ABC - quinta-feira , 25 de junho de 2026

Andreense selecionado para intercâmbio não é aceito em 2 países por ser autista

Estado South Australia, cujo governo local enviou nota alegando que não foi comprovada a aptidão do jovem de Santo André para o intercâmbio. (Foto: VisitSouthAustralia)

Escolhido dentro do programa Prontos pr­­o Mundo, do governo do Estado, por ser o melhor aluno de escola estadual em que estuda em Santo André, um estudante de 16 anos, não foi aceito por instituições educacionais do Reino Unido e Austrália por ser autista. O jovem, que não teve o nome revelado a pedido da família, é, além de excelente aluno, também ativo, demonstra independência nas suas rotinas diárias e, segundo psicólogo especializado em tratamento de autismo, a decisão das instituições que recusaram o menino é injustificada. O estudante andreense não foi o primeiro aluno recusado para fazer intercâmbio, mas foi o primeiro em que o autismo foi alegado como motivo da recusa.

Bruno Zagato, psicólogo da Subcomissão de Psicologia e Pessoa com Deficiência do CRP-SP (Conselho Regional de Psicologia), subsede ABC, não vê razões que justifiquem o posicionamento das instituições inglesas e australianas. “Pelo que a família conta o adolescente é muito funcional e pelo sucesso que ele teve no processo de seleção eu não vejo porque em não ser aceito. Só por ele já ter passado com psicóloga da prefeitura já seria motivo para ser liberado. Nos parece que ele não tem dificuldades ou problemas de relacionamentos”, analisa.

Para Zagato muitas pessoas com autismo de nível 1 de suporte, como o diagnosticado no jovem intercambista, chegam à vida adulta, com uma vida ativa produtiva, constituindo carreiras e família sem nunca terem tido um diagnóstico de TEA (Transtorno do Expecto Autista). “Tem quem só fica sabendo na vida adulta, isso porque agora que os diagnósticos estão mais precisos e mesmo assim, ser diagnosticado com autismo não significa que a pessoa não terá uma vida normal, alguns terão uma carga de dificuldade maior. No caso do menino de Santo André, as terapias indicadas me parecem ser mais para acompanhamento e pode ser que não seja para toda a vida, isso analisa-se caso a caso”.

O psicólogo vê falta de preparo das instituições de uma forma geral em relação ao autismo. “Se apegaram mais a um estereótipo cinematográfico do que no que o estudante precisa. Viram um filme e acham que todos os autistas são iguais. Todos, inclusive aqueles com nível de suporte maior precisam estar inseridos na sociedade; a ideia é sempre incluir e não discriminar”, conclui o psicólogo.

Cris Antunes, irmã do estudante intercambista diz que ele se desapontou um pouco com as negativas. “Tanto a escola como a família comemoraram quando ele foi selecionado. Soltaram confetes na sala de aula para anunciar que ele tinha passado. Depois fomos para um coquetel na secretaria de Educação junto com os outros intercambistas. Ele sempre foi muito focado nos estudos e nos objetivos que tem de vida. Ele ficou um pouco chateado com a situação, mas vendo nosso esforço em resolver sempre manteve esperança e a fé que tudo irá se resolver.

O aluno de Santo André já tinha até feito roteiros de lugares para conhecer no Reino Unido e sobre como seria a sua adaptação a uma nova cultura. “Ele pesquisou muito sobre a rotina e costumes do Reino Unido. Justamente para se adaptar a qualquer situação diferente da que vivemos no nosso país”, diz a irmã, que é a mais velha de três filhos; além deles há um irmão de 28.

Cris descreve o irmão como muito independente, participativo e, como qualquer jovem gosta de esportes, tecnologia e sonho. Ele já até indica a área que pretende seguir. “Ele é um menino maravilhoso, amoroso e muito estudioso. Ele gosta bastante de futebol e joga todos os dias com os meninos do prédio. Ele também gosta muito da área da tecnologia e quer fazer programação de jogos ou algo nessa área”.

Para a irmã faltou um plano já definido para situações como esta na Secretaria de Educação. “Olha sinceramente a falta de comunicação é o problema porque eles simplesmente aceitaram a negativa e não tiveram nenhuma plano para resolver a situação; apenas aceitaram e acabou. Nesse caso senti falta de preparo e interesse. Ele passou pelas mesmas provas e avaliações que os demais, mas foi o único que passou por essa situação toda”, desabafa.

Secretaria

O programa Prontos pro Mundo, do governo paulista visa atender mil estudantes da rede pública por ano com intercâmbio com quatro países de língua inglesa: Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Em nota, a Secretaria de Educação diz que segue buscando realizar o intercâmbio do jovem andreense com os outros dois países.

Governo do Reino Unido não aceitou estudante de Santo André. (Foto: Divulgação)

“A participação dos selecionados para o Prontos pro Mundo, está condicionada à admissão em instituições de ensino nos países de destino. No caso citado pela reportagem, até o momento, dois países indeferiram a matrícula do estudante com base nas informações dos laudos apresentados pela família, que indicam a necessidade de acompanhamento interdisciplinar contínuo (psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional), além do uso de medicação controlada. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) ressalta que o processo segue em andamento com outros dois países, que analisam a viabilidade de atendimento às condições exigidas para garantir o suporte adequado ao estudante”, diz nota da pasta estadual.

A Seduc informa que o aluno de Santo André não foi o primeiro com laudo de TEA a ingressar no programa e que o próprio Reino Unido aceitou receber outro jovem com esse laudo. “No primeiro semestre de 2025, cinco alunos com TEA e um com deficiência intelectual participaram do programa. Um intercambista com TEA, aceito por instituição de ensino no Reino Unido, tem embarque previsto para 1º de setembro. Outro estudante aguarda análise documental por parte de escolas estrangeiras. O Prontos pro Mundo é pautado por princípios de inclusão e equidade. A seleção dos intercambistas segue critérios inclusivos para que os alunos de todas as regiões do Estado tenham a oportunidade de participar da vivência escolar em um país de língua inglesa. Neste primeiro ano, mil alunos de 411 municípios já foram contemplados”, completa a secretaria.

Austrália

Em nota, porta-voz do Departamento de Educação do Estado de South Australia, justifica a decisão de não aceitar o estudante na falta de condições para garantir o suporte que o jovem precisa por parte da família que o receberia.

“O Departamento de Educação analisou esta solicitação cuidadosamente, incluindo uma revisão completa dos relatórios e dos documentos médicos. Em todos os momentos, o bem-estar do estudante e o dever do departamento de cuidar dele estiveram no centro dessa análise”, inicia a nota enviada pelo departamento.

O porta-voz do estado australiano, South Australia sustenta ainda que não há documentação que comprove aptidão do jovem para estar no programa, embora ele tenha passado por todas as etapas previstas no edital do governo paulista e aprovado. “Nenhum atestado médico foi apresentado ao Departamento de Educação do Estado de South Australia indicando que o estudante está apto a participar do programa de intercâmbio. Dadas as circunstâncias, o departamento indeferiu a solicitação, uma vez que uma família anfitriã de curta duração não teria condições de oferecer o nível adequado de suporte médico e de bem-estar necessário”.

Até o fechamento desta matéria, a embaixada do Reino Unido não enviou resposta.

Abaixo a íntegra da nota (em inglês) do porta-voz do estado South Australia:

“From a Department of Education spokesperson
The Department for Education considered this application carefully, including conducting a full review of the reports and medical documents. At all times, the wellbeing of the student and the department’s duty of care to them, was at the forefront of that consideration.
No medical certificate was submitted to the SA Education Department stating that the student is fit to take part in the exchange program.
Given the full circumstances, the department declined the application, as a short-term homestay family would be unable to provide the appropriate level of medical and wellbeing support required.”

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