Uma viagem à história da Mata Atlântica

“Como era a Mata Atlântica que nossos tataravós viram? Qual o tamanho das árvores?” As perguntas instigavam o botânico Ricardo Cardim, que, desde a juventude, coleciona imagens da floresta, ainda em preto e branco. Os retratos antigos mostravam troncos enormes, capazes de abrigar famílias inteiras. Pouco restou de toda essa exuberância: só 12% da floresta original está de pé. Mas o pesquisador queria ir além da frieza dos números.

Com um fotógrafo e outro botânico, partiu em uma expedição por seis Estados atrás de grandes exemplares de árvores que teriam sobrevivido ao tempo e à devastação. “Procuramos as florestas mais bem preservadas que ainda conservassem as árvores históricas, seculares.” Os achados foram publicados no livro Remanescentes da Mata Atlântica: as grandes árvores da floresta original e seus vestígios, lançado no fim do ano passado.

O grupo se norteou por mapeamentos já realizados e também tentou encontrar, na mata, a trilha de volta até as antigas árvores que apareciam em fotos dos séculos 19 e 20. No percurso pela porção leste do País, encontrou boas surpresas. Uma delas, um jequitibá-rosa com 13,6 metros de circunferência no sul da Bahia, virou assunto. “Terminando a trilha, vi a árvore. Parecia uma pirâmide. O tamanho é descomunal.”

A emoção também tomava conta dos colegas de aventura. “Tinha uma árvore bem difícil de ir. Ficamos o dia inteiro andando na mata fechada até chegar. E, então, foi surpreendente”, lembra o fotógrafo Cássio Vasconcellos, sobre uma grande figueira, localizada no interior paulista. “Uma árvore desse porte passa a sensação de um ser especial, dá vontade de agradecer e reverenciar.”

A equipe encontrou ainda a segunda maior árvore de São Paulo, um jequitibá-rosa, em Santa Rita do Passa Quatro. De tão altas, as árvores deram trabalho ao fotógrafo, responsável pelos registros do livro. “No meio da floresta, não tinha ângulo e, às vezes, nem luz.” O grupo usou até drone para as fotos. De cima, minúsculos pontos coloridos em meio ao verde traduzem a insignificância dos expedicionários dentro da mata.

Apesar da beleza dos achados, a principal conclusão do trabalho de campo foi melancólica, diz Cardim. “Talvez tenhamos perdido as grandes árvores. O que ficou é uma amostra.” O grupo percorreu 12,5 mil quilômetros sem jamais encontrar um exemplar tão grande quanto os que aparecem em velhos álbuns. “Em uma época em que pouco se fotografava, conseguiram registrar árvores gigantes. Quantas outras não existiam, talvez até maiores?”

Destruição

A explicação para o paradeiro desses monumentos também aparece no livro de Cardim, em forma de fotografias. Homens sobre troncos partidos exibiam, orgulhosos, ferramentas de destruição da mata, em uma época em que a floresta era vista como empecilho à modernização. Balsas cobriam os rios com madeira para exportação e, nas páginas do jornal, anúncios convocavam “turmas de serradores” para explorar matas virgens.

“Localizamos museus, arquivos e colecionadores em busca de testemunho material e visual do processo de extração de madeira e destruição da Mata Atlântica no fim do século 19 e início do 20”, diz Giancarlo Latorraca, diretor técnico do Museu da Casa Brasileira, instituição que apoiou o projeto e abriga hoje exposição com as imagens históricas.

Para Cardim, a fragmentação da floresta ao longo do tempo – os remanescentes estão pouco conectados e há menos circulação de animais e insetos – ajuda a explicar por que a mata não se desenvolve como antes.

O passado e o presente da Mata Atlântica traz, ainda, pistas sobre o futuro. “O que fizemos com a Mata Atlântica estamos fazendo hoje com Amazônia”, diz Cardim. “Se antes foi a ferro e fogo, hoje a derrubada é com equipamentos de altíssima capacidade de destruição”, lamenta Mario Mantovani, da Fundação SOS Mata Atlântica.

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