
As prefeituras da região listam uma série de ações no sentido de enfrentar as mudanças climáticas, mas a maioria das ações foca na captação de águas através de canalização de rios e construção de piscinões, ações caras e de pouco impacto a longo prazo, segundo ambientalistas. Exceção feita a Santo André e São Bernardo, que pautaram o tema na revisão dos seus Planos Diretores, ainda em elaboração, e a Diadema que quer envolver a análise do assunto junto com acadêmicos e pesquisadores em uma plataforma de dados.
Para o advogado ambientalista e fundador do MDV (Movimento em Defesa da Vida do ABC), Virgílio Alcides de Farias, a maioria dos prefeitos está apontando para o caminho errado. Segundo ele a compensação por emissão de gases do efeito estufa deveria ser o foco principal. “Em Santo André a revisão do Plano Diretor foi para o Comugesan (Conselho Municipal de Gestão e Saneamento Ambiental de Santo André) que fez observações. Uma delas é que seja feito um inventário de emissões de gases do efeito estufa, para saber quanto se emite e quantas árvores precisam ser plantadas para compensar, é o que chamamos de compensação de carbono, mas que prefeituras fazem isso? Eu desconheço alguma que faça”.
Através desde inventário pode-se aumentar áreas preservadas, trazendo alívio das temperaturas, maior permeabilidade do solo, reduzindo-se também as enchentes e contribuindo para uma melhor qualidade da água produzida nos mananciais. “Porque ao fazer a concessão do transporte público não se coloca no contrato medidas compensatórias? No ABC só a Next faz isso. Nos aterros sanitários, onde o lixo é enterrado e gera gases como o metano, que é o pior dos gases geradores do efeito estufa, o que se faz com esse gás? Poderia ser aproveitado para gerar energia. Falar todas as prefeituras falam que investem, mas qual é a ação efetiva?”, indaga o ambientalista.
Os cursos de água da região, não ganham também o devido amparo, ao contrário são modificados e geram mais enchentes ainda. “Os prefeitos só querem canalizar e fazer piscinão, mas onde está o tratamento? Piscinão é um ralo de gastar dinheiro, que só evita a enchente no começo, gasta-se muito para construir e a limpeza e manutenção também são muito caras. E não se tratam as causas da enchente só o efeito delas. Qual será a primeira prefeitura a ‘descanalizar’ um rio? Acabaram com as curvas, com as margens e a mata ciliar deles, ocuparam as várzeas, que são as áreas para o extravazamento dos rios na época de cheias. Aí quando acontece uma enchente vem o prejuízo para as pessoas que perdem suas coisas, para os comércios, além das perdas vem doenças, mortes, mas aí a tempestade passa e os prefeitos param de falar disso”, lamenta o advogado ambientalista.

As ações devem ser articuladas de forma regional, segundo alerta Farias. “As sete cidades da região, mais a Capital devem sentar juntamente com o governo do Estado para mitigar o problema. Está mais que na hora de fazer as grandes empresas poluidoras fazerem a compensação, plantando ou adquirindo áreas nas cabeceiras dos rios para mantê-las preservadas. Nós falamos isso já no Consórcio Intermunicipal, mas parece que não nos ouvem. Essa compensação vem da COP 21, em Montreal, já tivemos a COP 30 e não se avançou nada. Sem que se passe por outras tragédias, dificilmente a mentalidade dos prefeitos mudará. O que prevíamos há 40 anos, está acontecendo agora; lá atrás éramos tidos como ‘ecochatos’, o tempo provou que estávamos certos, mas essa luta é dura, já são mais de 40 anos tentando sensibilizar os governos”, completa.
Santo André
Santo André explicou que está fazendo a atualização do Plano Diretor e que tem feito um planejamento intersecretarial para mitigação dos gases de efeito estufa, que servirá de base para a elaboração da Política Municipal sobre Mudança do Clima. Para isso é feita uma consulta pública.
“A consulta pública para construção da Política Municipal sobre Mudança do Clima foi lançada na dia 16 de dezembro. Neste primeiro momento, a consulta é on-line, no formulário próprio divulgado no material. Em 2026 começarão as rodadas presenciais. O cronograma ainda está sendo definido. A ideia é que toda a população possa participar e ajudar a elaborar o futuro Plano de Ação Climática. São estudadas parcerias estratégicas com universidades locais e especialistas desde já, garantindo o rigor científico e metodológico necessário para fundamentar as propostas e intervenções. A Política Municipal sobre Mudança do Clima incorpora as propostas prioritárias aprovadas na Conferência Municipal de Meio Ambiente de 2024”, diz a administração andreense.
A revisão do Plano Diretor de Santo André está na fase final e deve passar pela Câmara no início de 2026. “Além deste capítulo destacado dentro do Plano Diretor, haverá o Plano Clima, que está em início de consulta pública, trazendo mais ações”.
Diadema
Sobre o tema a prefeitura de Diadema destacou o decreto nº 8545, de 2 de junho de 2025, que criou e regulamenta o Centro Municipal de Emergências Climáticas – CMEC, sob coordenação da Secretaria de Meio Ambiente e Serviços Urbanos e da Defesa Civil, para coordenar a elaboração do PANClima – Plano Municipal de Ações Climáticas. “O levantamento de dados, que está sendo realizado pela Plataforma UrbVerde, deve estar concluído no começo de 2026, iniciando o planejamento das próximas etapas de discussão com as demais áreas da prefeitura e da sociedade civil; a UrbVerde é uma ferramenta digital criada a partir de financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), visando a democratização de dados sociais e ambientais, de forma gratuita e pública; a Plataforma escolheu Diadema para ser ‘Cidade Piloto’ nas discussões de enfrentamento climático, cujo processo conta com a parceria da USP (Universidade de São Paulo), Instituto Pólis e do Consórcio Intermunicipal do ABC”, destaca o paço diademense.
Mauá
Em Mauá, o prefeito Marcelo Oliveira (PT) contou ao RD que tem buscado recursos para resolver os problemas de drenagem da cidade. A verba se destina a construir um novo piscinão no Jardim Zaíra, e ampliar a capacidade do piscinão do paço e cobrí-lo. Ele disse também que, a discussão sobre as mudanças climáticas deve ser travada em âmbito regional, mas ele também quer um compromisso da população, pois os rios estão sujos e áreas públicas acabam tomadas por entulho.
“A discussão sobre mudança climática tem que ser feita de forma regional e também tem que ter a conscientização da população pois não dá continuar com a situação onde para qualquer lado que você olha tem entulho e resíduos sólidos descartados irregularmente em qualquer lugar. Quando chove o rio aparece cheio de garrafa pet, sofá e pneu. Em todos os lugares das cidades está assim. Nas praças estamos fazendo espaços da família brinquedos, temos a troca verde também, com troca resíduos recicláveis por alimento, o que ajuda. Então nós, enquanto governo, à frente das prefeituras temos o nosso papel, o Governo do Estado e o Governo Federal têm o deles, mas se a população não nos ajudar a dificuldade é imensa. Hoje 10% de tudo que a gente retira das ruas é esse jogado na calçada e descartado em área irregular, então não é pouca coisa”, desabafa o prefeito.
O paço de Mauá está estudando medidas a serem implantadas sobre fiscalização destas áreas onde o entulho é depositado e campanha de conscientização. “A gente vai ter que tomar algumas decisões e a primeira é uma campanha forte, à partir do ano que vem, de conscientização sobre o descarte em local adequado. Estamos construindo mais ecopontos e reformando os outros e a novidade é que vamos mudar o horário de funcionamento deles para ter mais tempo para o povo levar lá e assim pensamos em ter um resultado importante”, completa o prefeito. Hoje os ecopontos funcionam até as 17h, de segunda a sexta-feira, mas a intenção é que funcionem também aos fins de semana.
Rio Grande da Serra
A prefeitura de Rio Grande da Serra diz que não há um fórum permanente de debate sobre o assunto na cidade, porém diz que o assunto é prioridade. “O tema vem sendo tratado de forma transversal em discussões técnicas internas e em espaços institucionais já existentes. Em junho, houve a participação da Secretaria de Clima, Meio Ambiente e Bem-Estar Animal no projeto Adapta ABC Paulista: Lente Climática, promovido pela UFABC (Universidade Federal do ABC). A iniciativa reuniu especialistas e representantes institucionais com o objetivo de discutir estratégias de adaptação às mudanças climáticas no contexto regional”, disse a prefeitura.
O paço de riograndense também levou representantes para visita aos laboratórios da UFABC e que essa aproximação pode levar a construção de parcerias. Sobre o Plano Diretor a prefeitura diz que ele foi aprovado em 2019 e que o tema Mudanças Climáticas deve ser incorporado à futura revisão do mesmo.
São Bernardo
A Prefeitura de São Bernardo informa que foi lançado em janeiro de 2025 o CMEC – Centro Municipal de Emergências Climáticas de São Bernardo, instituído como um espaço intersecretarial de elaboração, planejamento e execução de ações no enfrentamento às mudanças climáticas e é coordenado pela pasta e pela Coordenadoria da Defesa Civil.
“O Centro conta com painel de especialistas, academia e consultores conceituados, que podem ser acionados para auxiliar nos processos de elaboração e avaliação das ações. Além disso, foi criado o Fórum Social de Mudanças Climáticas, realizado um chamamento para a sociedade civil participar, e foram reunidos 34 inscritos entre pessoas físicas e organizações da sociedade civil. Atualmente, o CMEC se reúne periodicamente, com quórum reservado para representantes das secretarias municipais envolvidas. Já o Fórum Social de Mudanças Climáticas é aberto à participação de todos os interessados”, relata a administração.
A prefeitura de São Bernardo também está levando o tema para discussão nos bairros e o assunto também vai integrar o novo Plano Diretor. “Ao longo do ano ocorreu o Programa de Educação Ambiental nos Bairros – Nosso Bairro, Nosso Ambiente, que realizou 75 oficinas de educação ambiental climática em 18 bairros da cidade, com o objetivo de debater temas relacionados ao enfrentamento às mudanças climáticas a partir da realidade de cada território. São Bernardo está incorporando, no âmbito da revisão do Plano Diretor, um capítulo específico sobre mudanças climáticas. A perspectiva mais importante que está sendo incorporada, é a determinação de diretrizes claras para as demais políticas municipais, no tocante ao impacto das mudanças climáticas”.
As prefeituras de Ribeirão Pires e São Caetano não responderam.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
