Médicos sofrem pressão para receitar remédio sem comprovação científica

Pesquisa da APM (Associação Paulista de Medicina) revela que praticamente metade dos médicos, 48,9%, já sofreu algum tipo de pressão do paciente ou de familiares do doente para ministrar tratamentos que não tenham comprovação científica de sua eficiência. O resultado desta pesquisa remete em parte ao uso da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e condenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A pesquisa foi feita com 1.984 médicos que atuam em serviços públicos e privados entre os dias 25 de junho e 2 de julho. Para o diretor de defesa profissional da APM, João Sobreira de Moura Neto, há uma pressão para que os médicos prescrevam medicamentos sem eficácia comprovada, como no caso da cloroquina para o tratamento da covid-19. “Há uma pressão por medicamentos que ainda não tem comprovação científica, que não tem indicação formal para a covid-19. Já chegam na consulta solicitando ao médico que prescreva. As entidades não podem corroborar com esse tipo de indicação, o (Hospital Albert) Einsten, por exemplo contraindicou que seus médicos prescrevam”, aponta.

Para o diretor da APM, a disseminação de fake news aliada a polarização política e ideológica reforçaram esse tipo de situação em que o paciente pede um medicamento que o médico não quer prescrever. “Isso leva a uma insegurança; como vai chamar o profissional e desqualificar quem está preparado para desempenhar essa função. Se vai com essa predisposição de impor, já inviabiliza a relação entre médico e paciente. A doença (covid-19) mata e tem que ter acompanhamento correto e objetivo, com comprovações laboratoriais e dos centros de pesquisas científicas”, comenta Moura Neto.

João Sobreira de Moura Neto, diretor de defesa profissional da APM, participou do RDTv desta quinta-feira (09). (Foto: Reprodução)

Embora a pesquisa não mostre os motivos de desentendimentos entre pacientes e médicos, revela que ao responderem a pergunta “Presenciou agressões a médicos, outros profissionais ou colaboradores administrativos nas áreas de atendimento?”, 37% dos 1.077 profissionais disseram que sim. A agressão mais comum, com 21,5%, é a violência psicológica, seguida pela verbal (20,7%); 7% dizem ter presenciado agressões físicas e 2,2% contam que viram depredações de áreas de atenção à saúde.

A pesquisa da APM revelou ainda que apenas 15,6% disseram aprovar a forma de atuação do Ministério da Saúde durante a pandemia. Na pesquisa do mês de abril a aprovação era de 72%. Neste mais novo levantamento 42% dos médicos consideraram a atuação do ministério como péssima ou ruim. Em outro questionamento o estudo mostra também que 89% dos médicos consideram que o país terá uma segunda onda da covid-19  e destes 37,3% avaliam que esta segunda infecção será mais grave que a primeira. Outro dado é que 57,2% confiam muito mais na literatura médica do que o que diz o Ministério da Saúde. “Em termos de administração pública isso mostra que no país cada um por si e Deus por todos”, comenta o diretor da APM.

Os médicos também estão adoecendo não apenas pela covid-19, mas psicologicamente por conta do receio de contágio e pressão no ambiente de trabalho.  69,2% dos pesquisados informaram que têm conhecimento de colegas com sintomas de ansiedade e 63,5% com estresse, além de 49% com exaustão física e emocional. “Estamos mantendo contato com as secretarias estaduais e municipais, tentando minimizar essas situações; reivindicando melhores condições material e insumos, tentando orientar para que os horários dos médicos não sejam tão estressantes. Naturalmente esse é um momento de muito stress e os colegas podem também nos procurar para orientações pessoais”, finaliza João Sobreira de Moura Neto.

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