, denúncia de negativa de atendimento em uma Delegacia de Defesa da Mulher e suposto sequestro de uma criança. Tudo isso aconteceu em São Bernardo e teve desfecho nesta terça-feira (10/03).
A.S.M, contou que vivia um relacionamento de abusos e violência cometidos pelo marido. Ela disse a uma reportagem local que, em um dos episódios em que sofreu violência física, foi até a DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), de São Bernardo, porém apenas dias depois da agressão que teria sofrido, mas teria ouvido dos agentes que não poderia formalizar a queixa porque as “marcas teriam desaparecido”.
O casal se separou e, segundo A. inicialmente o filho do casal ficou morando com o pai porque ela estava em casa de familiares que era pequena. A.S.M. disse que a guarda do menor é compartilhada, mas contou que o ex-companheiro dificultava as visitas da mãe e que ele teria batido no filho o que motivou o acionamento do Conselho Tutelar. A mulher conta que havia uma ordem de afastamento dele em relação ao menor por conta dessa agressão e que depois disso a criança passou a viver com a mãe até que nesta terça-feira (10/03) quando o menino chegava em casa, antes que tivesse a chance de entrar em casa, o pai o pegou na van escolar e o teria levado embora. Ela registrou o boletim de ocorrência na DDM.
O pai, por sua vez, apresenta outra versão. Ele deu queixa na delegacia por calúnia. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, ele diz que tem a guarda do filho e que a ex-mulher teria mentido sobre o sequestro. “O órgão investiga uma denúncia de maus-tratos contra um adolescente por meio de inquérito policial instaurado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Bernardo. Na ocasião, a mãe da vítima compareceu à unidade policial e recebeu a guia para a realização de exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML). Nesta terça-feira (10), o ex-companheiro da mulher registrou um boletim de ocorrência por calúnia contra ela após ter sido acusado de sequestrar o filho. O homem possui a guarda do adolescente e foi orientado a comunicar os fatos ao Poder Judiciário e sobre a necessidade de representação criminal contra a ex-companheira para a continuidade das investigações, conforme prevê a legislação”, diz nota da SSP.
Sobre o não atendimento quando A.S.M. foi à delegacia denunciar o então companheiro, a SSP disse que está a disposição para acolher a denúncia e apurar o fato. “A Corregedoria da Polícia Civil está à disposição para o recebimento de denúncias relacionadas à eventual má conduta de seus agentes”. O RD tentou falar com A.S.M., mas não conseguiu contato.
OAB
Para a advogada e presidente da Comissão de Violência Doméstica da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Subseção de São Bernardo, Simone Baptista Todorov, se comprovado que A.S.M. procurou a delegacia para denunciar agressão e o registro não foi feito, sob a justificativa de que não haviam marcas aparentes, foi uma falha da equipe. “Bastaria ela trazer a notícia do crime, afinal é para isso que a DDM está lá. Uma delegacia já é um local frio e hostil para a mulher ir lá e contar do que foi vítima, revivendo tudo novamente ou mesmo retratar uma violência que poderia estar ocorrendo há anos e os policiais devem estar preparados para ouvir. Situações como esta, se realmente aconteceram, afastam a mulher da delegacia”, analisa Simone.
A DDM é algo muito novo na estrutura da polícia, mas algumas situações não mudaram, segundo explica a presidente da comissão de advogadas que tratam de casos de violência doméstica em São Bernardo. “Hoje a mulher é mais recorrente na delegacia, mas coisas não mudaram, pelo que tenho conversado com mulheres vítimas, ainda acontecem situações em que sugerem que a mulher que deu causa a algum tipo de violência”, analisa.
Na OAB a mulher vítima de violência encontra orientação sobre o que fazer e o passo a passo de como agir e quais os órgãos procurar. “Basta ligar na OAB (telefone 4362-2446) e pedir para ser direcionada para a Comissão de Violência Doméstica. A gente explica tudo sobre como proceder, o nosso papel é informativo. O que é importante é perceber os sinais, a forma como o homem fala com ela, o tom da voz, a vigilância sobre o que ela faz, sobre os horários… tem que ter muita informação e trabalhar com a prevenção”, orienta a advogada.
No próximo dia 30 a Comissão de Violência Doméstica da OAB de São Bernardo realiza um evento com convidados como o juiz Mário Rubens Assumpção Filho, titular da Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de São Bernardo, membros do Ministério Público, e do também juiz Ronaldo Moreira, da 3ª Vara Criminal de São Paulo. O debate será em torno do tema e também da necessidade de uma segunda Vara de Violência Doméstica para o fórum da cidade. “Essa é uma situação que a gente não queria debater, porque pedir uma nova vara significa que a equipe atual não está mais dando conta de tantos casos. A gente espera um debate muito bom e será uma reunião aberta”, completa Simone Baptista Todorov.
Números
Os números oficiais refletem a realidade de sobrecarga no judiciário. Dados da SSP mostram que, em 2025, 16 mulheres foram vítimas de feminicídio no ABC, alta de 100% sobre 2024, quando oito casos foram registrados. As ocorrências se concentraram em Santo André (7), Diadema (4), Mauá (3) e São Bernardo (2). No mesmo período, houve 36 tentativas de feminicídio. Até então, o ano com mais registros havia sido 2023, com 13 mortes. A tendência acompanha o cenário estadual. São Paulo contabilizou 266 feminicídios em 2025, o maior número dos últimos dez anos.
Somente neste ano já foram registrados três casos de feminicídio. O mais recente foi o de Cibele Monteiro Alves, de 22 anos, que foi morta a facadas no dia 25/02 pelo ex-companheiro Cássio Zampieri, enquanto trabalhava em uma no Golden Square Shopping, em São Bernardo. Ela já tinha medida protetiva contra ele. O agressor foi baleado na perna por policiais e está preso.
Em sua nota a SSP destacou a estrutura disponível para atendimento de casos de violência contra a mulher. “O ABC conta com nove Salas DDM 24 horas, anexas a plantões policiais, onde as vítimas são atendidas por videoconferência. A região também dispõe de cinco Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) físicas, localizadas em Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá. Além disso, ocorrências de violência doméstica também são atendidas por policiais militares femininas da Cabine Lilás. Em todo o estado, o programa já realizou mais de 25 mil atendimentos, com 120 prisões em flagrante por descumprimento de medidas protetivas”, diz o comunicado.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
