ABC - quinta-feira , 11 de junho de 2026

Estatística acidentes com motos aponta para novo recorde de mortes no ABC

Avenida Lions, em São Bernardo, conta com faixa azul, exclusiva para motos, uma das medidas que visa reduzir os acidentes mais graves. (Foto: Omar Matsumoto/PMSBC)

O domingo (27/07) será o 1° Dia Nacional do Motociclista, data criada para a conscientização e ações de condução segura. A Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito) vai marcar a data com uma campanha nacional de conscientização e a 1ª Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas. Apesar da data destacar aspectos do modal, a estatística das mortes no trânsito avança. Se o ritmo de acidentes fatais com motociclistas se mantiver, 2025 ficará para a história como o que mais matou condutores e passageiros de motos, nos últimos 10 anos no ABC. Desde que o Infosiga (Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito) foi criado em 2015 que não se via uma média mensal de óbitos como a verificada de janeiro a junho deste ano, foram 10 fatalidades por mês.

Desde o Infosiga foi criado para analisar a estatística dos acidentes de trânsito, o número mais baixo de mortes de motociclistas no ABC em um ano foi o de 57, registrado em 2018. Em 2023 ocorreu o pico de acidentes fatais envolvendo motociclistas, com o registro de 121 mortes na região, mais de dez mortes por mês. No ano passado as ocorrências com mortes envolvendo a motocicleta caíram para 102, mas ficando ainda como o segundo pior período na série histórica do Infosiga, com média superior a oito casos mensais. Neste ano, de janeiro a junho já foram 63 casos, ou mais de dez casos a cada mês, o que pode fazer com que 2025, se o ritmo de mortes continuar como está, se torne o ano com maior número de fatalidades da história da estatística dos acidentes na região

Enquanto isso a frota de motos não para de crescer. No Estado ela aumentou mais em mais de um milhão de motos em três anos e meio, passando de 5.656.021, no ano de 2021, para 6.658.986 até junho deste ano, um aumento de 17,7%, segundo os números apresentados pelo DetranSP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo). No ABC no mesmo período de três anos e meio, a frota de motos cresceu mais 48.108 veículos, passando de 294.647 para 342.755 motos, alta de 16,3%.

Com experiência na área de projetos de edificações e sinalização de equipamentos urbanos e transportes, a coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário do IMT (Instituto Mauá de Tecnologia), Paula Katakura, considera que há pouco investimento em transporte público o que aumenta a procura por um transporte de baixo custo e mais eficiente, como a moto.

“Nestes últimos anos o Estado investiu muito pouco em transporte coletivo, pouco avançamos em relação a esta infraestrutura com transporte de massa eficiente. No ABC a mobilidade é muito precária; temos algumas linhas de trem pouco conectadas com os diferentes modais ou formas de transporte coletivo e em algumas regiões verificamos a presença de caminhões e carretas de grande porte dentro da área urbana coexistindo com meios de transporte como o das motocicletas e bicicletas. Alguns estudos mostram que nas regiões Sul e Sudeste do país, onde a qualidade das vias é melhor, a velocidade das motocicletas acaba sendo maior e os acidentes fatais registrados ficam acima de regiões mais pobres. É preciso um conjunto de medidas, que incluem ações educativas no trânsito, conscientização da população, fiscalização, investimento em transporte de massa, integração de modais, gestão inteligente de tráfego e infraestrutura viária mais segura”, aponta a docente do IMT.

Para Paula não bastam apenas fiscalização e redução dos limites de velocidade. “Somente isto não resolve. A nossa malha viária é densa, existe um grande deslocamento diário para as áreas centrais onde estão concentrados os postos de trabalho e este movimento gera uma alta demanda de transporte que deveria ser objeto de políticas mais intensas e permanentes. É preciso investir também na educação e conscientização”, destaca.

Faixa Azul

Para fazer frente a essa frota crescente, os municípios têm buscado soluções, como a criação de área para motos nos pontos de retenção dos semáforos e a mais recente delas é a faixa azul. A região tem 13 quilômetros de vias com a faixa azul. Elas estão nas avenidas Prestes Maia (5 km), José Amazonas e Dom Jorge Marcos de Oliveira (3,4 km), em Santo André; e nas avenidas Lions (2,1 km) e 31 de Março (2,5 Km), em São Bernardo. Diadema aguarda aprovação em projeto para implantação da faixa azul nas avenidas Presidente Kennedy, Fábio Eduardo Ramos Esquível e Corredor ABD. Essas avenidas são interligadas, conectam a cidade com São Bernardo pela avenida Lions e são importante ligação com a Zona Sul da Capital. Essa Faixa Azul terá 14 quilômetros, elevando para 27 km a extensão de faixas exclusivas para motos no ABC.

Para a arquiteta e urbanista Paula Katakura, a gestão da mobilidade urbana não deve focar apenas na faixa azul como uma solução milagrosa para o grande número de mortes de motociclistas. “No início desta implantação houve redução de acidentes, mas os investimentos não poderiam ser apenas em faixas azuis esquecendo-se das outras formas de transporte público de massa, que requerem maiores investimentos e que são complexos nas cidades já bastante consolidadas em termos de ocupação urbana”, analisa.

Mototáxi

No campo jurídico trava-se também uma batalha entre gestores municipais e as empresas de aplicativo que oferecem a modalidade de transporte por motos. Essa disputa judicial é capitaneada pelo prefeito da Capital, Ricardo Nunes (MDB), porém ora a prefeitura ganha, ora tem perdido a briga jurídica com Uber e 99. O ABC já teve pelo menos duas mortes de passageiros de motos contratadas por aplicativo. Para a urbanista oferecer transporte de passageiros em motocicletas não é uma solução para a mobilidade urbana.

“É uma ilusão achar que o transporte de passageiros por motocicletas pode ser seguro. Ele é o resultado da desigualdade social que leva as pessoas de menor poder aquisitivo a utilizar este meio de transporte que, na maior parte das vezes, atrai as pessoas mais jovens por ser mais acessível. Não sei se o poder público conseguirá vencer esta briga jurídica”, avalia a professora do IMT.

Para Paula, os números da mortalidade de motociclistas são tão assustadores que já deveria ter mobilizado a opinião pública. “A sociedade deveria se fazer mais presente no sentido de se colocar contra o avanço desta estatística assustadora da mortalidade no trânsito com um recurso que não é seguro”, diz referindo-se ao transporte de passageiros com motocicletas. “O transporte sobre duas rodas é infinitamente mais frágil quando comparado aos outros meios de transporte. É preciso pensar menos no transporte individual, mas não é o que verificamos atualmente em nosso país; desconsideramos o aumento da mortalidade no trânsito e pouco pensamos em termos de sustentabilidade”, completa a urbanista.

 

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