O uso das chamadas canetas emagrecedoras e o tratamento da obesidade como doença crônica estiveram entre os principais temas do 30º Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026), realizado entre 24 e 26 de setembro pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Em entrevista ao RDtv, o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Abran e fellow da The Obesity Society, dos Estados Unidos, destacou os avanços dos medicamentos conhecidos como agonistas incretínicos, mas ressaltou que o tratamento exige acompanhamento médico contínuo.
Segundo o especialista, as canetas representam mudança no tratamento da obesidade porque, além de contribuírem para a redução do peso, podem melhorar doenças associadas. Ele alertou, porém, que a obesidade é uma condição crônica e, portanto, requer cuidados prolongados. A interrupção do acompanhamento pode favorecer a recuperação do peso perdido.
Ribas Filho também explicou que, em alguns casos, o tratamento pode combinar mais de um medicamento, conforme a avaliação médica. A discussão sobre terapias associadas esteve entre os assuntos abordados no congresso, que também reuniu trabalhos científicos nacionais e internacionais.

Uso em crianças e adolescentes
O uso de medicamentos para emagrecimento exige atenção especial quando envolve crianças e adolescentes. Após o congresso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou orientações sobre o tratamento da obesidade nessa faixa etária.
O órgão não recomenda medicamentos, cirurgias bariátricas ou dispositivos para perda de peso em crianças de até 9 anos. Para adolescentes de 10 a 19 anos, o uso de medicamentos deve ser considerado apenas quando outras medidas, como mudanças na alimentação, na atividade física e no estilo de vida, não apresentarem resultados após seis meses.
O presidente da Abran compara o tratamento da obesidade a uma pirâmide. Na base estão o plano alimentar, a atividade física e as mudanças comportamentais. A farmacoterapia vem depois e, em situações específicas, pode ser considerada a cirurgia bariátrica.
O médico orienta que pessoas interessadas em iniciar o tratamento procurem um especialista, como o nutrólogo, e recebam acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. Ele também defende uma abordagem sem discriminação ou estigmas relacionados ao peso. “Temos que acolher esse paciente impactado pela obesidade e não discriminá-lo”, afirma.
Preservação da massa magra
Outro tema discutido no congresso foi a importância de preservar a massa magra durante o emagrecimento. De acordo com Ribas Filho, a perda de peso também pode provocar redução da massa muscular, o que exige atenção à alimentação e ao consumo adequado de proteínas.
O especialista explica que o plano alimentar deve considerar as necessidades individuais e pode incluir, quando houver indicação, suplementos proteicos. A redução excessiva da massa magra pode aumentar a fragilidade e o risco de sarcopenia, condição caracterizada pela perda de força e massa muscular.
Para o nutrólogo, o tratamento não deve se concentrar apenas na redução da gordura corporal. O objetivo é promover a perda de peso com preservação da saúde, sempre com orientação profissional.
Alerta sobre o comércio ilegal
O comércio irregular de canetas emagrecedoras também foi tema da entrevista. A compra desses medicamentos exige receita médica, e o especialista alerta para os riscos de produtos sem procedência conhecida, que podem não ter passado pelos controles de qualidade e segurança.
“É um medicamento injetável. O paciente precisa saber de onde vem o produto e como foi produzido”, afirma Ribas Filho, que recomenda evitar o uso sem prescrição e acompanhamento médico.
O nutrólogo também comentou a chegada de novos medicamentos ao mercado após a queda das patentes da semaglutida e da liraglutida. Segundo ele, diferentes laboratórios passaram a comercializar produtos com essas substâncias, sob nomes comerciais distintos.
As duas medicações apresentam diferenças no intervalo de aplicação: a liraglutida é administrada diariamente, enquanto a semaglutida tem aplicação semanal. O médico afirma que o custo também deve ser considerado na escolha do tratamento, sempre sob orientação profissional.
Ribas Filho reforça que esses medicamentos podem provocar efeitos colaterais e exigem monitoramento clínico e exames laboratoriais. Ele citou casos de pancreatite associados ao uso indiscriminado e destacou que a automedicação pode trazer riscos à saúde.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
