
O barulho provocado por caminhões, máquinas e equipamentos tem prejudicado o descanso de quem vive no bairro Fundação, em São Caetano. As reclamações se concentram no cruzamento da rua Antônio Barile com a rua 28 de Julho, onde, segundo relatos, há descargas antes das 6h e atividades que avançam para depois das 22h, inclusive aos finais de semana e feriados.
Ao menos três empresas na região são apontadas pelos moradores como responsáveis pelos ruídos. Segundo manifestações nas redes sociais, o problema ocorre há anos e já motivou reclamações à Prefeitura, à Guarda Civil Municipal (GCM) e à Polícia Militar.
Apesar dos registros, a situação persiste, e a vizinhança cobra providências para fiscalizar as atividades e verificar se as empresas respeitam as normas de funcionamento.
Além do incômodo, a exposição frequente a ruídos, principalmente durante a noite e a madrugada, pode trazer consequências para a saúde física e mental.
Impactos na saúde
Em entrevista ao RD, o psicólogo Davi Rodriguez Ruivo Fernandes explica que o sono é fundamental para a recuperação do organismo, a regulação hormonal, a consolidação da memória e o processamento das experiências emocionais. “Durante esse período, o organismo realiza processos importantes de recuperação. Quando uma pessoa está exposta continuamente a ruídos, especialmente durante a noite e a madrugada, esses processos podem ser prejudicados pela dificuldade de iniciar o sono, pelos despertares frequentes e pela fragmentação do descanso”, afirma.
O especialista ressalta que os efeitos do barulho podem ocorrer mesmo quando a pessoa não desperta completamente. “O organismo continua respondendo aos estímulos sonoros, o que pode comprometer a continuidade e a qualidade do sono”, explica.
A curto prazo, a exposição pode provocar cansaço, sonolência durante o dia, dificuldade de concentração, prejuízos à memória, irritabilidade e alterações de humor.
Segundo Fernandes, a falta de descanso também interfere na regulação emocional e pode reduzir a tolerância à frustração, além de dificultar a tomada de decisões e a convivência cotidiana. “Quando essa condição se prolonga, os efeitos podem se acumular. A literatura científica relaciona a exposição crônica ao ruído ambiental a respostas persistentes de estresse, alterações cardiovasculares e maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental”, alerta.
A interrupção recorrente do sono também pode contribuir para o agravamento de sintomas ansiosos e depressivos. O psicólogo destaca, ainda, que não existe um tempo mínimo universal de exposição ao barulho para que os prejuízos apareçam. A intensidade, a frequência, a duração e o horário dos ruídos, além das condições individuais de saúde, influenciam as consequências. “Um ruído intenso pode provocar alterações no sono em uma única noite, enquanto exposições menos intensas, mas repetidas durante semanas, meses ou anos, também podem produzir consequências importantes”, afirma.
O especialista acrescenta que a exposição recorrente ao ruído ultrapassa o desconforto individual e pode ser considerada uma questão de saúde pública. “O descanso não deve ser tratado como um luxo ou uma questão de adaptação individual, mas como uma necessidade fundamental para a saúde e a qualidade de vida”, conclui.
Questionada pelo RD sobre as reclamações, as ações de fiscalização e as medidas previstas para coibir a perturbação do sossego no bairro Fundação, a Prefeitura de São Caetano não se manifestou até o fechamento desta matéria.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
