A campanha eleitoral começou oficialmente dia 6, mas a maioria dos candidatos a prefeito do ABC ainda não definiu os slogans e jingles que utilizarão durante a busca de votos. Os dois instrumentos de comunicação refletem a ideia a ser repassada aos eleitores e ajudam a fortalecer aspectos importantes, como os projetos do candidato que serão realizados, além de remeterem ao contexto político pelo qual passa o município alvo. Apesar do peso na campanha, especialistas em marketing político e os próprios eleitores afirmam que as canções não garantem voto.
O cientista político Nilton Tristão diz que não existe campanha sem slogan, que é uma frase contendo uma mensagem rápida. A frase é carregada de empatia e traz o principal objetivo do candidato. “Na maior parte das vezes tem a ver com as hipotéticas deficiências da gestão anterior”, afirma. O marketing político surgiu após a ditadura, quando a população tinha perdido espaço democrático e aceitava facilmente qualquer tipo de colocação. “Hoje isso não funciona desta maneira e ideias como ‘eu sou’ e ‘eu faço’ já não pegam mais. É preciso ser claro e dialogar com a população”, pondera.
Santo André é exemplo. Após a atual administração ser alvo de diversas denúncias de suposta corrupção, parte das campanhas do município traz esta questão à tona com diversos candidatos, que prometem acabar com as práticas criminosas e limpar a imagem do município.
É o caso do candidato Alexandre Fláquer (PRTB), que mesmo sem ter confirmado oficialmente o slogan que utilizará, garante que não há como deixar de lado este aspecto. “Ainda não temos nada definido, mas provavelmente nosso slogan vai girar em torno da tradição de nossa família na história política da cidade e de nossa luta contra a corrupção, tão falada nos últimos meses”, ressalta Fláquer, que adiantou que provavelmente utilize a frase “Tradição Contra Corrupção” como mote da campanha, uma clara referência ao sobrenome de sua família, que por muito tempo ocupou cargos importantes na política local.
Para Fernando Lancha, coordenador de comunicação da campanha de Nilson Bonome (PMDB), candidato a prefeito de Santo André, a tendência é óbvia. Os munícipes passam por momento de autoestima cívica baixa e necessitam de inovação e propostas ousadas. “Nosso slogan não está definido, mas seguirá este raciocínio”, adianta.
Celso Daniel
A coligação de Bonome foi batizada de Viva Celso Daniel e conta com Rafael Daniel – sobrinho do ex-prefeito – como vice, fatos que também indicam a intenção de atrelar à imagem do candidato a do político assassinado em 2002.
Fugindo da linha combativa adotada por grande parte dos candidatos, Carlos Grana (PT) utilizará o slogan “Carlos Grana é PT, Faz Acontecer”, tática usada para atrair o eleitorado petista e ganhar maior popularidade, já que o postulante não é tão conhecido entre o eleitorado municipal. Atrelar o nome de Grana aos feitos federais também está na lista dos objetivos do slogan.
Em outros municípios, os candidatos também aproveitam críticas feitas à administração anterior como inspiração para os slogans. Em Mauá, Vanessa Damo (PMDB) adotou a frase “A mudança começa pela Saúde” como principal estratégia de marketing. O slogan é alusão direta a uma das áreas mais contestadas pelos munícipes na gestão do atual chefe do Executivo, Oswaldo Dias (PT).
Em Diadema, Lauro Michels (PV) sairá às ruas acompanhado da afirmação de que “Diadema pode mais”, uma forma de convencer o eleitorado de que a atuação de Mário Reali frente à Prefeitura não foi suficientemente boa nos últimos quatro anos.
Já em São Caetano, onde a corrida eleitoral promete ser uma das mais tranquilas do ABC, a candidata que lidera as pesquisas, Regina Maura (PTB), utilizará o slogan “Regina Maura: a prefeita da família”. Única concorrente da região que repassou a letra de seu jingle, Regina usa a indicação do atual prefeito José Auricchio Júnior (PTB) como prefeita ideal para a cidade como mote de sua música publicitária. Uma das estrofes, inclusive, faz referência direta ao político, com a frase “Você já sabe em quem o Auricchio confia para ser a nossa prefeita da família”.
Continuidade faz inverso
Se a estratégia dos candidatos que buscam frear a reeleição de seus concorrentes invariavelmente faz com que os slogans e jingles lembrem denúncias e falhas administrativas dos atuais dirigentes, a postura dos que almejam ser reeleitos segue o caminho contrário.
Tão citado implicitamente pelos adversários, o atual prefeito Aidan Ravin (PTB) deve ignorar as polêmicas na Administração e exaltar os feitos, assim como induz o nome de sua coligação: “Santo André mais forte, no rumo certo”.
“Nosso slogan e toda produção publicitária devem seguir a ideia que o nome da coligação propõe”, afirma Mauro Rocha, assessor de Aidan, ao declarar que nenhuma denúncia foi comprovada e que não há motivos para que o candidato não se sinta orgulhoso.
Outro que também busca ser eleito pela segunda vez seguida, Luiz Marinho (PT) também fará o mesmo tipo de campanha, ao utilizar o slogan “São Bernardo não pode parar”. Apesar de não ter confirmado slogan, a assessoria de Mário Reali (PT) afirmou que a publicidade em torno da chapa que busca a reeleição do atual prefeito também terá como tônica a continuidade e a exaltação dos pontos positivos do candidato, sob a bandeira que também batiza a coligação do candidato: “Pra Diadema ter mais”. (MM)
Jingle pode virar ‘música chiclete’, mas não garante vitória
Consideradas pelos marqueteiros peças de grande importância na campanha, os jingles e slogans não são, no entanto, suficientes para garantir final feliz na campanha eleitoral. Por outro lado, os dois recursos devem ser pensados de forma estratégica para fazer com que o eleitor tenha simpatia com o candidato e entenda qual será a marca de seu governo.
Exemplo de que jingle não garante vitória foi o famoso ‘Ey Ey Eymael’, de José Maria Eymael, que tentou se eleger presidente e prefeito de São Paulo durante anos e nunca alcançou os objetivos, apesar da música ‘chiclete’. Outro que ficou a ver navios foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O candidato mobilizou até artistas em 1989 com seu ‘Lula lá’. O jingle entrou para a história, mas o então candidato à presidência não conseguiu a façanha nas urnas.
“O jingle deve unir melodia simpática, ritmo fácil de ser assimilado e letra que informe o eleitor e que o ajude a se identificar com o candidato”, ensina o especialista em Marketing Político, Marco Iten, que alerta sobre o perigo do plágio. Para Iten, o jingle deve ser uma música original. Caso seja feita com base numa música já conhecida, é preciso honrar com o direito autoral, pagar pelo trabalho. “Caso contrário, o candidato estará cometendo um crime que pode significar sua cassação”, adverte.
Roberto Gondo, presidente da Politicom (Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político) e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que o jingle tem impacto diferente entre candidatos à Prefeitura ou ao Legislativo. “Para quem disputa a Prefeitura de uma grande cidade, a música deve conter emoção, precisa ser multimídia, passar informação. É muito mais que só falar da cidade”, diz.
Para candidato a vereador, normalmente o jingle foca mais o nome do candidato para que a sociedade se familiarize com o político. “Vereador normalmente tem dois jingles. Um no começo da campanha, com foco no nome, e outro para ser usado somente algumas semanas antes das eleições, em que o destaque deve ser o número do postulante”, ensina.
Nas grandes cidades, como São Paulo, Gondo ressalta que o candidato pode ter mais de um jingle ao mesmo tempo. “É importante que a música leve em consideração a característica da região. É o que chamamos de segmentação de eleitor”, reforça o doutor em Comunicação Política.
Slogan traduz marca do futuro governo
Presente em todo material de campanha, o slogan também merece planejamento antes de ser criado e ir para as ruas. A equipe de criação deve unir numa frase aquilo que melhor traduz a marca do candidato e de seu futuro governo. Além disso, é preciso se preocupar para que o material não seja utilizado de forma negativa pelos adversários.
“É preciso ter embasamento para criar o slogan, pois é o que irá resumir o que é o candidato. É preciso haver similaridade entre propostas, candidato e demandas do município”, aponta Marco Iten. Roberto Gondo acredita que o slogan tem mais peso na campanha que o jingle. “Além de estar presente em todos os materiais de campanha, ele alcança todas as camadas da sociedade”, defende.
A frase, porém, pode ser utilizada contra o candidato, a chamada contrapropaganda eleitoral. Estes casos, que normalmente afetam mais aqueles que têm histórico político, podem ser previstos e até evitados pelos marqueteiros. “Uma campanha bem feita consegue antecipar este tipo de situação e evitá-la”, reforça Gondo. (AB)
Projetos são decisivos, diz eleitor
Candidatos ao Paço e ao Legislativo não devem apostar apenas em um bom jingle para conquistar uma vaga na Câmara ou no Executivo. Segundo os eleitores, a música pode até ficar na memória, mas o conhecimento sobre a cidade e os projetos dos candidatos são mais relevantes.
Na opinião do pintor Joab Ferreira, de 37 anos, os jingles apenas ajudam na hora de ir à urna. “Para votar numa pessoa, precisamos saber o conteúdo das propostas”, lembra o eleitor de Santo André, que ainda se recorda dos jingles utilizados pelo ex-prefeito Brandão.
“Me lembro muito bem daquele que dizia Loló, PT, PT, PT. Eu tinha filhos e sobrinhos pequenos e eles cantavam”, diz a dona de casa Albina Mendes, 52 anos. Mas mesmo com a música dos candidatos na cabeça, Albina conta que não se deixa influenciar pelos jingles, mas pelos projetos de mudança de cada aspirante a vereador ou prefeito.
Desiludido com as propostas e atuação dos políticos brasileiros, o aposentado Meif Buzaide, de 82 anos, afirma que os jingles não ajudam o candidato. “Só prejudica, porque o eleitor sabe que tudo é propaganda. Sabe que todo mundo quer um biquinho para chegar ao poder. Sabe que ninguém trabalha para o povo ou para o País, apenas em proveito próprio”, conta o aposentado, eleitor desde 1964 e ainda assíduo nas urnas.
Ao contrário dos demais, as irmãs de São Caetano, Marli de Almeida, dona de casa de 62 anos, e Maria José de Almeida, monitora de crianças especiais, de 58, acreditam que os jingles conquistam votos. “No dia da eleição, de repente você não tem candidato na hora de votar e você lembra da música e acha alguém em quem votar”, afirma Marli, que assume já ter escolhido candidatos pelo teor das músicas de campanha. (CB)
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
